domingo, 28 de junho de 2015

BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA DE UM AMIGO EXCÊNTRICO

   
Parabéns, meu amigo, pelo seu aniversário.



Tenho um amigo que eu o considero excêntrico, não no sentido de esquisito, de forma alguma.

Excêntrico no sentido de excêntrico mesmo. Surgindo uma dificuldade, quem me vem à mente: o excêntrico. O meu amigo excêntrico!

Ele é uma figuraça!

Precisei de um material no campo jurídico. Onde eu o encontrei? : - Com o amigo excêntrico!

Outro dia era sobre educação e o livro, tinha certeza, encontraria com ele: - o excêntrico! Acertei na mosca, digo: no amigo!

Não dá outra. Precisando de material sobre política, filosofia, educação, religião e literatura marginalizada: o meu amigo excêntrico tem tudo isso.

Passei um e-mail e não demorou nada, lá veio ele, com duas sacolinhas cheinhas de livros: 11 no total.
_ Meu amigo, eu te gosto tanto que você nem calcula!

Meus filhos, para bisbilhotarem, atacaram os livros antes de mim, quando... a criança gritou:

_ Mãe, o seu amigo é rico!???

Fiquei boquiaberta! Não acreditamos, a família toda – marido, filhos e cachorrinho, no que encontrávamos a cada passagem de páginas dos livros que ele me emprestou. Nós, pobres mortais, marcamos páginas com régua, dobramos, fazemos orelhas, colocamos papelzinho entre uma página e outra, até ramona já use; mas o meu amigo não: marcador de páginas dele é nota de dinheiro.

Levando-se em conta as datas das publicações dos livros dá para entender as notas de Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro Real, e... Real, a moeda atual, nenhuma (acho que ele as retirou antes de emprestar o livro).

Brincadeiras à parte, o meu amigo não e excêntrico apenas por guardar notas de dinheiro antigo dentro dos livros; ele é excêntrico porque lutou por um ideal e acredita, ainda, na força da honestidade em prol do ser humano cuja energia movimenta o eixo da Terra.

  Ele é excêntrico porque acredita que o bem vence o mal, apesar de não ser nenhum Príncipe de conto de fadas, mas se ele fosse um anão seria o Zangado da Branca de Neve!

 Ele é excêntrico porque é grato aos que ainda erguem, com a mesma garra de outrora, a sua bandeira de luta; mas se oportunidade houver, ele mete o mastro na cabeça de muitos.

Ele é excêntrico porque não se acautela quando tem que descer o seu vocabulário espanhol no lombo das inconsciências interesseiras. Não traz caráter de pessoa que se aproxima de outra para tirar proveito algum.

Ele é excêntrico porque é objetivo, não blasfema nem injuria. O mesmo ideal que ele propagou quando a parteira lhe bateu na bunda, ainda lhe está na boca e nas suas ações sem mudar uma palavra. Eu sei disso, o primo dele, o Pablo, artista profético, já tinha registrado tudo isso em uma tela. Qual tela eu não sei, mas que pintou a carranca deste primo que nasceria por estas terras, ô se pintou!

Ele é excêntrico porque o que ele tem de “persona” não é nada casual ou arbitrário, mas com uma sorte danada, conseguiu casar-se duas vezes, contrariando a própria convicção de que milagres não existem.

  Refleti, imaginando-o dentro de quantas fadigas ele amargou, ter que assistir a moeda da sua Pátria se transformar em “nada” numa simples virada de página, num período em que ele, eu soube, lutava contra uma ditadura que desconhecia do País do futuro as necessidades.

  Deixar as notas antigas dentro das páginas dos livros é uma delicada forma de ele não se esquecer do quanto trabalhava para receber um papel que no outro dia – a próxima página da sua vida- aquele dinheiro já não tinha mais valor nenhum.

Deixar as notas antigas dentro das páginas dos livros é uma maneira indelével de se lembrar das misérias das vidas no entorno da sua, da atmosfera pesada que respirava com a família e os amigos.

