sábado, 26 de julho de 2014

VESTIBULAR, UM CHAMADO À MATURIDADE ?


Veja mais sobre vestibular acessando o link abaixo.
Traremos outras matérias sobre o assunto durante a semana
 
 
 
 VESTIBULAR  - Rita Lavoyer
           Passando-se o Enem, lá volta ela, a juventude em maturação, a correr atrás de revisar os conteúdos para prestar o vestibular. É um período de transição entre os cuidados que o estudante recebe em casa, com os pais e na escola (algumas) com os professores, para outro mundo que, supõe-se, seja a fase de assumir responsabilidades. 
           Vestibular está apontado como porta para a realização profissional do estudante, principalmente se aprovado e ingressar numa Universidade pública renomada.  O objetivo do vestibular é avaliar a capacidade de o candidato acompanhar o ensino superior.   É um meio de evitar alguns males como o protecionismo, o apadrinhamento, o racismo, etc... 
            Por conta dos vestibulares, muitas instituições de ensino têm se tornado “empresas” no ramo de colocar gente nas universidades, como único objetivo. Em muitas delas o aluno deixou de ser gente para ser número, boleto bancário e somar posição nos gráficos estatísticos apresentados à mídia.  Quanto maior o número de aprovados, mais crédito aquela “fábrica de passantes em Vestibular”  ganha perante a sociedade, pois é a bagagem acadêmica do candidato que  o privilegiará, por mérito,   naquela “chance igual” de concorrência às vagas.  Pensando na questão de “igualdade às oportunidades” que o sistema de cotas raciais foi criado.  Esse sistema de cotas é  um cobertor com furos, pois tenta cobrir falhas na base do sistema de educação pública, mas não as corrige.                                                                                                                  Então, “vestibular” é bom negócio para quem tem visão de futuro, seja no campo profissional, social e, principalmente, politico que têm como clientela  uma juventude ansiosa. Muitos acabam adoecendo  nas vésperas e levando a família junto quando chega essa etapa.
           Vamos com calma. Vestibular é um caminho para o qual devemos olhar com seriedade, mas não fazermos dele o único objetivo a ser focado pelos jovens, tampouco privá-los dessa experiência. Há tempo para tudo. 
           Quanto que um adolescente de 18 a 20 anos tem de maturidade para decidir o que realmente quer para o seu futuro e ter que decidir por uma profissão  que lhe  traga realização  pessoal e segurança financeira? E quando não consegue se identificar com uma ou outra profissão e acaba arriscando-se em qualquer uma por falta de opção, mais para atender as cobranças da família, da escola e dos colegas?  Como suportar os conflitos de escolha e liberdade, tendo que carregar o peso da responsabilidade da opção, certa ou errada, verdadeira ou falsa nas múltiplas escolhas onde somente uma resposta está correta?
          Em suma: vestibular é uma das primeiras peneiras que o adulto precoce tem que se submeter entre tantos outros testes que deverá prestar durante toda vida. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Sorriso e Sochoro

Publicado no Jornal Folha da Região em 22/07/2014 na coluna Tantas Palavras


SORRISO E SOCHORO

Sorriso e Sochoro são duas pessoas que se encontraram nos cruzamentos da vida. Apostaram que poderiam ser boas companheiras.

Uma chuta com o pé direito, a outra apoia-se sobre o esquerdo.  Uma escreve com a mão direita, a outra acena com a esquerda. . Uma enche os olhos de lágrimas de tanto rir, a outra de tanto chorar. Uma gosta de se alimentar no almoço; a outra na janta. Uma se deita quando tem sono, a outra se levanta quando o sono acaba. Uma sai alegre para o trabalho; a outra, emburrada, volta exausta para casa. Uma gosta de comédia, a outra de tragédia.

Quando uma esta bem de saúde, a outra inventa de ficar doente. Depois que uma vai a outra vem.  Uma se desdobra para ser fina e delicada, a outra se enrola em pura antipatia. Para uma tudo é muito caro, mas a outra não está nem aí.  Uma vira a cabeça dos homens; a outra tem a cabeça virada por eles. Uma é fogosa, a outra frígida.  Uma é razão, a outra emoção.

