CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.


terça-feira, 31 de agosto de 2010

WORKPLACEBULLYING, MOBBING, ASSÉDIO MORAL




Isso tudo significa: violências repetitivas no local de trabalho. Para quem já entendeu o que significa bullying, aqui, o processo é o mesmo, isto é, a vítima também é “eleita”.

O assédio moral no trabalho é caracterizado por abusos de conduta de um funcionário, ou grupo, sobre outro através de atitudes que causam danos morais e psicológicos à vitima. Trata-se de humilhação, desonra e exploração do trabalhador, causando-lhe sofrimentos propositais.

A vítima é ‘eleita’ para ser agredida, chantageada e depreciada pelo chefe ou por um grupo de funcionários que o querem subestimar dentro do departamento ou em toda a empresa.
Qualquer funcionário pode ser alvo de bullying no trabalho. Ninguém está a salvo do sistema capitalista de produção, o que põe nas mãos de um chefe despreparado a pretensão de ‘achar’ que pode, através do medo, explorar seus subordinados.
_ Vai ter corte! A meta não foi atingida. Não sabemos se o quadro de funcionários será o mesmo amanhã.
Ai, que estresse!

_ Amanhã cheguem mais cedo, temos que adiantar e liberar o lote, ainda amanhã. Demoramos a conquistar esse cliente, temos que dispensar-lhe atendimento preferencial. Venha mais bem vestido, amanhã. Hoje, somos a imagem da nossa empresa.
Sorria se você estiver sendo descrito neste texto.

_ Esse horário do café é bom, heim! _ Ele? Hum... não dura muito. Com aquele tipo desengonçado não agrada o público. _ Olha lá o jeito dele, não desgruda do trabalho, não se levanta nem pro café. _ Não se junta, o rapaz? _ Workaholic, coitado, preciso do emprego. Se permanecer na empresa virará armário de canto.
Oh, grupinho da pesada!

_ Terminou o seu trabalho, mas tem outras coisas que pretendo que faça. Vá ao almoxarifado, procure as caixas datadas de 1900, desça-as todas. O cliente precisa, pra hoje , cópia de um documentos daquela época. Pra hoje!
Oh, perseguição!

_ Passem os seus cartões, mas voltem para o trabalho. Fiquem só mais um pouquinho. Amanhã, a meta será maior do que a de hoje, que conseguimos atingir raspando. Amanhã queremos esforço dobrado.
Oh, exploração!

São poucos exemplos que citamos para brincar com o texto, mas a realidade em determinados locais de trabalho é essa, sem tirar nem pôr nada!

Note que é repetitivo: “Amanhã vai ser pior que hoje”. Quem é que aguenta, todos os dias, “hoje e amanhã”, um clima de desaforo dessa forma dentro de uma organização? Quem produz com satisfação trabalhando sob pressão, sendo ameaçado se não conseguir isso, se não conseguir aquilo, como se funcionário já não existisse mais humano; mas, máquina.

Uma organização que tem um chefe que trata os que deveriam ser seus companheiros de trabalho com tirania, acaba destruindo equipes, levando profissionais à angústias, depressão, doenças psicossomáticas, quando não, até ao pedido de demissão, talvez esse o objetivo do chefe.
Vejo atitudes de bullying no local de trabalho como um prato de sopa jogado na parede. O macarrão gruda no alvo, mas o caldinho escorre e contamina todos os departamentos, degradando o clima entre os funcionários.

Há três formas de bullying no ambiente de trabalho:

Horizontal – agressões entre os trabalhadores do mesmo nível. Com frequência acontecem entre equipes onde há a competição. Se há um que se destaca mais e a competição impera, o destacado, certamente, será a próxima vítima.

Vertical ascendente- quando o funcionário assediador é menos graduado, isto é, ocupa cargo inferior em relação à sua vítima. Não digo que essa prática seja rara dentro das empresas. Acontece de os funcionários, individualmente ou em grupo, armarem para assediar um chefe. Boicotam a produção para vê-lo perder o cargo.

