terça-feira, 3 de março de 2015

SEM PALAVRAS

SEM PALAVRAS - Rita Lavoyer
O poeta, não encontrando no seu interior
palavras que expressassem o seu sentimento, 
enfiou a mão em seu peito 
e pôs fora todo o seu coração.
Para não deixar o seu espaço vazio,
introduziu nele um dicionário,
elevando a sua glória.
Percebendo-se disléxico 
diante de tanto léxico, 
quis inverter a operação. 
Tentou recuperar o seu órgão pensante,
Fora tarde.
O abandono secou daquele coração
o vocabulário de sua língua. 
Virou músculo, levando à queda
alguém sem palavras. 

E-TAPAS

E- tapas
Esta notícia no Jornal Folha da Região de hoje, remeteu-me a este meu texto. Sensibilizada, não comparo a vítima da matéria às etapas no texto narradas.

A) Naquela época, o que não podia era uma filha sujar o nome do pai. Por causa disso, a educação era rígida e presa a filha ficava. Mas o amor que paira no ar conseguiu fazer dois corações se encontrarem. Embaixo de um pé de café, a menina-moça transformou-se em mulher. O amor do rapaz durou até ali, o filho dos dois, aquela mulher, sozinha, teve que parir. A herança do pai já não era mais sua, porque filha embuchada só ganha do pai a porta da rua. A mãe daquela não veria seu neto porque a ela só cabia calar. Abrisse a boca tapas ganhava.
B) Então coronel quis filha casada com o filho de um seu igual. O namoro era em casa. Tinham a permissão de ficarem na sala segurando as mãos. Coronel sente sono e, naquela noite, da filha, o pai já não era mais o dono. Não demorou e a barriga apontou e o pai de seu neto, no meio da rua, o coronel eliminou. A filha ficou na gestação prisioneira. Pariu o seu filho, mas não o conheceu. O pai disse à filha que o bastardo morreu. E tapas, na clausura, a vida lhe deu. Aquela mulher sem marido definhou-se porque sabia que a criança que crescia com a empregada era o seu filho que não tinha morrido.
C) Estava casada com quem nunca quis, fora educada que ter segurança é melhor do que ser feliz. Naqueles contatos de nojo e tortura aquela mulher jurou pôr um fim. Decidida a fugir das garras do cão arrumou sua trouxa, mas teve que ficar porque sua menstruação, durante nove meses, resolveu deixá-la. Tinha um teto pra abrigar a criança e estaria segura na hora do parto. Estava enganada. O cão, embriagado, entre tapas e pontapés, matou aquele feto deixando inválida a mulher.
D) A filha-menina cresceu como a mãe gostaria de ter sido. Deixou-a solta para viver, ser feliz. Não tinha aventura que não havia experimentado e, entre tantas gandaias, bebedeiras e afins, ela não sabe quem é o pai do bebê. Ela nasceu, é uma menina, mas com a avó a mãe a deixou. Não tinha saco para viver amamentando e o choro da bebê incomodava a mocinha. Saiu feito louca e não deu mais notícias. Aquela mãe ganhou uma neta e a filha perdeu. Para onde ela foi ninguém sabe, ninguém viu. Sabe-se que virou prostituta, profissão que adotou para vencer a luta.
E) A avó, a neta e o avô. Hoje, a etapa é outra, liberdade não tem limites e tapas é a vida quem dá, em casa não pode apanhar. Coitadinha da criança, tão inocente... Assiste a tudo o que pode, ouve, fala e pratica. Ah, menininha sarada de saia curta e peitos à vista. Não provoque, libertinagem não é consanguínea? Mas não houve como, ela o provocou e num dia, sem a avó, o avô a estuprou.
ritalavoyer.blogspot.com/2009.

segunda-feira, 2 de março de 2015

MULHER , FLOR AZUL

Mulher, Flor Azul  

Todas as flores têm as cores 
que Deus lhes deu.
Que Deus lhes deu     
 A minha mulher é de um azul tão lindo
 É a flor mais linda que  a aquarela  escreveu.

 Oh! Mulher linda, flor  maravilhosa
 Todo o seu colorido é azul cor de infinito.
 Todo o seu colorido é azul cor de infinito.