A maciez do travesseiro de uma exala paz, mas a dureza da cama da outra implora guerra. Os sonhos de uma finalizam-se em realizações, enquanto  as frustrações da outra proliferam pesadelos. Uma é fértil, outra estéril.

Apesar das diferenças, como siamesas, elas não se desgrudam. Quando uma vai ao banheiro a outra faz questão de fazer igual. Em algumas circunstâncias, uma não suporta o cheiro da outra e como vingança uma despreza e a outra xinga.  Uma é o espelho do futuro, a outra o reflexo do passado. Quando uma tende a ser auditiva, a outra insiste em ser visual. A extravagancia de uma contrapõe-se à introspecção da outra. Uma é o grito, a outra o silêncio. Idênticas nas rivalidades, só por ódio, uma ama juntar-se à outra.  

Quando uma opta por sair no claro, outra quer refugiar-se no escuro. Se uma quer sorvete, a outra pede um chá quente. Uma diz: “bom-dia”,  a outra responde: “ e o que é que tem de bom?”. Enquanto uma, sendo crente, reza, a outra é descrente e amaldiçoa. Entendem-se apenas em duas ocasiões: na adversidade e reciprocidade política:  - na oposição uma optou pela direita; a outra pela esquerda e  na situação uma não gosta da outra.

Ambas impressionaram-se, certa vez,  pela fisionomia aparente que trazem. As duas têm buracos no nariz, furos nas orelhas e enxergam com os dois olhos. Cabelos longos em cima, curtos embaixo.    Fruto do mesmo espermatozoide, mesmo genoma, mesma placenta, mesmo sexo e, por incrível que pareça, a mesma impressão digital, fenômeno que, para pessoas diferentes, a ciência não explica.

Aborrecida por uma despertar para a vida, a outra para a morte, Sorriso, que é só alegria, cansada da prolixidade de Sochoro tentou abreviá-la.  Morria de rir vendo a aquela cena. Mas junto com elas sofreram elas mesmas num silencio gritante, apesar de univitelinas, encontraram-se -  as duas  -  naquele único  momento de equilíbrio, pondo um fim àquela TPM que as deixava bipolarmente exaltadas.   

Sobreviventes passaram, as duas, a dividirem o antidepressivo. Uma o pega com a esquerda, a outra o corta com a direita e engolem as partes pela mesma boca, a única. Repetem isso várias vezes ao dia,  tentando descobrir quem é a Sorriso e quem é a Sochoro nessa dupla identidade desenvolvida num único corpo.   Quando não entram num acordo sobre essa questão, são unânimes em multiplicar a dose de comprimidos.

Rita Lavoyer

domingo, 20 de julho de 2014

LEITE QUENTE COM AÇÚCAR - Classificado na 27ª edição do concurso internacional de contos cidade Araçatuba 2014

Menção honrosa na 27ª edição do concurso internacional de contos cidade Araçatuba 2014
LEITE QUENTE COM AÇÚCAR  -  Rita Lavoyer

         Melissa é uma criança admirável. Consegue projetar histórias com cenários cinematográficos, servindo-se apenas de gestos e palavras. Com seus doze anos de pura magia e encanto, dá vida ao inanimado. Escalaram-na, mais uma vez, para o teste. Chegara-lhe a hora de mostrar que o papel ajustava-se a ela. Nenhuma candidata, que por ventura houvesse, poderia tomá-lo. Melissa, convicta, adentrou o palco improvisado: uma simples sala, mas que, com sua genialidade poderia ser transformada.  Ela a iluminaria com sua luz e cada canto seria o que quisesse que fosse. Recursos faziam-se desnecessários àquela eminente artista mirim que, com primor, representava os fatos, enrijando os bastidores. Sabia que havia pessoas que se escondiam de seus olhos para melhor observá-la, avaliá-la para a atribuição do papel, talvez, para testá-la ou espicaçá-la. Nada disso a abalaria, desempenharia com perfeição o monólogo e ganharia o que pretendia daqueles observadores. Dar-lhes-ia as respostas que quisessem, contando-as. Genial! Algumas vezes, fora surpreendida com os seus olhos negros parados no tempo. Como fixava-se longamente em um ponto sem mexer o globo ocular impressionava quem a assistia.  Magnífica!