Vertical descendente - É o mais comum. O assediador exerce um cargo superior e pratica o bullying sobre um funcionário que ocupa um cargo inferior.

Um chefe, ou um grupo (sujeito ativo ou assediador) hostil submete, através de suas tiranias, o funcionário alvo (sujeito passivo ou assediado) a um estado de estresse crônico, levando-o a adoecer, prejudicando o rendimento do seu trabalho, podendo este vir a desenvolver a síndrome do pânico, entre outros prejuízos. Ainda que consiga produzir sob tensão, um funcionário assediado pode produzir uma bomba silenciosa dentro de si inocentemente.

Se a bomba da vítima estoura e o coitado mandar o assediador tomar ‘suco de caju’ , pronto! Certamente será penalizado. Mas ele aguenta, pelo menos tenta, quando pedir demissão não pode. Precisa do emprego. Se percebem que a vítima tem família e precisa daquele salário para sobreviver, tripudia mais ainda sobre ele, até que este peça demissão ou seja demitido por improdutividade.

Em resumo: Secada a última gota do caldinho, o bagaço joga-se fora.

Hei, você! No seu contrato de trabalho está escrito que deve praticar condutas abusivas, exercer a tirania? Sabe o que significa ser ‘buleiro’ no local de trabalho?

O agressor, no local de trabalho, é uma pessoa que se sente incomodada. Ele não é o superior, muito pelo contrário, se sente inferiorizado na presença da vítima, por isso a faz alvo sobre a qual descarrega sua insegurança.

Acredite, esse profissional agressor tem problemas sérios, ele é prejuízo certo para uma organização. Quer ter um funcionário ‘buleiro’ na sua empresa?

Ninguém está no mercado de trabalho ou ocupa uma posição profissional por acaso. Um profissional, graduado ou não, deve saber discernir, e muito bem, o certo do errado em suas atitudes. E a “criança” não poderá alegar que estava apenas brincando.

Num ambiente de trabalho onde não há sinergia, não há produção.

Combata o bullying no seu ambiente de trabalho. Divulgue essa ideia.

Rita Lavoyer está palestrando nas escolas e empresas interessadas em saber mais sobre esse fenômeno.

sábado, 28 de agosto de 2010

A ESCURIDÃO




Absorta me vi enquanto vagava
Tortuosos caminhos tateados
Pela sombra da escuridão.
O toque das copas fechadas que eu ouvia
Desviou-me do silêncio
Encanado nos corredores do vento.
Um grito escondido encontrou-me
No medonho escuro da floresta,
Trazendo consigo imagináveis imagens
Que sobre mim um calafrio sopraram.
Um frio!
A escuridão é fria e úmida.
O frio é claro e seco.
A umidade é cínica e concreta.
Queria sair dali, mas não achava a porta.
Tudo era escuro.
A porta era claramente escura.
Impalpável.
Segui adiante, sem instinto.
Atravessei a frente
E cai em mim.
Rita Lavoyer


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

NORMALÓIDES




Quantas escolas perdidas em anos. Quantos anos de escola perdidos. Quantos anos perdidos na escola.
A criança vai à escola para aprender a ler, escrever e, quem sabe, se tornar um bom cidadão. Mas tem coisas na escola que a gente aprende e nunca mais esquece.

Aprendeu a ler, escrever e a decorar. Aprendeu que caju tem vitamina C. Não engorda, combate a gripe e ajuda a crescer.

_ Tome vitamina C! Não engorda e ajuda a crescer. Caju! Tome suco de caju! Suco de caju tem vitamina C!


Achou o assunto interessante e o bestunto tratou logo de decorar. Não podia ver ninguém pra baixo, ouvir uma tosse, a mais baixa que fosse, ou um espirro que mandava logo a sua:


_ Tome suco de caju! Caju tem vitamina C! Você vai se curar, você vai ver!

Encheu-se como jarra do tal suco e foi à escola. Sentia-se encharcado com a tão grande informação. Era o dia daquela prova e na jarra levou a sua cola.

_ Tenha paciência! – ele suspirou indignado. _ Prova de Ciências na primeira aula não tem espírito que se acalma!