Deixar as notas antigas dentro das páginas dos livros é uma forma que ele encontrou de voar para longe, para além do amanhã, onde saberá mais do que hoje, entendendo que o “saber pouco” não deverá ser esquecido.

Deixar as notas antigas dentro das páginas dos livros é transitar sobre paralelas e entender que é preciso, muitas vezes, deixar de ser sério, porque ele, o meu amigo excêntrico, já não tem mais tempo para si mesmo.

Deixar as notas antigas dentro das páginas dos livros é permitir-se ser criticado, criticando na mesma proporção, inclusive a mim, numa amizade que me faz crescer admirando-o por sua filosofia, que me permite discussão sem ter que concordar com ele, nem ele comigo porque, apesar de nossa animalidade latente: Nós somos lindos no último!Conhece desta, que o apresenta, as falhas, mas não me espezinha os sentimentos.
Corintiano de carteirinha, sabe de cor as notas do hino do seu time do coração, porque o meu amigo excêntrico tem o passado como bandeira e o presente como lição.

Ele é  Luladilmista, mas é meu amigo; então, o que é que tem?  ELE USA ÓCULOS E EU TAMBÉM ,

Diz, fazendo o sinal da cruz, que é ateu graças a Deus, e  deve ao Criador  definir-se agnóstico. Tenho um amigo excêntrico, graças a Deus!

Não deixando se dominar pela "grana", meu amigo esqueceu suas notas dentro das páginas dos livros para lembrar-se do quanto é caro continuar com suas virtudes.

Ter um amigo excêntrico, assim, é acreditar que todo passado valeu a pena e nele se sustentará muito futuro.

Respondo aos meus filhos:

  - Sim, meus queridos, eu tenho a honra de ter um amigo de muitas riquezas.

  Confesso que não tenho vontade de devolver-lhe os livros.
Com muito respeito: Obrigada,Ventura Picasso!

Parabéns, meu querido amigo, pela data especial de sempre e para sempre, como a de hoje.


P

segunda-feira, 15 de junho de 2015

UMA CANÇÃO PARA O RAFAEL

''Sabe quem é esse garoto caído na foto? É o Rafael14 anos, morador de Cariacica (ES) e que sonhava em ser um estilista famoso. Sonhava, porque ele foi assassinado. Foi espancado com paus e pedras. Morto, aos 14 anos de idade. Não tinha envolvimento com crimes, com drogas e passava horas em seu quarto fazendo vestidos para bonecas. Frequentava a igreja do bairro, fazia parte de um grupo de jovens. Segundo a família, Rafael sofria preconceito o tempo todo por ser gay e por ser afeminado, por não se enquadrar no padrão heteronormativo imposto.

Rafael pagou com a vida por viver uma vida que a gente é proibido de viver. Rafael entra pra estatística, não gera protesto da ~gente de bem~ porque não era imagem de santo, não era Jesus em cruz. Era só mais um menino pobre, preto, viado. Menos um, alguns dirão. 
Rafael não será mais estilista, porque Rafael foi executado. E os motivos, que ainda estão sendo investigados, já estão muito claros.''



