CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.

2012 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O PEQUENO PRÍNCIPE







" ...E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho.
Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.
Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer cativar ?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.
Significa criar laços...
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.

E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.


Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo... Mas a raposa voltou a sua idéia:




- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...




A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:




- Por favor, cativa-me! disse ela.




- Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.




- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!




Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.




Mas tu não a deves esquecer.




Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"








Antoine de Saint-Exupéry











Avise-me antes sobre a sua visita, para que eu fique feliz uma hora antes da sua chegada.





Se tem algo a me dizer que me fará feliz, diga-me. Do contrário, entenderei que a minha alegria é a causa da sua tristeza.


Rita Lavoyer é membro da Cia dos blogueiros

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

GRAFITE - UM OBJETO DE ESTUDO






um rio precisa de muita água em fios para que todos os poços se enfrasem: se reatando, de um para outro poço, em frases curtas, então frase e frase, até a sentença-rio do discurso único, em que tem a voz a seca que ele combate.” João Cabral de Melo Neto- 3


Apresentar os textos inscritos no espaço urbano, os chamados grafites, serve-nos para postular a importância de analisar as várias manifestações humanas que se organizam na produção de sentidos.

Além disso, o estudo pauta-se em repensar a língua e a linguagem, assim como Fiorin, em Elementos de Análise do Discurso , evidencia em sua obra :

“ O texto pode ser abordado de dois pontos de vista complementares. De um lado, podem-se analisar os mecanismos sintáticos e semânticos responsáveis pela produção do sentido; do outro, pode-se compreender o discurso como objeto cultural, produzido a partir de certas condicionantes históricas, em relação dialógica com outros textos”. 4

A escolha desses textos grafitados nos muros e paredes das cidades, projeta às novas formas de interpretação e estudos de textos da língua portuguesa; os textos e/ou manifestações textuais de sentidos, extravasam o papel, a moldura, o limite do olhar. Não se pode mais analisar textos desconsiderando o enunciador, o que a enunciação e o enunciado permitem contextualizar e dialogar com o mundo, com o espaço, com o enunciatário.

O texto referencia o pensamento humano. Os grafites, esses textos pintados através do spray, do pincel, das tintas, muitas vezes explicam a vivência deste mundo vivido, descrevem os distintos modos de vida, mostram as expressões significativas da linguagem, tanto de uma cidade como São Paulo, Rio de Janeiro e outras do território mundial. Assim como a análise dos seus discursos, os grafites devem receber um tratamento especial da sociedade, e sua concretização passa a influenciar novos modos de vida das gerações, extrapolando as fronteiras territoriais urbanas, mesmo porque constituem traços de uma identidade do enunciador.

Por isso, apresentamos o estudo da análise do discurso dos textos dos grafites espalhados na topologia urbana, a partir do percurso gerativo de sentido. É no percurso gerativo de sentido que identificamos a disposição de seus componentes e como eles se relacionam uns com os outros.
Percurso gerativo de sentido tem a definição:

“O percurso gerativo de sentido é uma sucessão de patamares, cada um dos quais suscetível de receber uma descrição adequada, que mostra como se produz e se interpreta o sentido, num processo que vai do mais simples ao mais complexo”. 5

Para proceder a análise de um texto a partir desses patamares que vai do mais simples ao mais complexo, a semiótica discursiva é um instrumento que nos possibilita compreender o texto, analisá-lo e interpretá-lo, e como ele é concebido, ou seja, como resultante da articulação entre dois planos que o estruturam e que funcionam correlacionados: o plano da expressão e o plano de conteúdo.
O plano do conteúdo é onde as oposições básicas fundamentais são concretizadas em forma de objetos e valores, além de serem figurativizados e tematizados. Nesse plano são apreendidos os efeitos de sentido produzidos e reiterados pelos formantes e suas disposições e inter-relações.