Mas ele decorou pra valer aquela da vitamina C.


A professora, com muita competência, pegou o giz, e avisou que as respostas da prova seriam respondidas com “X”.


Ela passou pelas fileiras distribuindo as folhas xerocopiadas. Numa das mãos estava o chumaço de provas e o giz. Com a outra, distribuía as folhas de perguntas que esperavam por um certo “X”.


Algumas crianças não conseguem desenhar perfeitamente as letras, deixando algumas palavras quase ilegíveis. Ele era uma delas. Preferia que a prova tivesse aquelas perguntas com linhas embaixo onde ele pudesse escrever as suas respostas. Claro, queria fazer uso da sua letra feia.
Quando ele leu a prova ficou tonto. Atônito! Botou as mãos na cabeça e gritou dentro de si:

_ Cadê a vitamina C!? O suco de caju!?


Nesse ínterim a professora deu um espirrinho.


_ Vai tomar suco de caju!


A voz do coitado estava tão trêmula que ao som do nervosismo fez soar outra coisa. Aí começou o seu dilema.


Há muito tempo era isso mesmo que a professora queria. Disfarçando o seu cinismo profissional, mandou aquele aluno direto pra diretoria.
A classe toda ria. Balançava a cabeça concordando com aquilo que a líder fazia.


Até provar ao diretor que suco de caju pode ser tomado, tomada de rancor, aquela professora pôs um zero bem redondo na prova daquele garoto indisciplinado.


_ Indisciplinado! – ela disse àquele pai quando dela satisfação foi tomar. - Ele é meio anormal. Tem idéias absurdas, não condizem com o que é fundamental. Trate o seu filho. Não podemos discutir questões em que ele próprio decide o que fazer. Como pode? Ele quer ter autonomia. Sujeitinho desse porte não é bem aceito em nenhuma Academia.


A esse personagem inoportuno daremos o nome de aluno.


A lógica se torna ilógica quando burrica fica. Quando o burro fica manso não há pedra que o arriba. Se a birra é pesada como pedra, apedreja-a. Se a pedra pegar na birra e essa ainda mansa não fica, pegue o laço. Se ainda não der jeito, põe camisa de força ou use cabo-de-aço. Se amarrou com mau jeito, hum... Depressa! Enfie agulha debaixo da unha. Não há ativo que não se torne passivo com isso tudo, e o seu todo será jarra para, então, enchê-lo de conhecimento. Logo, conhecendo todas as razões, quaisquer que sejam elas, o burro fica inteligente. Tão inteligente quanto aqueles que o encheram de razões, embora com delicadas rajadas de canhões.
O inteligente é insábio quando amansa burro pra poder ficar por cima. Quem um dia não foi inteligente-insábio que atire a primeira pedra.


Quanta asnaria para falar da alfabetologia.


Contrariada, ela, sempre com o giz na mão, conversando com os braços, fazendo a maior confusão:


_ Pra ele não há remédio – gritou bem alto sendo ouvida por todo o prédio. _ Não se ajusta ao perfil da escola. Por mim o mandaria embora.


E lá se foi o tempo. O tempo passa, uva passa, ferro também mete o cacete e onde passa boi passa boiada todo dia e então, de Ciências à Biologia, que bestiologia! A mesma professora lá na frente ele encontrou, mas nunca se esqueceu que suco de caju tem vitamina C, é bom pra gripe e ajuda a crescer.


Aprendeu a fazer dissertação e a responder com “X”. Continuava com as suas idéias que deixavam os professores de cabelos em pé. Agora já é aluno médio, além do caju aprendeu que vitamina C é um ótimo remédio. Está sempre se deparando com a ‘fessora’ de ‘Biô’ que vive gripando.
Como de uma boa lição tira-se assuntos que não se esquece, de novo, ganhou um zero bem redondo por suas idéias que sempre aborrecem. Pra ele é real; para outros, imoral.
Aí ele mandou de vez ao primeiro espirro que a ‘fessora’ deu.


_ Tome vitamina C! Se não tiver chupe um bom caju!