UMA CANÇÃO PARA O RAFAEL
  
Na certidão: Rafael Humano Como EU.
Rafael era calmo; seu semblante, angelical. De seus olhos amendoados podiam-se extrair brilhos multifacetários, e ele os multiplicava em suas doações para enfeitar ainda mais os traços finais de sua cútis de porcelana.
Os lábios de Rafael tinham contornos delicados e a cor de carmim exalava uma saúde inspiradora  de onde fluía sorriso farto.
Os cabelos cacheados escondiam-lhe os ombros. A malha, grudada na silhueta, mostrava peculiaridades expostas num corpo de mito. Assim a natureza o fez, assim a natureza o queria.
 O  Rafael se fazia amigo dos colegas com uma força exagerada de se sentir igual.  Era igual aos demais “Rafaeis”, embora os seus semelhantes o diferenciassem.
Em riste um, outro e tantos  muito “normais”, foram os dedos que apontavam-no em julgamentos depreciativos.
Oh,   Meigo Rafael!
O tempo encurtava-se e as horas prometidas aproximavam-se.  Seus passos delicados, outrora firmes, flutuaram sobre os ponteiros que marcavam o momento da dança no compasso das ameaças. Sem um par,  dançou no palco marcado por pedras e paus que descrevem a batuta regida por mãos assassinas. 
Com a sua física indefesa, provou trocas de energias, perdendo de vez as suas partículas elementares.   Castraram sua biologia, subtraíram sua igualdade.
Rasparam-lhe os cabelos, deram cabo àquele sorriso de paz.  Os seus olhos injetados de sonhos foram chutados, fecharam-se diante de tanta  impiedade.  Suas folhas com desenhos de vestidos voaram com o desespero do vento, levando, manchadas, a sua rasgada ao tempo.
 O semblante daquele que um dia foi, é, agora, deformação. Do seu corpo  estendido no chão, uma geografia desfigurada escorre entre a seca  daquele meio natural de  relações.
Oh, como eu o vejo, agora, nesse chão pisado e cuspido por “homens de fibra”?   
Cadê você, meu amigo? A sua casa, o seu sobrenome, a sua identidade cadê?
Que vontade de abraçá-lo e protegê-lo, mas cadê você, meu irmão, nesses pedaços de corpo que eu vejo?
Ouça a minha canção, meu filho querido! Que eu cantarei a tantos como você. É um pouquinho do que posso fazer. Quero cantá-los.
Ah! Esqueço-me, sempre, de que eu não sei cantar... Sempre mesmo!
A minha voz não é bela, o meu som não tem ritmo, mas eu quero tanto uma canção para você, meu esposo!
Vá, meu amante, ouvir a canção que palpitou no seu peito, e arregaçou as mangas do seu verbo de vida.
 Vá, no balanço da alma, exalar o seu perfume no ateliê do Universo.  
Vá, meu pai amado, celebrar o bailado da sua pureza. Da natureza foi parte integrante, mas quantos amantes não o conheceram no amor.
Oh, criatura perfeita! Em quantas canções ainda tem que gritar? Lá, no seu encalço, pregaram um decalque e prometeram arrancá-lo com a justiça das mãos. 
Quem sabe no palco de Apolo um anjo lhe cante uma música. Por- que no do homem, você dançou Rafael. Você dançou!
Onde estiver aprenda: antes de ir à guerra cante uma canção em louvor ao seu deus. Já sinto, companheiro! Já sinto, que no oráculo ouvirá melodias de amor.
Vá até ele, um deus o espera para brincarem juntos com um disco cuja canção não desfigure o seu semblante de gente.
 Ouça canções, querido! Ouça canções.
 Perdoe-me !
 Perdoe-me, Rafael, mas eu não sei cantar.

Rita Lavoyer



domingo, 7 de junho de 2015

COELHOS ESTÉREIS



Os Coelhos da família Silva Santos, por determinação do patriarca, cultivavam, na pequena propriedade, apenas repolho, seguindo a tradição daquela cidade.

O Coelho Blueco, gêmeo de Redeco, não querendo viver à base do vegetal, pediu ao pai que lhe desse a sua parte na herança, desarmonizando aquele lar. 

O ódio dos familiares  que moravam na mesma casa   aumentou quando, já com sua parte da herança na carteira,  disse a todos não aguentar  mais o cheiro insuportável de pum   impregnado nas paredes daquela morada. Ia para um lugar onde  pudesse  comer bem e sentir cheiros diferentes!

- Não conte com  o ovo dentro da galinha - disse-lhe Redeco, seu irmão gêmeo.