         – Mamãe e eu éramos unidas, não tínhamos ninguém por nós. Era filha única, como eu. Mamãe trazia mágoas da vovó, acho, desde a sua infância, por isso estavam, mãe e filha, dolorosamente presentes uma na vida da outra. Viviam bem quando cada uma ficava em sua casa. Papai... eu não o conheci. Não me falavam sobre ele, somente que morreu antes de eu nascer, mas não acreditava nessa história. Não havia segredos entre mim e mamãe. Acreditava. Mas havia! Havia uma caixa onde ela guardava o seu vestido de noiva. Tinha vontade de pegá-lo para ver como era o seu corte, o seu modelo. Deveria ser justo, marcando a silhueta que mamãe apresentava numa foto onde um dia eu a vi, somente... Nunca vi outra foto dela!

         Enquanto ela declamava a história, sendo observada por profissionais daquela arte de encenar, movimentava suas mãozinhas frágeis, projetando no ar, com a suavidade de seus gestos, as imagens de sua personagem. Dramática Melissa!

         – Pelo pouco que mamãe me deixou ver, percebi que o vestido era de mangas longas. A renda, já amarelada, era rústica. Trazia um formato de rosas e, no miolinho, algumas imitações de pérolas, descascadas.  Bordado simples. Queria tanto ver aquele vestido! Prová-lo sempre foi a minha vontade, mas como? Mamãe o trazia trancado! Disse-me que daria azar.
           A encenação seguia perfeita e a sala ia ganhando espectadores-analisadores.
           – Confessei-lhe, certa vez, um sonho: que o meu vestido de noiva teria babadinhos na barra e um decote-princesa. Queria que as mangas fossem compridas, porque deixam o vestido mais elegante.  Surpreendeu-me ela gritar comigo! Disse-me que o cortaria se eu chegasse com um em casa! Insistiu que aquilo não era assunto pra mim!  Percebendo-me com medo dela, preparou-me o leite quente com açúcar e eu me acalmei. Aprendeu com minha avó que leite quente com açúcar tira medo de criança. Cada gole quente dentro de mim alivia-me muito.

         Com a voz na medida exata para o enredo e sem sorriso algum, transmutava-se para que sua fisionomia alcançasse o estágio de atriz profissional cujo texto e palco foram, espontaneamente, programados por ela. Era daquela transmutação que os holofotes não podiam se desfocalizar. Os peritos, ali presentes, não paravam de anotar em seus relatórios a análise da destreza daquela expoente. Brilhante, Melissa!

         – Após um dia atrás do outro em nossas vidas rotineiras, o dia da vovó falecer chegou.  Mamãe não chorou. Eu a vi escolhendo a roupa para enterrá-la.  Ela passeava com as mãos sobre as peças que estavam penduradas no guarda-roupa.   Senti que ela abraçava as roupas da vovó querendo ter em seus braços um corpo que já não poderia vesti-las. Suas mãos tentavam enxergar uma roupa que melhor se adequasse àquela ocasião da vovó. Ocasião!  Foi como eu ouvi mamãe dizer! Separou uma blusa estampada, muito velha, e uma saia que não combinava com nada. Deixou o conjunto desornado sobre a cama. Arrancou as roupas que vovó vestia e começou a limpá-la com toalhas ensaboadas. Usou o sabonete preferido da vovó.  Perguntei-lhe se queria que eu a ajudasse. Respondeu-me com um “não” isento de qualquer sentimento. Foi uma cena chocante vê-la limpando o corpo da vovó. Era o seu último banho.  Vi muita pele esparramada sobre a cama. O corpo dela era muito estranho, as partes que o compunham pareciam não se encaixarem umas nas outras, aquele pescoço torto... Morreu nas mãos da minha mãe, estávamos juntas naquele dia, na casa dela. Era muito doente e a sua saúde piorara muito. Sentei-me no pé da cama e observei que as unhas dos pés da vovó não eram cuidadas, suas pernas estavam roxas, como o pescoço. Ainda bem que mamãe desconfiou que eu não teria coragem de ajudá-la na tarefa e pediu  que me retirasse, mas que mantivesse  silêncio absoluto e as luzes apagadas. Pela primeira vez vi uma mulher nua! Meu corpo, não minh’alma, careceu imediato: leite quente com açúcar! Necessitava repor minhas energias. Preparei-o como mamãe fazia para me acalmar quando eu sentia medo.