Era alergia. Alergia a giz. A voz dele, aos ouvidos dela, soava como fuzis.

Foi quando passou a conhecer o coordenador daquela escola e, também, os bois de sua classe, com suas cabeças balançando e as bocas babando.


Já estava assimilando que não havia interação entre ele e o mundo daquela diplomada.
Ora, ora! Já compreendia que aquela profissional o via de dentro pra fora, mas ela não ‘o’ assimilava e se irritava.
Ele era o rascunho da história dela.

Já tinha letra de adulto e nas dissertações tirava sempre nota azul. Não que os professores tivessem entendido os textos dele, mas a cor era um pretexto para ficarem longe de qualquer fruta.
Pelo que sim, pelo que não... melhor foi não sair na contramão. Já tinha a sua filosofia:


“Não se desgaste, se não quiser, com um profissional qualquer. Guarde do seu recipiente e saia de frente à procura de um outro seu, assim, tão bem diferente.”


Existem textos que, por uma questão ou outra, alguém não consegue ler. Por causa das suas histórias aquele aluno vivia por um fio, mas delas não desistia e as aceitou por desafio.


Aquele jovem fez da vitamina C o seu motivo para crescer.

Tomou um bom suco e foi prestar o vestibular.


Já contam 2000 e hoje da era Cristã, e aquele aluno pôs à prova tudo o que guardava em sua mente sã.


A Medicina ensina muita coisa, mas para ser profissional na área precisa muito amor.


Nem todo labor dignifica e faz do homem – doutor.
Nem todo doutor dignifica o labor e faz do homem – rancor.
Nem todo homem dignifica o rancor e faz do doutor – labor.
Não só o labor, mas também o rancor dignificam o homem e fazem dele doutor de qualquer causa.
Se enquanto doutor a sua causa for o homem, dissolver-se-á o rancor, sua causa terá efeito, e eleito será o homem-doutor de dignificado labor.


Oh, sina! A professora de Ciências, a ‘fessora’ de ‘Biô’, aquela danada também era pediatra aposentada.
E não é que ela ensina àquela turminha de Medicina que a vitamina C é fundamental à vida do bebê!?
Num outro dia, a aula foi laboratorial. Uns botaram o avental; outros, a embalagem.


_ Credo! - Ele gritou. _ Aula de cérebro é uma aula cerebral. Será que este cérebro, tão artificial, é igual a um cérebro de animal?


E ele celebrou em pensamento fervilhante:


“Não! O animal tem o seu próprio instinto e o homem, estando extinto, torna-se irracional. Enquanto aquele foge para sobreviver, alguns homens vivem para de nada fugir, mas fogem de si mesmos, sem coragem, para dentro de suas próprias embalagens.”


Talvez quisesse levar uma lança no peito. Queria furar os tímpanos dos outros, com os ecos de suas rimas pobres, e achava aquilo bem feito.


Aquele aluno sempre tinha outra alternativa para qualquer assunto, e aquela classe, nada criativa, balançava a cabeça toda vez que a ”sôra “ com ele discutia.


Não deu outra. O dia fatídico chegou e outra vez suco de caju aquela velha ‘sôra’ quase tomou.
Ele pensou bem:


“Já sou quase doutor, farei um receituário. Recomendarei à ela um bom suco de caju.”


E lá foi o aviãozinho papel. Letra feia com ‘sora’ cega, foi o maior escarcéu.


Eita, universitário zebrário!
Então ele conheceu o reitor.


Foi quando desistiu daquele curral; enquanto todas as cabeças estavam na vertical, em sobe e desce, concordando com o radical, a dele estava na horizontal em vem- e- vai.


“Tanto burrico querendo ser médico. Será que isso é inédito?” - pensava ele. Mas se corrigia:

“ Serão burricos ou burróides? Nem um e nem outro – respondeu-se : são normalóides.”


O mundo, às vezes, não entende o diferente. Às vezes, é indiferente a ele. Mas há pacientes que necessitam de um diferente bem paciente. Um diferente consciente, que vê no paciente não um padecente, mas um ser humano desgastado com o cotidiano e que, embora esteja por um fio, saiba tornar aquele momento digno de ser vivido.