No Dicionário de Semiótica, o plano de conteúdo é o plano onde nasce a significação das variações culturais do texto:

“O plano do conteúdo é o plano onde a significação nasce das variações diferenciais graças às quais cada cultura, para pensar o mundo, ordena e encadeia ideias e discurso.(...) O termo conteúdo é assim sinônimo do significado”. 6

O outro plano que compõe o estudo do texto é o plano da expressão, que corresponde ao modo de manifestação e concretização do plano do conteúdo em uma forma única, composta por substâncias heterogêneas da expressão do verbal escrito, do visual tipo: tipografia, projeto gráfico do visual (pintura, desenho com sua dimensão plástica), formado por texturas, volumes, bem como as dimensões dos diferentes suportes: muros, paredes, postes, viadutos. Tomemos a definição do plano da expressão seguindo o Dicionário de Semiótica:

“Na esteira de L. Hjelmslev, denomina-se plano da expressão o significante saussuriano considerado na totalidade de suas articulações(...) O plano da expressão está em relação de pressuposição recíproca com o plano do conteúdo, e a reunião deles no momento do ato de linguagem correspondente à semiose”. 7

É da relação estrutural orgânica entre os dois planos, cuja relação de pressuposição recíproca está sempre implicada num texto, que depende, segundo a semiótica discursiva, o percurso gerativo de sentido.

Trabalho sobre Grafite - Pós-graduação em Linguistica-semiótica -Campus Unesp-Araraquara.

3- FIORIN, José Luiz. Elementos de Análise do Discurso. São Paulo. Editora Contexto.2002, p.39
4 _____ Op.Cit. p.10
5 _____ Op. Cit. p. 17
6 GREIMAS, ªJ., COURTÈS, J. Op. Cit., p.81
7 ________.Op.Cit .p.174.

domingo, 21 de novembro de 2010

FORA DE ÓRBITA




Estou me sentindo fora de órbita. Há uma alma que quer ir e um corpo que precisa ficar, fazendo tempo e ponteiro a rota inversa, machucando o círculo vicioso do compasso do meu coração, quebrando-lhe o eixo.

Fiquei sem gravitar e de consciência pesada por não conseguir realizar algo que alguém quisesse gostar. Não gostam de querer e eu não sei saber esse não querer gostar deles.

Meu corpo, não minh’alma, careceu imediato leite quente com açúcar. Repor energias fazia-me necessário. Fora da rota, precisava recompor funções dentro da minha galáxia.

Que vazio é esse que me consome hoje? Nem raiva?

Enchi minhas mãos com um livro de substâncias. Nem elas supriram o vácuo entre o meu corpo e o meu espírito que não se aquieta.

Houvesse uma dor estaria melhor.

Enquanto o clarão não chega me apregôo no olhar misterioso da noite, fazendo-me peso em seu globo ocular. Deixo a espada do vento cortar-me a malha das mil faces trazidas pelos seus gumes.
Entro, acendo a luz e me dirijo ao espelho. No foco, não vejo em minha boca os meus lábios. No lugar deles somente a marca dos tempos sem sorrisos.

Nas minhas janelas há telas, não pregão. Na minha história a personagem sou eu quem decide o seu final, o seu ano-luz.
O universo me espera.

Rita Lavoyer

sábado, 20 de novembro de 2010

Grafite




Etimologicamente, grafite designa “bastonete de grafita, mineral de carbono, usado na fabricação de lápis”. Daí originou-se o termo grafitismo, que, segundo a Enciclopédia Mirador Internacional é definido como:
“O grafitismo distingue-se de qualquer outra forma de atividade motora pela intenção de registro, que aparece desde as primitivas inscrições das cavernas”. 1

Grafite vem do italiano graffiti, que é o plural de grafito, que por sua vez, significa em latim e italiano: “escritas feitas com carvão”.

Grafite, vem também da palavra grafhein, que em grego significa escrever, grafite é o nome que se dá ao lápis, de onde se conclui que grafite tem tudo a ver com escrever, escrever com carvão.Grafitar também é pintar nos muros.











