Fábula classificada em 3º lugar no concurso de fábulas e parábolas da Editora Typus.
A
MACACA E O LEÃO
Ela era desconfiada,
insegura e arredia. Solitária. Subia
pelos galhos a procura de alimentos, mas não saltava e nem pisava aquele
território com firmeza.
Do alto de uma galhada,
ela avistou um cesto de vime à beira do rio. Apressou-se para apanhá-lo. Ela,
que não gostava de água, não se questionou para entrar nela. Agarrou o cesto, trazendo-o
em seus braços a salvo. Dentro dele havia um filhote recém-nascido. Um leãozinho, ainda cheirando à placenta.
Ela o limpou e,
despertado o seu instinto materno, acreditou rapidamente ser o seu filho,
produziu leite e o amamentou. Fez dele o seu filhote. Ele cresceu
observando diferenças.
– É claro que não
podemos, meu filho. Isso é feito desde que os meus ancestrais foram criados e deve
habituar-se a comer bananas porque o seu paladar é muito perigoso para a
população daqui.
– Mãe, a que
ancestrais se refere, já que mãe, segundo disse, não tem espécie?
– Ah, meu garoto, você
ainda é muito jovem para entender sobre isso. Venha, seja bonzinho e coma a sua
banana.
Num salto violento ele
atacou o cacho todo, rugindo sobre as bananas que caíram no chão.
– Meu filho, você me
machucou com as suas unhas, isso não poderá acontecer mais. Venha aqui, vou
cortá-las agora.
Quietinho, gemendo
baixo e sem questionar o comportamento da Macaca, o Leão deixou que ela
retirasse todas as suas unhas, uma por uma.
– Mãe, conforme eu
caminho, sinto muitas dores nas minhas patas. Um Javali me atacou e ao me
defender senti mais dores ainda. As minhas unhas estão me fazendo falta, mãe.
– Não se preocupe, o Javali
é um bicho pequeno, você é um Leão! Da próxima vez que ele o incomodar é só
rugir que ele sentirá medo e fugirá de você.
Na tarde do mesmo dia,
o Javali investiu contra o Leão novamente e, sem as unhas, o felino cravou seus
dentes no animal, que conseguiu escapar ensanguentado.
– Filho, a mãe do Javali
veio reclamar do seu comportamento violento com o filho dela. Quase morri de
vergonha. Não o ensinei a ser violento. Já me feriu várias vezes com suas
presas quando vem pegar as bananas. Venha cá, abra a sua boca e engula isso.
Mesmo achando amargo o
que ela lhe enfiara na boca, engoliu sem nada dizer.
– Mãe, o que houve
comigo? Cadê os meus dentes?
– Meu filho! Você não
é o meu filho por acaso. Chegou até mim para que eu cuidasse de você e eu o amo
verdadeiramente. Não é porque vivemos em uma selva que precisamos viver como
selvagens. Os seus dentes eu os arranquei, para aprender que não devemos fazer
com os outros o que não queremos que façam a nós. Acalme a sua dor, para ela
haverá recompensa, acredite, coração de mãe nunca se engana.
– Mas, mãe, eu nunca
ataquei nenhum animal, já apanhava dos pequenos sem poder me defender, evitando
com isso que a senhora fosse repreendida pelos pais dos bichos. Mãe, eu não
consigo fazer nada sozinho, agora sem unhas e sem dentes sinto muito medo, como
serei visto pelos outros animais?
– Será visto como você é. Faça cara de mau, ruja
bem alto quando estiver se aproximando. Isso causa medo, desestrutura o
adversário. Aprenda que não precisamos sorrir para sermos respeitados. Não sorria
perto de outros bichos, assim não saberão que não tem dentes. Em boca fechada
não entra o que não quer engolir. Vamos, agora já é um Leão feito, carregue-me
por onde for. Estando comigo estará protegido. Avante! Mostre que é o Rei desta
selva. Mas antes, venha cá, coma logo a sua banana.
E assim, com sua astúcia, e protegida com
a presença do Leão, a Macaca transitava com firmeza e segurança naquele
território.