A revelação de Blueco feriu  o coração do pai. A mãe, sofrendo a partida do filho, acumulou sua tristeza com a viuvez que lhe acometera dias depois. As noras e as filhas, não suportando o choro da matriarca, ameaçaram deixar os companheiros caso não conquistassem um pedaço de terra onde pudessem morar e plantar o que quisessem.

Os casais com seus filhotes seguiram seus destinos, só Redeco,  solteiro,  em respeito à memória do pai, permaneceu com a mãe cultivando repolho, 

Blueco saltitava por caminhos  nunca antes imaginado na sua vida de coelho. Sentiu fome e no primeiro boteco que avistou, entrou.

- O que é isso? – perguntou ao balconista, apontando para a estufa.
- Coxinha de carne de boi!

O coelho desgarrado empanturrou-se, gastou metade da  herança. Dias depois o estômago alertou-o. Adentrou outro boteco e o ritual se repetiu com coxinhas de carne de frango acompanhadas de cervejas. Ali  depositou seus últimos centavos. Sem  nenhum dinheiro e com fome, Blueco conheceu Greg, raposa dono do  “Boca do Inferno”, lugar de luxúrias em que os frequentadores desenvolvem  potencial para darem trabalhos aos santos que promovem o perdão. Ali, Blueco conheceu o que significa chafurdar e dos lixos recolhia  sobras de comidas para matar sua fome de coelho libertino.

 As variedades de alimentos que achava apeteciam-lhe, mas, sifilítico, isolou-se e, envolto à solidão, teve uma ideia:  retornou por aquele caminho do “nunca antes”, entrou no boteco da coxinha de carne de frango e foi menosprezado; no da carne de boi ofereceu-se para trabalhar em troca de comida.

 Conhecedor das sobras de alimentos,  produziu os mais variados recheios para o salgado e a freguesia aumentou. Sabendo-se ótimo profissional, embora sem dinheiro, pediu demissão e conseguiu empréstimo com  Youself -  o cágado gringo que apostou na esperteza do coelho -  e abriu o seu próprio negócio na certeza de que arrancaria as freguesias daqueles botequeiros que o maltrataram e aproveitaram-se da sua condição de coelho pobre e  abandonado. Certo de que quem espera sempre alcança, Youself recebeu  o empréstimo com todos os juros propostos.

Blueco prosperou e lembrou-se da família. Chegando à casa do pai viu que nada modificara, a plantação de repolho minguava. Sua mãe, velhinha, reconhecendo-o, alegrou-se por vê-lo bem. Ele entristeceu-se por saber da morte do pai e por Redeco o amaldiçoar, igualmente as irmãs e cunhadas - acusando-as de incitarem um comportamento de manada,    que obrigaram os machos daquela família  procurarem outras terras, prejudicando o desenvolvimento da cultura familiar. 

Soube que os irmãos mudaram-se de país, cedendo os direitos da propriedade a Redeco que continua a acusá-los com o ditado: "diga-me com quem andas que eu te direi quem és". 

Para não deixar  o irmão e a mãe abandonados, levou-os para morarem com ele e tocarem juntos as suas fábricas  de coxinhas de vários recheios. Antes de sair, Redeco protegeu a propriedade com cerca elétrica, dizendo que "cautela nunca é demais". 

 À mãe deu vida de madame e  ao irmão Redeco, - que jurou-lhe vingança  por causar a morte do pai-, deu um anel, roupas novas, sandálias para os  pés e o empregou com   salário de presidente.  

Por causa da sífilis Blueco não procriou e por  trazer mágoas das fêmeas da família, Redeco tornou-se misógino.

Na sexagésima semana da sua chegada às fábricas, Redeco incitou os funcionários e, juntos, promoveram greve sob o slogan: “ Sem funcionários não há coxinhas e sem coxinhas não há Blueco”.  Unidos, destruíram as fábricas, levando o dono à falência.

