CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.

2012 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - 13ª classifica no TOP 35 na 4ª semana de abril de microconto Escambau.

2017 - Classificada no 7º Concurso de microconto de humor de Piracicaba.


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

SUPERE-SE





Eu sou pequenininha

Da perninha fina

Não uso sai curta

Porque não combina.

Os meus joelhos são grandes

Como maçaneta de portas,

Mas se as pernas são tortas

O que me importa?
A minha barriguinha é grande

Mas aqui não tem bebê.

Ela é grande mesmo

De tanto eu comer... comer... comer...

Os meus braços são curtos,

Parecem até que são fraquinhos,

Os abraços que eles dão

São sempre apertados.

Os meus braços estão sempre abertos,

Nunca estarão cruzados.

Dentro da minha boca

Tem mais aparelho do que dentes

Então eu mostro tudo num sorriso

Porque vivo sempre contente.

O meu olho direito é manco,

O esquerdo ,às vezes, me deixa na mão,

Pra que olhos perfeitos

Se o olhar verdadeiro

Trago no coração!?

Já me chamaram de orelhuda,

Careca e até branquela.

Quanta gente distraída...

Se esqueceram de dizer

Que eu também sou bem magrela.

Minha língua também é presa

Pra falar até gaguejo.

A minha voz é fina

Não nasci para cantora.

Sou cabeça dura pras regras

Ainda assim sonho ser escritora.

Vez enquando arrumo confusão

Quando vou discutir ideia

Já disse: sou cabeça dura

Não trago miolo de geleia.

Também sei quando estou errada,

quando o outro também está.

Experiência da idade...

Eu relevo e me relevam

Preservamos a amizade

Quando saio do prumo

Giro a baiana, dou piti.

Depois que a cena termina

Rodo o filme de novo

Para eu poder me divertir.

O meu “R” é retroflexo,

“Idioma” mais chique do mundo!

Sabe de uma coisa?

Eu não estou nem aí,

Das minhas qualidades

Não tenho nenhum complexo.

Além do mais eu sou assim!

Se ocê querê, ou não querê,

Fazê o quê?

Não me mande receita de mudança.

Eu só sei isso: ser Rita Lavoyer.


Assinado  : Rita Lavoyer




sábado, 22 de setembro de 2012

FLOR AZUL


Flor Azul

Todas as flores têm as cores

Que Deus lhes deu.

Que Deus lhes deu!

A minha mulher é de um azul tão lindo

É a flor mais linda que a aquarela escreveu.

Oh! Mulher linda, flor admirável,
Todo o seu colorido é azul cor de infinito.

Ela embeleza todo céu e todo o mar,

Existe toda de azul

Para me amar,

Para me amar.


É o meu carnaval, fantasia e purpurina.

É a flor brilhante de azul com serpentina.

Que alegria é a minha mulher,

Uma flor do campo com azul cor de encanto.

Canto ela aqui, canto acolá.

Canto o seu azul que só sabe encantar.

Minha mulher, minha fortaleza,

É uma joia rara, é uma flor azul-turquesa.

Por ela sou muito orgulhoso,

Minha flor-mulher é de um azul maravilhoso.


Ela tem um tom que aquece o meu frio,

Minha flor-mulher tem a cor azul-anil.

O perfume que ela tem me leva ao céu.

O gosto da minha flor é azul da cor do mel.

Minha flor-mulher tem o azul do esplendor,

Deus fez todas as flores com o azul da sua cor.

Oh! Mulher linda, flor maravilhosa,

Todo o seu colorido é azul cor de infinito.

Eu não sei viver sem o azul da sua boca.

A minha mulher, entre todas, é a mais louca.

Essa flor-mulher torna o azul todo brilhante.

No leito de suas pétalas me faz todo amante.

Por essa cor dela eu me vejo enlouquecido.

Hoje sou um homem porque visto o seu vestido.

Nele eu me envolvo porque o azul só me compraz.


A minha mulher é o jardim com a cor da paz.

A cor que borbulha debaixo dos nossos lençóis

Foi tomada em benefício para brilhar todos os Sóis.

Esse homem que há em mim é o ramo da minha flor,

Porque ele é tão Mulher quanto o nosso Criador.


RITA LAVOYER é membro da Cia dos blogueiors e UBE

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

JARDINEIRA

Jardineira

No jardim da minha casa

não tem jardineira.

Na jardineira da minha casa

não tem terra adubada.

Não pus semente na terra da jardineira

do jardim da minha casa

porque não há.