         O público mantinha-se controlado. Aquele papel seria exclusivamente dela!

– Trocou-a e tomou outras providências, também sozinha. Vi minha avó tão feia naquelas roupas velhas que a minha mãe escolheu para aquela ocasião!  Senti raiva da minha mãe naquele momento, parecia que se vingava, aproveitando-se porque vovó não podia mais se defender dos ataques que ela lhe provocava. Sempre as vi assim: atracavam-se verbalmente quando estavam juntas.  Vovó tinha muitas amigas, mas passamos a noite sozinhas com ela. Dois homens da funerária encarregaram-se de tudo. Não sei exatamente o que a minha mãe resolveu com eles. Fiquei pensando em como eu faria aquele serviço com a minha mãe se ela partisse.   Fui lendo-lhe a anatomia, ansiando aquele corpo nu sobre a cama e eu limpando-o.  A enterraria com o vestido de noiva. Não lhe serviria, certamente, mas daria um jeito. Vê-lo por completo já me satisfaria. Confessei isso à vovó certa vez...

         Movimentaram-se, apreensivos, os que analisavam, com afinco, aquela explanação.Nada poderia passar-lhes despercebido. Ela acrescentara o: “confessei isso à vovó certa vez...” que, até então, não constava declarado. Ah, Melissa...

         – Não sei se não aguentei, mas dormi e ela me acordou para levarmos a vovó. Os homens já tinham chegado e precisavam fechar o caixão. Nenhum vizinho? – perguntava-me! Será que eles não estranharam o silêncio na casa? Queria tanto gritar para que me ouvissem! Mas não era possível, mamãe pediu-me muito silêncio... eu  o-be-de-ci... Dei um beijo na vovó.  Meus lábios não queriam se desgrudar daquela pele gelada e endurecida. Vovó estava inchada, o rosto deformado. Havia um lenço no pescoço dela. Senti uma vontade enorme que ela voltasse. Solucei tão alto que fui repreendida por minha mãe, que nem sei se chorou ou não, porque eu dormi e não a ajudei a velar vovó. Nunca mais a veria. Ela contava muitas histórias pra mim, queria que eu as aprendesse, porque contar histórias desenvolve habilidades, afirmava-me. Algumas eu tinha que repetir várias vezes para ela certificar-se de que eu estava contando certinho, sem pular nenhum detalhe. Ralhava, sempre me corrigia, depois me servia leite quente com açúcar, incentivando-me: “Terás que aprender a contar!”

         Aprendera bem com a avó. As palavras a impregnaram:

          – “Deves saber que és competente. A melhor! Se disto te conscientizares farás com que os outros te vejam como tu queres ser vista” – Ah! Vovó, cheia de “tus” e “tes”... usadora e abusadora da segunda pessoa, bem... abusadora não, pois era oriunda de Portugal. Eu era a sua “Mel”... 
           Sentiu saudosa ternura por ela. Murmurou: “– Vovó...” 
           – Os homens levaram-na. Mamãe trancou a porta da casa da vovó e saímos. Entramos naquele carro. Não podíamos ir ali, mas fomos porque vovó só tinha a nós duas naquele momento, e a funerária.  Era apertado. Os homens foram no banco da frente. Eu fiquei apertadinha entre o caixão e a parede dura e fria daquele carro, como o coração da minha mãe: duro e frio. O caixão era feio, simples e pobre. Vovó não era rica, mas aquele caixão não combinava com ela.  A madeira de caixão fino brilha, tem pegadores do lado onde muitos se agarram para levar o morto para o cemitério. Reparava quando ia aos velórios com vovó. Talvez tenha sido por isso que mamãe comprou um caixão vagabundo, sem brilho na madeira e com pegadores míseros nas laterais, porque não tinha ninguém para admirar o brilho da madeira, muito menos se agarrar ao caixão da minha avó para levá-la à cova. Mel...

Transfigurara-se. Os músculos ativos de sua emoção permitiam-se diálogos. Não era a Melissa, mas a atriz; ou não era a atriz, e sim a neta?  Não recebeu aplausos, sabiam, pois, estarem distante do desfecho. Astuciosa menina!