O termo grafite não sofreu alteração quanto à sua grafia na língua portuguesa e o mesmo acontece com os sujeitos que realizam esta produção, os chamados grafiteiros: aqueles que pintam nos muros e paredes das cidades. No Dicionário MEC, o termo grafite é denominado como:

“Grafite: Palavra ou desenho em muros ou casas, paredes, representando marca ou assinatura de alguém. Grafita. Grafiteiro: Diz-se de, ou indivíduo que escreve grafite.”

Com o surgimento dos textos do grafite nas cidades, um novo visual apoderou-se das esferas urbanas. Esses textos são feitos nas ruas, com o intuito de propagar idéias e transformar os muros da cidade em espaços livres para a criatividade. No lugar das pichações, surgem desenhos alegres e coloridos que decoram o território urbano. Ao adentrar pelos espaços urbanos grafitados, o sentimento que se tem é de estar circulando pelas revistas das histórias em quadrinhos ou mesmo estar dentro dos programas infantis televisivos.



É um mundo diferente daquele nu e cinzento que a cidade muitas vezes oferece. Assim, a destruição do espaço, antes concreto, real e cru, surge agora através da proliferação do visual com uma nova plástica.

O grafite é uma manifestação que surgiu nas periferias dos grandes centros urbanos, mas entre os seus difusores, consciência é a palavra chave dos que defendem e produzem os textos do grafite.
Depois de ser considerado ato de vandalismo e de revolta, o grafite ganhou status e passou a fazer parte do espaço urbano contemporâneo, acabou ganhando espaço nas galerias de arte de todo mundo e frequentando escolas como prática contra o vandalismo e a pichação
Das discussões que surgem sobre o texto grafite, uma delas é quanto ao caráter artístico deste texto. A discussão a respeito do artístico das expressões vistas no fazer do texto grafite não se dá apenas no grafite, mas também em outras atividades culturais populares. Só para não se perder no propósito do texto nesse assunto, o próprio conceito de arte é bastante complexo, não podendo se definir displicentemente o que é ou não arte.

Então, o que é grafite? Grafite e pichação são iguais?

Apesar das pichações serem letras e palavras cifradas espalhadas pelo espaço das grandes metrópolis há quem confunda com os grafites, que são considerados como forma alternativa de explorar possíveis veias artísticas. No pensamento de quem faz os textos do grafite ou os admiram, o grafite é visto como forma de expressar sentimentos e emoções, de colocar o talento em prol da cidade e do seu espaço.
Seria desta forma, um prazer, uma realização textual coerente, enquanto pichar é só uma aventura, “adrenalina” como os pichadores dizem.



Imagens recebidas via internet.

MEC-Ministério da Educação e Cultura. Dicionário de Língua Portuguesa. Brasília, 1996. p.540
1-Mirador Internacional. Encyclopedia Britannica do Brasil Publicações Ltda. In. Grafite Pichação & Cia. RAMOS, Célia Maria Antonacci. São Paulo, Annablume,1994, p.13.

Graffiti: Beco Vila Madalena - São Paulo, maio 2007

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A PALAVRA E O SEU PODER

IMAGEM DA INERNET



... e o mundo se fez. Tudo começou a partir da palavra.

De extrema relevância o artigo do amigo Orson Peter Carrara: “Doe Palavras” Folha da Região- A2, de 27/10/2010. Acesse o site www.doepalavras.com.br

Quanto poder a palavra tem?
Ela tem força e poder que ela própria desconhece. A palavra é formada por letras que trazem em si uma genética distinta. Tem vida, destino e intenções.

Se nos propusermos a pronunciar várias vezes a palavra ‘amor’, cada uma que sair de nossas bocas terá peso e medida diferentes.

Na pronuncia, embora contendo em si as mesmas letras /a/m/o/r/, estas se diferenciarão de todos os outros sinas que utilizarmos para dizermos outras ‘amor’, simultaneamente.
Cada ‘amor’ falado traz em si um traço químico. As letras, embora idênticas, possuem variedades de substâncias resultando infinitas combinações, determinando os caracteres de uma e de outra. Logo, a letra possui o seu DNA.