Na casa do meu jardim

há um jardineiro.

Ele plantou sementes na

terra adubada enquanto

é sempre primavera.

Há flores crescendo na

casa do meu jardim,

vivendo nas estações

desta Jardineira.



Rita Lavoyer



domingo, 16 de setembro de 2012

FÉRTIL

Vejo uma borboleta amarela chegando para a sua estada.


Vejo uma margarida vermelha querendo-se enfeite.

Ela bate as asas sobre a margarida vermelha que enfeita um jardim.

Muitas borboletas chegam. Todas amarelas, e sobrevoam muitas margaridas vermelhas do grande jardim.

Vejo-as batendo as suas asas dando movimento às pétalas das margaridas vermelhas.

Vejo os caules das margaridas. Eles são verdes. Muito fortes.

Nos caules eu vejo folhas. Elas são verdes. Bem verdes.

Eu posso ver os caules sendo agarrados por muita grama policroma.

Sob ela eu vejo terra. Muita terra que esconde as raízes das margaridas vermelhas de caules e folhas verdes e que hospedam as borboletas amarelas.

São raízes, profundas raízes como as veias, os vasos, as artérias de nossos corpos.

 

Vejo corpos subterrâneos de marrom, que escalaram o verde intermediário, sobrevoarem o pensamento do meu jardim vermelho e amarelo, polinizando margaridas e borboletas.


Autoria Rita Lavoyer- Membro da Cia dos blogueiros e UBE
Obs- Esse poema está no meu livro Partida.

imagem http://1.bp.blogspot.com/_GhlVI6dsgG8/TB- o3Mw_vI/AAAAAAAAAcA/rQoFNYWZj_c/s1600/borboletas.jp

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A FLOR DE BRONZE



      Ela se levantou, abriu a cortina do quarto e a luz do dia ofuscou-lhe os olhos. Da janela de vidro ela não podia enxergar o que se passava do lado de fora. A neve encobria tudo enquanto era inverno. Ela correu até a sala e avistou sobre a mesa de jantar um sino das antigas. Trazia um formato de flor com gotas na sua composição. Ela projetou nele vários tempos, tirando variados sons.

      A menina o pegou apertando o na mão.Com o polegar ela o esfregava de vez em quando. Abriu a janela para sentir o ar fresco que trazia o cheiro de cio que os animais exalavam. Ela os via correndo pelo jardim. Esforçou uma subida na cadeira de balanço para alcançar o assento. Aconchegou ali o seu corpo sedutor. Era primavera e ela via a vida se fazendo lá fora. O vento que adentrava aquela sala balançava-lhe a saia, erguendo-a. Movimentava a cadeira de balanço para auxiliá-la na investida. A flor suou entre os seus dedos. Soou naqueles lábios um sorriso de satisfação que ela selou com o polegar.
      O calor derretia o metal que compunha o punho daquela mulher, deixando gravado nela o cheiro fiduciário de azinhavre. O algodão esquentava-lhe o corpo. Prostrava-se de tempo em tempo entre as janelas abertas que não atraiam o vento que, escasso, findava-se por ocasião do ocaso. O suor ardeu o corpo daquela senhora. O que lhe corria na face, ela enxugava com o polegar, enquanto os outros dedos agarravam-se ao seu sino de flor. Soou o tombar do dia.

      É época de ela colher os frutos do seu tempo. Forçou um movimento e, de leve, pode ouvir o vento. Passou-se o tempo, o vento. Não era mais sino havia estações. A flor não passou da sua mão. Estava sem o brilho antigo que a revestia. Tinha ferrugem. As gotas que compunham sua ornamentação caíram. O badalo consumiu-se no seu polegar. Ela pretendia fazê-la soar. Não houve som naquela flor.

      A velha olhou o lado de fora e avistou o escuro. Nele reluzia uma neve branca. No meio dela uma margarida vermelha destoava daquela estação. Solitária, ela abriu a sua porta e saiu no tempo.O vento frio ardia-lhe a face. Os seus passos afundavam na neve. Na investida, deixou cair o que lhe restava da flor de bronze. Sem esperar o dia amanhecer e não cedendo nenhuma polegada, jogou-se para alcançar aquela primavera antecipada.

 
Autoria RITA LAVOYER, membro da Cia dos Blogueiros e UBE

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ParaNorman - o Filme



Ir ao cinema com filhos em pleno domingo à tarde, aproveitando o final de um feriado prolongado, é pra lá de bom.