- Filho:  "Para falar ao vento bastam palavras; mas para falar ao coração são necessárias obras”.  Por que age assim com seu irmão,  Redeco?"
- Mãe, Blueco é um explorador da nossa raça. Aos coelhos o que é dos coelhos! Aqui se faz, aqui se paga!
Desgostosa pela violência promovida por Redeco, a mãe morreu.

Pobre, o coelho pródigo retornou ao “Boca do Inferno” onde encontrou colos perfumados, repouso e segurança. Bom de negócio, investiu nesse empreendimento também; reergueu-se, comprou-o e abriu várias filiais  tendo o raposa Greg como gerente.

Redeco, idolatrado por ter uma orelha mutilada por cães de guarda de uma pastelaria,  quando tentou invadi-la para apossar-se dos recheios que produziam, traz consigo, mantendo sua base,  uma legião de desassistidos de todos os gêneros. Juram, alguns de seus seguidores, tê-lo visto promover milagre, transformando um copo d’água em 51.

Em praças públicas, promove o sermão do bom ladrão aos que  não suportam mais sobreviver a base de repolho, tampouco sentir os cheiros e ouvir os ecos que o vegetal proporciona...

... enquanto Blueco, com seu empreendedorismo, já desenvolve, nos fundos do “Boca do Inferno”, variedades de  recheios de frutos do mar, agradando o paladar de quem tem pressa para comer molusco, ainda que seja cru. 

Rita Lavoyer








quarta-feira, 3 de junho de 2015

QUAL O TAMANHO DO SEU MUNDO ?



QUAL O TAMANHO DO SEU MUNDO?

Então, é desse modo que a gente diminui ou aumenta a nossa história.
A mulher cuidava das suas plantas com tanto carinho que conseguiu humanizá-las. Elas estavam dentro  da casa, cujo  espaço  era imensamente grande para confortar as diversas espécies cultivadas.
Os remedinhos, as aguinhas, os adubinhos, o ventinho, o solzinho, o carinho e tudo mais de que as plantinhas necessitavam eram lhes dados em doses e horários estabelecidos. As plantinhas viviam em suas exuberâncias, lindas de viver. 
 O amor daquela mulher pelas plantas fez com que ela pensasse assim:
“Já que estão lindas aqui dentro de casa, mais lindas e vistosas vocês ficarão se eu as colocar do lado de fora. Lá há mais brilho do sol, vento corrente que nunca para de ir e vir... Poderão sentir as águas das chuvas e conhecer o que é o sereno da madrugada. Vou sentir muito, aqui dentro  há espaço e tudo o que há de bom eu lhes ofereço, mas julgo que lá fora vocês serão mais felizes. Quero  vê-las cada vez mais belas e fortes.”
A mulher explicou exatamente nesses termos a cada uma das  suas plantinhas.
Foram dias arrastando vasos, arranjos, jardineiras, correntes e suportes de dentro para fora da casa. Mas nada se ajustava. Colocava-se os vasos, retirava-se as jardineiras. Os suportes atrapalhavam as correntes. Tirava-se um atrapalhava-se outro. Desenroscava daqui, enroscava dali. Pendurava uma plantinha aqui, misturava com outra espécie com a qual não podia ter contato. Não podia ficar, mudava tudo novamente.
Foi muito difícil  acomodar tantas plantas, enfim, para aquelas espécies não havia espaço  suficiente  do lado de fora, como no  lado de dentro da casa.
E nessa luta de tira e põe, apesar de continuarem recebendo o mesmo carinho daquela mulher, as plantas começaram a sentir a diferença da temperatura, da água da chuva, do sereno da madrugada... Algumas secaram, outras murcharam e derrubavam suas folhas com frequência. As espécies que caíam em cachos não cacheavam mais.
O desconsolo tomou conta do coração da mulher. Parada diante dos vasos, cruzou os braços, respirou fundo e chorou. As lágrimas lavaram-lhe a face  e sua dor ganhou  som. Ouvindo os soluços, o filho pôs-se diante dela e disse:
_ Mãe, guarde suas plantas dentro de casa e cuide delas como antes, assim voltarão a ser como eram. Aqui dentro de casa há mais espaço do que aí fora.
Com os olhos lavados de mãe, respondeu-lhe:
_ Filho! Se eu guardá-las novamente tirarei delas a oportunidade de tentarem sobreviver. Recolhê-las, reconfortá-las não as farão lindas e vistosas novamente. O que lhes faltar, terão que buscar sozinhas no espaço em que cada uma se encontra, tendo o meu apoio.
As estações passaram... Floriram novamente, cachearam e cada uma foi tomando forma para se adequarem aos lados da casa. Logo, os espaços tornaram-se o tamanho ideal para que elas sobressaíssem entre si.
_ Mãe, como conseguiu, sem mudar nada de lugar, que as plantas coubessem onde não cabiam?
_ Filho! Eu sempre tive amor e disposição para cuidar delas. Se eu as tivesse guardado, elas voltariam a ser como eram antes de virem para os lugares onde estão. Porém, se em outra ocasião elas necessitassem sair, talvez não aguentariam a mudança de ambiente, tamanha a fragilidade de suas belezas e, provavelmente, morreriam para sempre.
Hoje, meu filho, elas estão bem harmonizadas em seus lugares.  Se eu quiser mudá-las de um lado para o outro, de dentro para fora, elas certamente resistirão. Portanto, quando eu estiver indisposta, sem condições de cuidar delas, certamente não sentirão a minha falta, pelo contrário, estarão vistosas e fortalecidas para me agradar os dias.
_ Mãe, existe um espaço para cada coisa?
 - Não, meu filho. Existe um mundo em cada espaço. O mundo é do tamanho das nossas necessidades. Temos que sair do nosso mundo se quisermos nos encontrar.  Não fuja do seu tempo, meu filho, caso contrário  você não fará a sua história e outros usufruirão, além dos espaços deles, do seu também.    