_ Os amigos dela, embora velhos, talvez se agarrariam às alças na tentativa de trazê-la de volta, alguns deles sabiam que ela passara mal os últimos dias, mas mamãe não os avisou. Quis muito, dentro daquele carro de funerária, que um deles se arriscasse, trazendo-a de volta... Os olhos frios e pobres da minha mãe, fixados em mim, contrariavam minha vontade oculta! A saudade que eu já sentia dela rachava meu peito e sem demora um soluço seguido de lágrimas escapou-me! Sentia que faltava-me um pedaço, mas os meus restos seguiam com ela!  Lembrei-me de quando me confessava coisas, fazendo-me prometer que não revelaria à minha mãe! Era segredo nosso, havia lhe prometido, embora isso me aborrecesse, porque não havia segredos entre mim e mamãe! Mas não podia quebrar a confiança que vovó me depositara. Ficaria de mal de mim, não me permitiria visitá-la e não me contaria mais histórias, ao ponto de eu as decorar.  Eu a queria viva e ser a sua “Mel”. No coração da minha mãe ela, há muito, já tinha morrido! Sabia que ela não amava minha avó!

Nasce da atriz uma menina em lágrimas que se agiganta com sua força criativa, permeando naquela sala o envoltório sedutor a que ela se propôs exibir!

         – Há três dias enterramos vovó e não saí mais. Não vieram à nossa casa perguntar por que eu faltei às aulas. Sonhei com este momento. Não vou sentir as roupas dela no armário. Não tenho dúvidas: será enterrada com o vestido de noiva! Fiz todo o ritual, limpei o corpo da mamãe com toalhas e usei sabonetes cheirosos. Tantos anos morando nesta casa e não tinha percebido o quanto o vestido estava no alto. Mamãe o alcançava subindo na cadeira.   Providenciei o necessário para subir, destranquei a parte de cima do armário e toquei a caixa. Uma sensação indescritível transcorreu o meu corpo. Não sei dizer o que era. Só sei que toquei a caixa onde habitava um sonho de noiva. Cada batida do meu coração arrebentava-me o peito e eu pude sentir mamãe entre os panos. Observei-a deitada. Os cortes daqueles tecidos acomodavam os meus imutáveis sonhos. Trouxe a caixa para baixo e a abri.  Estava amarelado.  Era godê de tecido fino, leve e  com uma fita de cetim azul claro embaixo do busto. Era muito largo aquele vestido com manchas escuras. A renda compunha apenas o busto e as mangas.  Por que não era de corpo justo como o imaginava? As manchas seriam de vinho?  Havia um papel escrito junto com o vestido na caixa. 

         Novamente a menina se apresenta. Era o foco de olhares atentos dos que mantinham mãos ocupadas em relatórios.

         – Não! As manchas não eram de vinho, eram de sangue, por isso o vestido não era justo, havia razões para o sangue, mas precisava ser naquela ocasião? E agora, não tínhamos ninguém por nós!  O que será de mim? O que será de mim?

         A sala, iluminada pelas imaginações de Melissa, silenciou-se. Com suas mãozinhas, pequenas e frágeis, tampa o rosto e limpa as lágrimas que lhe escorrem na face.  A mulher adiantou-se ao centro daquele palco improvisado.

           Melissa, como você a encontrou? Foi apenas para conhecer o vestido com o qual sua mãe se casou que você fez aquilo? Havia outra razão além do vestido?

         – Encontrou?! Doutora, eu só queria ver o vestido, depois vesti-la. Também não sabia que tinha aquele papel dentro da caixa... Ela não se casou! Eu não sabia que ela não tinha se casado. Nunca me disse nada, só que o meu pai tinha morrido.

         – Melissa, você já nos historiou esses fatos, sem inverter um parágrafo do que já havia falado... Somente acrescentando, desta vez, o que “confessou à sua avó”!

           “A polícia já terminou a perícia, Melissa!” -  “ O que estava escrito no papel que encontrou junto com o vestido?  -  “ O psiquiatra a aguarda, Melissa!”. Também já repetiram as perguntas  um monte de vezes, doutora!

         – E você não tem mais nenhuma lembrança da ocorrência, além dessa história que você repete há meses?