Melhor do que isso: ótimo

_ Mãe, preciso muito assistir ao filme ParaNorman!

Nem questionei as razões da criança. Aceitei o convite de pronto. Aliás, não recuso convites ultimamente.

Um filme pra arrebentar!

ParaNorman assina embaixo do que eu já disse sobre o roubo das energias de elementos sobre outros, ou sobre outro, no fenômeno bullying.

O filme conta a história de Norman – o anormal- Anormal? O que é ser normal? Por acaso ignorar a realidade dos fatos torna um saber melhor do que o outro, do meu sobre o seu?

Norman é o louco – termo mais fácil para qualificar quem conversa com os vivos que desencarnaram. Hum... Aqui o ‘X’ da questão.

_ Esse menino é louco. Vive falando com os mortos! – falava o pai.

_ Ele é o meu pai. Ele não pode ter medo de mim! – Norman reclamava à sua mãe.

_ Filho, ele não tem mede de você. Ele tem medo por você! – a mãe lhe explicava.

Qual lugar melhor para encontrar os vulneráveis e em grande quantidade senão a escola? Por que tanta violência dentro das escolas?

ParaNorman trata bem sutilmente a questão do bullying, quem o pratica e sob quais influências.

Para eu trazer o nome do personagem sacaneado, humilhado, xingado, zoado pelo valentão terei que assistir ao filme novamente, por isso eu não escrevo o nome do gordinho, rolha de poço, pesadão, nariz de alergia que se torna amigo de Norman, outro excluído por sua ‘anormalidade’ – o louco que conversa com mortos.

_ Você não liga que te xingam, que façam maldades com você... (entre outras falas) – Norman pergunta ao colega, no que ele responde:

_ Eu não! Eles usam de violência. A violência é o meio de sobrevivência dos burros. Eu não sou burro!

Caramba! Eu delirava com cada passagem filosófica que o personagem transmitia ao colega paranormal Norman.

Voltando à inquisição. Qual criança não gosta de histórias de bruxa? Peças de teatro na escola que não tenham bruxas não têm graça!

E começou por aí.

A maldição da bruxa estava solta na cidade. Uma menina foi morta, lá naquele passado da inquisição, por ser paranormal. Boa, inocente, foi arrancada do lado da mãe, julgada, condenada, enforcada e enterrada numa cova rasa, daquelas improvisadas para receber os corpos dos que foram assassinados pela igreja, em nome... em nome ...

Alguém tinha que acalmar o espírito dela, fazê-la entender que o sentimento de vingança não a levaria ao lado da sua mãe, já morta, que ela tanto procurava para matar a saudade.

_ Eles me mataram antes que eu pudesse ver a minha mãe, eu era apenas uma criança. Cadê a minha mãe? - Ágatha perguntava ao Norman

Coube ao Norman fazer com que Ágatha, a menina assassinada, entendesse que as pessoas que vivem não são más como as que a mataram, e que as que mataram – os zumbis na história, não entendiam os poderes que ele tinha, e que aquela cidade não era mais um lugar para extravasar o ódio que ela ainda guardava. ( Isso me tocou profundamente: Inocentes passam a odiar num piscar de olhos) Os zumbis, os que a mataram, estavam precisando do perdão dela, para que pudessem descansar também.

Terminando, para atiçar a curiosidade de quem passar por aqui:

Quantos reflexos do passado sofremos hoje. Inocentes foram assassinados e ainda não conseguiram perdoar os seus assassinos. Os que assassinaram, reconhecendo suas falhas em outro plano, precisando, procuram o perdão daqueles que fizeram sofrer. E estamos nós, os vivos, atrapalhando o eixo entre esses pólos. Assim, acabamos sendo os instrumentos utilizados por quem deseja a vingança, permitindo isso, facilitando os conflitos, gerando a violência pelo medo que não conseguimos dominar.

Nortan, que conversa com a vovó dele ,já morta, é orientado por ela para não se deixar influenciar.

ParaNornam é uma realidade dura transmitida através de uma linguagem infantil muito proveitosa, alcançando o seu efeito desejado. Uma mensagem que mostra uma causa bastante preocupante sobre a violência escolar, o que eu venho dizendo sempre: a conexão entre um elemento e outro com o intuito de um roubar a energia do outro.

Esse é o meu nodo de ver, de falar e de sentir o Universo Espiritual, tão lindo e tão gostoso de estudar.

Vale a pena assistir ParaNorman.