Rita Lavoyer

terça-feira, 2 de junho de 2015

REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL ?

Esses parlamentares brasileiros empenhados que a PEC 171/93 seja aprovada deveriam, antes, rever seus projetos – se é que existem e se  foram aprovados e são executados em benefícios da criança e do adolescente. Cabe à sociedade e à mídia em geral trazer à vista da população os benefícios que esses políticos  proporcionaram à sociedade, porque retirar adolescentes das ruas e em seguida acusá-los, condenando-os é muito fácil. Difícil é achar os culpados que os levaram para o mundo do crime.
Desta forma, quem julga uma lei como essa e aprova-a, condena com mais rigor a sociedade a quem compete protegê-la, porque depois de aprovada, cruzarão os braços e dirão: “Fizemos a nossa parte”. Como se prender menores fosse solução para corrigir, e se não bastassem tanta corrupção no cenário político, conforme nos apresentam os fatos diariamente. Não se resolve conflitos humanos com paliativo dessa natureza.
Se neste país os parlamentares fossem honrados, mais investimentos haveria para a educação, cultura e lazer, enobrecendo os cidadãos.
Para votar a favor dessa Proposta o parlamentar tem, por obrigação, prestar conta à Nação sobre sua idoneidade, seu caráter, sua competência, sua hombridade e provar que não é nocivo, corrupto ou  assassino anônimo da dignidade de nenhum brasileiro.
Prova, parlamentar,  que já fez alguma coisa em favor da criança e do adolescente antes de votar favorável a essa PEC 171/93.
Prova, parlamentar favorável a diminuição da maioridade penal,  que um projeto seu ( se é que existe  aprovado)  diminuiu o trabalho exaustivo nas Promotorias, Juizados e varas da infância e da juventude, antes de votar favorável a essa proposta, trancafiando em presídios várias possíveis vítimas da sua má fé no exercício da sua politicagem mesquinha e desonesta.  
Prova, parlamentar favorável a diminuição da maioridade penal  e que está acelerando a votação dessa PEC 171/93, que nas cidades onde o elegeram você lutou para promover algum concurso  público para contratação de novos  profissionais na área de educação, esporte, saúde e assistência social!
Prova, parlamentar favorável a diminuição da maioridade penal, antes de votar favorável a essa PEC, que você não se corrompeu em nenhuma ocasião da sua vida, enquanto pessoa pública, para levar vantagem sobre outrem, prejudicando o povo das mais variadas formas.