Há alternativas para afirmativas do tipo : NÃO HÁ REMÉDIO. Acredita nisso?


Não só de doença morre o homem.
Não só de bala perdida morre o homem.
Não só de suicídio morre o homem.
Não só de atropelamento morre o homem. Não só!
Também afogado no desconhecimento de si mesmo morre o homem.


Saiu no mundo olhando pro sol. Parou. Pôs a mão no peito, pegou o seu crucifixo e o beijou.
Continuou caminhando com os pés descalços na rua quente de pedra preta.


Queimou, bolhou, resistiu. Sarou-se. Virou artista. Mais um na multidão. Vive a arte que melhor sabe fazer – busca o compreender, imaginando-o e curando-se.


Porque aprendeu que nem só de morte morre o homem.


E que caju faz rima pobre, até formar eco que rompe destino, para alcançar e consolar o c., digo, caju de urubu albino.


Prestenção! Nóis num pode fazê rima aqui, siô!


RITA LAVOYER

Republicação. Texto publicado em junho/2008

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

FUI ESTUPRADA


Quando ela me chamou para conversarmos, titubeei, pois não esperava pelo chamado. Algumas desculpas eu criei para evitar o encontro, mas ela era insistente.


Não havendo como escapar daqueles convites, fui ao local marcado. Estaria lá apenas para uma conversa, como ela havia me proposto: uma conversa.


Acho que na seleção que ela fez o meu nome era o único,várias vezes repetido, dentro da sacolinha surpresa. Para falar sobre o asunto escolheu-me. Era esse o fato que me intrigava. Por que eu?


Fui muito bem recebida; ela é muito gentil. Acomodou-me em uma poltrona bastante confortável, enquanto que a dela não apresentava as mesmas características. Olhou-me fixamente e abriu um sorriso sincero que mostrava seus dentes brancos combinando com a sua tez morena.


Não demorou muito os nossos cumprimentos e balelas para abrirem o canal da comunicação. Começou a falar sobre o que pretendia, aquilo que ela, erroneamente, pensou que eu gostaria de ouvir.


Não levei papel, caneta e muito menos o meu gravador que sempre carrego na bolsa, mas fui armada com grades no peito, cadeado no pensamento e tampões nos ouvidos.


Falava com tranquilidade e expunha o que pretendia com muita clareza. Não tive dúvidas das inteções dela.


Fechei os olhos e fiquei assistindo às cenas e aos movimentos dos corpos. Não vou relatar aqui o que eu sentia enquanto ouvia. Quando tinha a coragem de abrir os olhos, respirava fundo e me perguntava: por que eu?


Contou-me o seu primeiro caso, o segundo e outras tantas vezes. Aquela polidez toda ao expressar-se comigo sobre um assunto tão delicado foi sendo, aos poucos, substituída por um soluço seguido por um tremor no braço esquerdo. Essa reação "adequada" àquela mulher , aliviou-me, sinceramente.


Aquelas atitudes delicadas, até então apresentadas, foram, rapidamente, dominadas por um surto de histerismo incontrolável. Eu assistia às cenas e aos gritos enquanto ela arrancava suas roupas e, nua, naquela sala de luxúrias e orgias, pude notar cicatrizes profundas nos seus seios, barriga, costas e quadril. E ela gritava o que você pode imaginar.


Diante daquela cena, o homem adentrou o ambiente e, sem mais demora, corri até a cozinha, apanhei uma faca e desferi-lhe golpes mortais. Cortei -o nas juntas e o joguei aos cachorros, os dele.


Eu não fui para a cadeia, ele não foi para o cemitério e a protagonista desta história é protagonista de muitas outras ficções mais bem contadas do que esta. É só olharmos a vida ao nosso redor com um olhar mais observador , que notaremos que muitas histórias são iguais: batem na trave, mas entram, fazendo a galera agitar de emoção, inclusive os cachorros.



Texto publicado no Jornal Folha da Região em 03/08/2010.

imgem da internet.