_ Ele é gay,mãe!???????

KKKKK

Tem muito mais coisas que nossas crianças precisam aprender. Eu disse: é um filme para quebrar estereótipos

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

DEIXA QUE CHOREM SOBRE O SEU CADÁVER, SENHORA!


O nosso dia a dia nos promete cada surpresa que, realmente, me surpreende. Participando de um evento, alguém me chamou pelo nome e já foi me pedindo o texto. Dizia assim:
"Aquele texto, eu preciso demais dele, já o procurei e não o achei." 
 Pelas características que a pessoa me passava, eu não conseguia visualizar o bendito texto, mas prometi procurá-lo.  Nessas escarafunchadas de dois dias, dei com o texto diante de mim.
Valha-me, Deus! - pensei
Pra que será que ele quer o texto já tão esquecido por esta autora?
Este texto foi publicado no Jornal Folha da Regiaõ há mais de 4 anos.
Ficou na memória do leitor.
Obrigada, André, por reviver o meu escrito em mim.
O texto é seu, pegue-o!
Rita Lavoyer



imagem inernet


“Quando aquele corpo, embora sendo seu, jazer em outra cama, deixa, Senhora, que chorem sobre o seu cadáver.

Quando aquele corpo, já tão frio e seu, e elas, ali paradas, querendo sobre ele chorar, deixa que chorem sobre o seu cadáver.

Quando o seu cadáver, já ex-são, embora seu, jazer tão frio, deixa, Senhora, o palco livre que outros, ali, chorem o seu cadáver.

Quando aquele cadáver, em palco livre, já chorado pela Senhora, por elas e por todos, pedirei que me deixe chorar sobre o seu cadáver, agora homem meu, que jaz no palco que para mim nunca fora livre.

Deixe-me chorar sobre o corpo quente desse seu, e sempre meu, que todos, embora o olhassem, não sentiram o quente corpo, como nós, Senhora, sentimos.

Quando o seu corpo, embora meu, tão quente e firme, deitado à cama, e eu sobre ele deslizar, deixe-me, Senhora! Deixe-me, Senhora! Outrora seu, também tão meu, ainda meu, tão quente e firme, suave e belo. Deixe-me, Senhora!

Deixarei minha alma chorar, porque ela sente o quente da alma dele, ainda viva dentro de mim. Viverá para sempre nesta minh’alma que se completa agora que o terei eternamente meu.”



Amada! Tracei essas palavras e as costurei aos moldes do seu luto. O maior Homem do mundo também foi amado e também morreu. Abrace a dor que lhe cabe, pois é à ela, à Senhora, que ficarão os filhos e outros bens. A você? O vazio, a saudade e os dedos em riste. Suportará, por certo. Suportou tanta ausência. Fez de lágrimas, sorrisos para alegrá-lo, elevá-lo.

O ajudou, tantas vezes, a voltar para casa fortalecido para suportar o que lá o esperava. Se ela foi uma Senhora Dama e você foi uma dama de companhia, não importa agora. O que importou foi o quando se encontraram, se entrelaçaram, se descobriram e se amaram. Os semelhantes possuem suas diferenças, quanto mais nos aproximemos deles, tantas mais as descobrimos. Se você foi o efeito, procurar a causa aonde? E não é assim: “Pessoa tão boa, de tantas qualidades. Por que tinha que morrer?”

Quem sabe das qualidades ou dos defeitos? Quantas ele não deve ter aprontado lá, e você não soube, Amada, até que ele chegasse aos seus braços? Ou pior, em quantos braços ele já não deve ter passado antes de chegar aos seus?

Mas se você acha que será a última, pois não há mais tempo a ele, proporciona-lhe um dia de amor, diga-lhe tudo de bom que traz em sua alma e o faça plenamente feliz para que, entre beijos e gemidos, ele alcance os seus ouvidos e confesse ter sido você, embora tarde, a razão da passagem dele nesta vida.

Depois, continue vivendo. A partida deverá ser dele e não sua. Lembrando: espécie desse tipo dá em pencas a um precinho de ocasião.

Seja amante, mas não se esqueça de que é Mulher.



Rita Lavoyer é membro da Cia dos blogueiros e da UBE

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

DESCAMINHO DOS ANJOS



DESCAMINHO DOS ANJOS
Quantos caminhos atravessam os nossos? De quantos nos desviamos, quando podemos? E quando não conseguimos tal feito, quem se atreve a apontar o anjo e o demônio numa relação de iguais, salvando um ou condenando outro?