         – Doutora, eu pensei que mamãe não gostasse da vovó e eu a odiei nesses três últimos dias. Queria a vovó de volta e também queria a minha mãe, as queria  unidas, mas me incomodou a forma com que ela fez vovó partir. Vovó sempre me pedia segredo quando me contava sobre o aborto que mamãe tentou fazer antes do casamento. Ela sempre me dizia que mamãe não queria que eu nascesse. Mas eu li outra história no papel que caiu de dentro do vestido, quando eu o desdobrei. 

         – Melissa, não são três dias, são meses e você continua dentro desses “três dias” que vem nos contando... O papel, onde está e o que estava escrito?

         – “Para minha filha Melissa” -  era isso que estava escrito.  Eu o queimei, senhora, junto com o vestido. Promete, doutora, que irão vestir a minha mãe com roupa bonita, que combine com a beleza e o amor que ela tinha por mim? Por favor, não enterre a minha mãe junto com a minha avó. Aquela velha fria  foi quem tentou me matar quando eu ainda estava na barriga da minha mãe, no dia do seu casamento, adiantando o meu nascimento. Mamãe salvou a minha vida das garras da vovó e o noivo não apareceu. Ela não merecia isso, não merecia aquela mãe. Bem feito o que mamãe fez a ela, e eu a culpava...  Posso beijá-la antes que me levem novamente?

         – Levaram o corpo, Melissa,  há meses! Tinha muitas perfurações. Precisamos encontrar a arma. Constatamos que você teve várias faltas na escola, não foram apenas três dias como diz. A diretora informou aos investigadores que tentaram localizá-las, mas sem sucesso. O vestido, Melissa? Onde o queimou?

         – Eu ficava com minha avó, doutora, ela passou por vários problemas de saúde  o mês passado, semana passada ela piorou, até que veio a falecer. A minha mãe trabalhava muito, chegava sempre muito tarde, por isso não nos encontraram.

         – Melissa, nenhuma funerária confirmou essa passagem que você nos conta sobre a morte e o sepultamento da sua avó. O túmulo que você nos indicou não recebeu nenhum corpo nos últimos meses. Os vizinhos da sua avó já foram interrogados e todos confirmaram que ela estava bem de saúde. Nenhum viu o carro da funerária sair com um caixão de lá.  Onde está a arma que usou para matar a sua mãe e onde está o corpo da sua avó? 

         – Onde está vovó, doutora? Onde está vovó? 

         – Melissa, como era a caixa onde estava guardado o vestido de noiva?

         – Bonita e enfeitada com fita. – Respondeu tranquilamente.

Espantosa!  Ela voltou a paralisar o globo ocular num ponto fixo daquela sala -  palco simulado para  apresentar uma  história, dissimulada ou não? Que atriz!

– Melissa, a perícia detectou outras digitais na cena do crime. Havia mais alguém com você? Melissa, você quer tomar um copo de leite quente com açúcar?

  Claro que não, doutora! Claro que não, doutora!

 Foi perfeita no que se propôs a fazer, impressionando os que ali estavam para analisar a sua performance. Corajosa menina cuja fragilidade apresentava-se não dar conta daquela dramatização, levantava questionamentos aos presentes.

– Será dela esse papel, doutora? E o pai dela? Vamos puxar esse caso também?

– Por enquanto não! Levem-na e substituam o leite quente com açúcar por suco gelado. Quem sabe ela nos surpreenda com outras histórias! Ela é excelente contadora de fatos!  Ah, Mel... Mel... Adoro ouvi-la!

 – Sim senhora, doutora!                              

Autoria – Rita Lavoyer

sexta-feira, 18 de julho de 2014

RITA LAVOYER - Menção honrosa na 27ª edição do concurso internacional de contos cidade Araçatuba



Estou muito feliz  com a minha classificação no concurso de contos de 2014.
Fiquei em 2º lugar com menção honrosa.
Não me importa qual a posição eu ocupe na lista dos classificados. O importante
é não desistir e por isso o meu nome consta na lista. 
Apesar de eu sempre afirmar que quem tem gostar primeiramente dos nossos trabalhos somos nós mesmos. Se nós gostarmos deles, alguém, algum dia e em algum lugar também gostará.