Os movimentos do diafragma, essenciais para realizarmos a respiração, também são únicos; o músculo expande-se para que o oxigênio se transforme em som ao passar pelas cordas vocais. Os movimentos diferem-se um do outro. Um som, embora passe pelo mesmo canal, jamais sentirá a mesma vibração, resultando em diversas intensidades sonoras.

Se estamos em estado de estresse, o cérebro manda sinais às glândulas suprarrenais que produzem, ao mesmo tempo, os hormônios de alerta: adrenalina (medo) e noradrenalina (raiva) que, se liberados com mais intensidade, alteram os batimentos cardíacos. O sangue flui mais rapidamente, envolvendo o cérebro e os músculos nessa troca de informações que vão se modificando à medida em que buscamos no nosso âmago as forças para continuarmos pronunciando o que desejamos: gritando, xingando, cantando, maldizendo, elogiando, etc.

Depois de extravasarmos as palavras, os hormônios deixam de ser secretados e o nosso emocional volta ao seu ritmo normal, permitindo-nos ou não, um estado de equilíbrio perfeito, o que chamamos de homeostase.

Os processos aos que o sistema humano se submete para levar a palavra ao alcance do seu receptor, torná-la-a única. O receptor, tal qual um aparelho, capta os sinais eletromagnéticos desta emissão (palavra) e os converte em substâncias positivas ou negativas, de acordo com o sentimento que os impulsionou.

Os nossos receptores irão recepcioná-las, e cada qual, respeitando o sistema do seu organismo as decodificarão, sentindo das palavras ouvidas a força que elas trazem em si.

A palavra de elogio tem o peso de uma pena. Quando pronunciada ela sobe; a de ofensa, o peso de uma âncora. Pronunciada ela dilacera grande parte das células do receptor, prejudicando-o.

Muitas palavras demasiadamente elogiosas são falsas, mas nenhuma palavra ofensiva deixa de ser verdadeira concretização do sentimento do falante.

Somos uma empresa, nada menos do que 100 trilhões de células, cujos órgãos internos nos proporcionam vivermos bem se dermos a eles condições de se manterem em perfeita harmonia.
Somos enigmas. Nossas exteriorizações podem produzir efeitos inimagináveis.

Todos podemos explodir, mas isso não nos dá o direito de mandarmos aos nossos alvos os mísseis verbais que produzimos cujo potencial nosso consciente desconhece.

Nossas palavras são feitas com partes da nossa estrutura. Têm nossos cromossomos.

Quantos filhos nós geramos em nossas bocas, frutos de nossos sentimentos, para matar a todos os instantes.
Palavras tombam estátuas, depõem líderes, condenam, erguem muros, eliminam nações; mas elevam, elegem, libertam, constroem, salvam vidas, criam mundos, porém...

Tudo pode acabar a partir dela.

Não perca tempo. Acesse o site acima, mande a sua palavra de conforto, e se proporcione um estado de equilíbrio perfeito. Aproveite esta oportunidade.

Rita Lavoyer

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O HOMEM E SUAS MANIFESTAÇÕES NO ESPAÇO URBANO





Acreditamos que cada época histórica tende, em seus registros, a despertar o sentido de novas descobertas e problemáticas. O grafite vem respondendo a essas necessidades, dando sentidos novos à história do ser humano e aos modos como vive. Assim se deu na década de 70, quando se vivia um período de turbulência e opressão do regime militar. Nesse percurso histórico, surge em meio ao “cinza” e “pálido” futuro, uma nova consciência das coisas manifestadas pelos textos do grafite.


Essa consciência da impermanência das coisas, da passagem do tempo e dos problemas sociais caracteriza os textos do grafite, tentando penetrar nessas realidades através de suas enunciações e de seus enunciados.