A mão que apedreja é a mesma que tapa os olhos, quando o portador dela não quer ver o que é explícito, para evitar comprometimentos. Melhor, já que da boca sai o veneno do homem. Quer arma mais eficiente?

Então vamos brincar de amarelinha. De preferência da cor vermelha que enfeita o céu da boca, da boca do inferno: o nosso, que quando erramos a jogada, diante das intempéries do nosso dia a dia, sem perdão, somos condenados a recomeçar do poço a que nos submetemos para não perdermos o jogo, o jogo da sobrevivência.

Nesta brincadeira, céu e inferno confundem-se, iludindo-nos com seus aspectos nebulosos, dentro dos quais mergulhamos nossas confianças, equilibrando nossa sorte nos pratos injustos da balança aferida por animais travestidos de togas umedecidas nos cios antecipados das virgens condenadas ao abate, mas um abate que não mata, não mata a fome do homem, dos homens que tinham nas mãos o poder, devendo defender os que estavam sob suas guardas, mas usavam-no como estatuto para satisfazerem os seus desejos, gozando, cada qual ao seu modo, nas casas de uma brincadeira infantil machucada com as armas da virilidade de quem se pretende macho!

Os homens desta brincadeira deixaram marcas em suas presas, fortalecendo nelas as naturezas femininas, possibilitando-as, elas mesmas, os seus partos, subtraindo-se do céu para o inferno: realidade que suplica esclarecimento; e elas, cada uma dentro do seu papel, mostram como vieram e pra que!

Judith e Dora estão para o bicho que pega; outro que come. Cada uma trilhou o seu caminho, o desfecho coube a elas esboçarem. Enquanto uma rascunhava, outra ensaiava no palco da vida, o que Nilzona, prospecto de prostituta, fazia com profissionalismo: promover prazeres numa casa onde acolhia mulheres consumidas pela vida, salvando-as, contrapondo-se a Ana, imagem de amor e conforto que irradia as páginas marcadas por ela.

Laura e Raquel, mãe e filha respectivamente, desafiam os conflitos existentes entre elas com um silêncio mortal que as consome diante da covarde imagem paterna que Aldo insiste em manter para deixar viva uma ilusão.

Isso é apenas um pouco de tudo que pode ser dito sobre Descaminho dos Anjos, sua amarelinha, seu céu, seu inferno, seus jogadores e suas pedras...

Se você é uma mulher que sobrevive como mulher da vida, entre em Descaminhos dos Anjos e encontre ali a sua casa.

Se você é uma mãe meretriz e deixou que sua filha enveredasse pelo mesmo caminho que o seu, jogue em Descaminho dos Anjos e encontre ali a sua condição.

Se você é um homem que paga qualquer preço pelo prazer, pague também por Descaminho dos Anjos e receba ali o seu troco.

Se você é um da Lei e se corrompe, pensando que a Divindade é cega, surrupie um Descaminho dos Anjos. Querendo disfarçar a sua carapuça, compre-o então.

Se você é um religioso, que com uma mão oferece a hóstia e enfia a outra na calcinha da criança, comungue Descaminho dos Anjos e confesse nele os seus pecados.

Se você é um político que faz uso do cargo que ocupa para beneficiar-se de sexo grátis, vote em Descaminho dos Anjos e eleja em cada página sua plataforma de sacanagem.

Se você é uma amiga que cobra caro da outra a quem ajudou, trapaceando-a para vê-la sempre na casa do inferno, faça como a Dora, desfaça como Raquel e se enxergue no espelho que ambas refletem.

O narrador de Descaminho dos Anjos é inconformado. No fluxo de sua consciência vai amargando cada gota já provada daquela realidade escrita por Emília Goulart, que faz de suas obras um relato artístico do cotidiano dentro do qual a mulher está inserida.

Numa época em que à mulher não era dado nenhum crédito, a não ser o de objeto de consumo, o Romance atravessa os caminhos possíveis e impossíveis, concretizando-se, estabelecendo com o leitor um vínculo verdadeiro, pois tudo que está escrito em Descaminho dos Anjos é a mais pura verdade da arte Literária que Emília Goulart propõe com talento.

Se você sente horror a sexo infantil, vá buscar o seu Descaminho dos Anjos. Pegue nele a sua pedra e depois vamos brincar de amarelinha, porque o Bicho-papão não está sobre o telhado nem no céu, muito menos no inferno. Ele está...

Descubra!


Rita Lavoyer