Tento fugir das lendárias narrativas de amor eterno.  Fui dessa época, pode ser que retorne a esse estilo novamente.
É o tempo que nos molda e as circunstancias que nos inspiram.

Preciso extrair novos aguços de mim. 

Estou noutra fase, gostando dela até eu enjoar.

"LEITE QUENTE COM AÇUCAR"  revela essa  minha outra fase.
Tomara os leitores a entendam. Gostarem dela já é outro assunto.

Muito obrigada
Rita Lavoyer


sábado, 12 de julho de 2014

A COPA DO MUNDO NO BRASIL DO FUTEBOL



Miguel Nicolelis -Copa do Brasil 2014
 

Confesso que esperneei na abertura desta Copa do Mundo do Brasil. Achei a abertura pra lá de mau gosto, uma apresentação bizarra para ser apresentada num campo onde o mundo inteiro estaria vendo. Sei que o gramado deveria ser protegido, pois logo em seguida aconteceria o jogo do Brasil contra...  contra quem mesmo o Brasil jogou na abertura da copa? Ah, com a Croácia, veio o nome da danada no cérebro agora.

Mas daí fazer um show furreca com duas cantoras dublando e um careca dublando atrás não me convenceu. Queria ver algo bem brasileiro na abertura. Não vi. Não vi também como gostaria de ter visto a invenção do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis.

Nos jogos seguintes eu  sofri assistindo àqueles jogadores brasileiros fazerem , ou melhor, deixando de fazer em campo o que eu queria ver no futebol brasileiro que eu via no século passado.  Cruzes!  Que saudosismo nessa altura da vida! Mas confesso.  Adorava torcer e ver o futebol acontecendo em campo. Aqueles jogadores feios daquela época jogavam um bolão. Teve uma ocasião em que eu até pequei contra a seleção toda. Disse, perguntando: Para ser jogador da seleção brasileira tem que ser feio e analfabeto? Chegava doer os olhos e os ouvidos quando eu os via falando. Muito defeito em um só, eu falava.

Então o visual e a tom das respostas dos nossos jogadores melhoraram pra caramba. Os menininhos são boa-pinta, sarados, pele bem cuidada e até conjugam bem os verbos, fazem combinações inteligentes nas frases que reúnem para responderem às perguntas dos jornalistas. Puseram fim aos jargões: “Graças a Deus, Se Deus quiser, Com certeza...”  Mas somente visual e bom despreendimento na conversação não são suficientes para encarar uma bola rolando no campo onde uma equipe organizada e bem treinada vem com propósito de enfiá-la na rede do adversário boa-pinta, sarado e de pele bem cuidada.  Também saber reunir frases não reúne jogadores em campo, não forma equipe, não joga o jogo, não faz o show.

Então foi assim que acabou. As belezas tombaram em campo, os anjos de cabelos encaracoladinhos choraram e outros sem caracóis também terão muitas histórias para contar desta trágica apresentação da seleção brasileira na Copa do Brasil de 2014- a copa das copas-, por mais distantes sejam os mundos onde eles forem apresentar a futebolística  que lhes rende milhões de dólares.

Brasil 1x7 Alemanha - Copa do Brasil 07/07/2014
Triste, enquanto as estrelas apagam seus brilhos em lágrimas de frustrações  num campo onde a bola pequena e cheia de ar vai e vem, o mundo, mudo, vê Israel massacrando bebês, jovens, crianças, mulheres, pais de famílias palestinas.

Enquanto que na Copa do Brasil a bola rola, lá a bola explode tombando vidas.

Como nada posso fazer, nem lá nem cá. Agradeço ainda por estar viva. Ainda bem que acabou para nossa seleção. Já não aguentava mais vê-la em campo e sofrendo por ela.
Ainda que eu tente não conspirar.  Será que daqui   algum tempo começarão a revelar os fatos para esses episódios tão sem explicações da seleção brasileira de 2014?

Brasil e Alemanha
Os meus respeitos e silêncio às vitimas dos ataques israelenses contra Gaza.  Os meus parabéns ao doutor Nicolelis porque o paraplégico que ele apresentou no campo fez muito mais que os jogadores sarados que , supúnhamos, representariam o Brasil em campo.

Acabou Copa do Brasil 2014. O Brasil volta a funcionar.  
-Rita Lavoyer