 Ela embeleza todo céu e todo o mar
 Se veste toda de azul pra me amar,
 pra me amar.
 Pra me amar
 É o meu carnaval, fantasia e purpurina
 É a flor brilhante de azul com serpentina.

Que alegria é a minha mulher
 Uma flor do campo com azul cor de encanto.
 Canto ela aqui, canto acolá.
 Canto o seu azul que só sabe encantar. 

 Minha mulher, minha fortaleza
 É uma joia rara, é uma flor azul-turquesa.
 Por ela sou muito orgulhoso.
 Minha flor-mulher é de um azul maravilhoso.


 Ela tem um tom que aquece o meu frio
 Minha flor-mulher tem a cor azul-anil.

 O perfume que ela tem me leva ao céu.
 Me leva ao céu! Me leva ao céu!
 O gosto da minha flor é azul da cor do mel.
 Minha flor-mulher tem o azul do esplendor.
 Deus fez todas as flores com o azul da sua cor.

 Oh! Mulher linda, flor maravilhosa
Todo o seu colorido é azul cor de infinito
Todo o seu colorido é azul cor de infinito


 Eu não sei viver sem o azul da sua boca
 A minha mulher entre todas é a mais louca.
 Essa flor-mulher torna o azul todo brilhante
 No leito de suas pétalas me faz todo amante.
  Por essa cor dela eu me vejo enlouquecido.
 Hoje, só sou homem porque visto o seu vestido.
 Nele eu me envolvo porque o azul só me compraz.
A minha mulher é uma flor  com a cor da paz.
 Esse homem que há em mim
 É o cheiro do seu amor  
 Porque sou  tão Mulher  quanto o nosso Criador.


                           autoria- Rita Lavoyer

domingo, 1 de março de 2015

TOQUES


 
 
TOQUES – Rita Lavoyer 

Não toques minhas mãos

se perceberes que

durante a sutileza do toque

nossas mãos não se desgrudarem.

Toca-me de ti

antes que em ti eu toque

e minhas mãos em ti queiram ficar.

Se tocado ficares, permitindo meu toque em ti,

deixa minhas mãos acariciar os teus cabelos,

enquanto as tuas tocam em meu violão

uma música que nos embale

até que, num toque de recolher,

as tuas mãos peguem as  minhas mãos,

puxando-me inteira  para todas

as partes  tuas .  Estas que não preciso

tocar  para  me arrepiar

da cabeça aos pés.

 

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

AA MENINA DOS OLHOS


A menina dos olhos  – Rita Lavoyer

 


Meus olhos, às vezes, são peixes

que nadam em pranto 

na absurda sequidão da aurora e,

a nado, vão,  após rasgarem o ocaso

com as barbatanas de suas íris,

se afogarem no crepúsculo

multicor , ali,  onde

o disparatado  alvorecer

sonha em iludir a menina dos olhos meus.

SEN HORA


imagem da internet

Há um relógio desposicionado
sobre o meu lento ponteiro do tic
que espera, apressado,

o meu ajustado ponteiro do tac.
Então...
quando chegou a hora
e um sobre o outro se pôs,
para a real consumação do ato
(questão de segundos),
o relógio, desapontado, posicionou-se,
despertando-me, rápido, para o agora.
Inebriada, atirei-me sobre a onomatopeia e,
tentando alcançar-lhe o eco
apartei-a daquele momento,
lesando do relógio um eixo,
rompendo, num rompante,
minha rotação com a hora:
senhora do meu tempo.


Rita Lavoyer

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

NA FOZ OU NO SONO?





NA FOZ OU NO SONO?  - Rita Lavoyer

Na foz do horizonte estarei

quando minhas pálpebras

forem visitadas pelo tempo arrefecido.

Lá, mergulhada na embarcação

infinita de cada gota, envolvo

o seu convexo em minha reentrância,

anestesiando o nosso equilíbrio

no enlace das aparências afins.

Não a deixarei secar.

Estaremos, ela e eu, envolvidas

na mais profunda realidade do sonho.

Não havendo mais o último pingo

daquele ponto de desembocadura,

retornarei para que minhas

pálpebras se entreguem

àquele que as procura.