O texto grafite narra a história pelas inscrições nas paredes e muros das urbes. Sua trajetória procura constituir, pelos e nos textos, o mutável, porém, mais fundamental que qualquer coisa para os processos de sentidos e significações do grafite, ele se define em si mesmo, com uma condição de partilha, de condicionamento e de realizações, divide com a população das cidades contemporâneas as condições de vida, os acontecimentos, o lúdico, as emoções vividas.


Esses tipos de textos tematizam o cotidiano nos modos como se apresentam na topologia urbana. Por meio de como se manifestam, abandonam o rotineiro causando ruptura. O grafite não é uma pintura nas telas convencionais, pois ele executa suas funções e conta suas histórias nos suportes da própria cidade, trabalhando a própria superfície, colocando-se nos muros e paredes, postes e fachadas pelo emprego do spray, do pincel, das máscaras. Desta maneira, esse texto revela e valoriza os espaços da urbe e a ele se integra num todo, e mais: continua além, expandindo-se em outras cidades do mundo. Com isso, ele acaba realizando a tarefa de contar a história para sustentar a si mesmo, para tornar possível a sua existência, seu “corpo”, sua própria realidade. Nesse ato de “narrar”, de “contar”, o grafite se faz comunicação.


Entendemos que ler e escrever são atos comunicacionais, mas pintar, gesticular, dançar, grafitar, pichar, também. Essas e outras manifestações humanas são fundamentais e essenciais na comunicação, e devemos considerá-las para assumirmos convictamente nossa condição de bons receptores e produtores de textos, conscientizando-nos das possibilidades de participação social por meio da comunicação.


Acontece que, às vezes, o próprio homem se limita a considerar certo, correto e natural, aquilo que já lhe é imposto, que já está pré-estabelecido, esquecendo-se de dar sentido e apresentar outras partes da realidade comunicacional.


A comunicação pensada em sua totalidade, dotada de sentido, funde-se com a própria vida do ser humano, e por isso, já que está ligada à cultura, aos atos sociais de trabalhar, andar, pintar e todos os outros fazeres do sujeito.


Os destinadores do grafite são adolescentes, meninos e meninas, homens e mulheres que desejam ter sua voz e vez expostas aos olhares dos outros sujeitos. As escolhas do local e a do suporte são importantíssimas, uma vez que ter escolhido estar ali, nos muros e paredes, para se contrapor à manifestação dos meios de comunicação social do grupo dominante é fazer ser visto como é possível, já que se manifestar pelos meios dominantes não é sempre possível.


Aliás, apontar as problemáticas do povo, criticar a forma de andamento das escolhas políticas e das questões sociais de maneiras diferentes, são atitudes que podem ferir alguns interesses públicos e por isso, é bem provável, não ser possível manifestá-las nesses meios. Desta forma, escolher estar no suporte aberto da cidade, do mundo, através de suas paredes e muros, é um convite a todos para participar deste processo. A partir dessa participação, o grafite convida o outro, os outros, a interagir com ele e aceitá-lo.


Ao provocar uma mudança nos estados de alma dos que passam e veem , os textos do grafite e seus destinadores não serão mais tratados como marginais ou transgressores, mas sim, como sujeitos articulados e integrados à sociedade, inseridos e não excluídos, como aconteceu na maioria das vezes.


O grafite e sua significação são constituídos de relações de apreensão e comunicação com os transeuntes. Nessa intersemiose, texto, espaço, rua e transeuntes comunicam-se como se tivessem fios interligados, desenhos e formas aparecem em pontos estratégicos e se conectam, circulam no imaginário urbano num jogo lúdico de figuras fictícias que “brincam” com o espaço.


Assim, textos reais e imaginários fluem nas veias das urbes, desenhos se divertem esparramados no tecido urbano. E a nossa visão, cansada de poluição visual - política, comercial entre outras - agradece nas mais diversas linguagens.

Rita Lavoyer desenvolveu trabalho sobre grafite para conclusão do Curso de pós-gradução em Linguística –Unesp- na área de semiótica.