Não estou com essa minha indignação  tirando a responsabilidade dos menores infratores. Aumente a sua permanência na Fundação Casa. O sistema prisional brasileiro não recupera pessoas.  
Não acredito que  alguns políticos que estão no poder deste país - citados em escândalos os mais indecorosos-,  tenham caráter, competência, dignidade para votarem essa PEC  171/93-  sendo que, muitos desses parlamentares que são favoráveis à redução da maioridade penal, há muito tempo já deveriam estar atrás das grades pagando  por tantos crimes que cometeram contra à nação. 

sábado, 30 de maio de 2015

O Bullying e a Literatura na minha caminhada

               Bullying  e  Oficina de Contos   - Centro Cultural e Biblioteca Municipal de Auriflama 
               
                É extraordinário o poder que a escrita exerceu e vem exercendo sobre as civilizações.  Escrever oferece benefícios;  libera, de quem escreve, razões e emoções de todos os graus. A escrita é o dom que concretiza pensamentos em palavras, em frases, em histórias, permitindo sobreviver seu registrador.  
                Aquele que escreve planeja, rascunha, sonha, chora, ri, derruba barreiras,  melhora o humor, aumenta a autoestima e, libertando-se, orienta, salva,  completa, acusa, julga, condena, elimina  ou liberta quem o lê.
                A escrita, enquanto arte, não tem compromisso com a verdade. Poder  usufruir das palavras, proporciona, a quem escreve, um reexistir na própria história, possibilitando  identificar-se  no texto criado, superando   possíveis eventos traumáticos.
                 “Se eu tivesse escrito não teria matado”  é, possivelmente, uma frase de quem agiu aprisionado ao silêncio e, tendo a angústia como guia, não lhe restando alternativa, antecipou o final de algumas histórias.         

                O BULLYING E A ESCRITA.

              Após a palestra sobre bullying , dia 28/05, em Auriflama,  realizamos uma oficina de contos, 29/05. 
             Apresentamos   aos participantes esse tipo de narrativa,  trazendo, como objetos de  estudos,  contos de alguns escritores  consagrados na Literatura Brasileira, com o propósito de auxiliá-los a conhecerem as técnicas de produção desse gênero literário, reconhecendo nas obras as suas características.

                No período da manhã, já senti o potencial dos jovens,  quando nos proporcionamos  um momento catártico. Liberamos , através da escrita,  palavras que trazíamos  trancadas na garganta, mas que, por muitas razões não podíamos  expressá-las e nem a quem...  Criamos frases de efeitos. Esse momento que  tivemos  para escreveremos  nossas vontades de xingar foi MARAVILHOSO! 

                 Reiniciamos, no período da tarde,  com uma história inventada  por um participante -  que  deveria passar  a vez para o outro continuar .  A dinâmica exigia concentração, porque não se sabia quem seria o próximo a completar a ideia. Com isso  fazíamos pausas para discutirmos sobre  a coesão e a coerência,  e  se o que  foi falado pelo participante apresentava   possibilidades de  se encaixar na história.  Sabiam que tinham que ficar ligados para fazerem gancho  com a fala do
anterior.   
                Essa dinâmica resultou em uma história que não teria fim. Pausamo-nos.  Dessa história fizeram um recorte e, a partir “daquele ponto  recortado”, foi proposto a criação de um conto produzido pelos 7 grupos compostos, cada um, por oito participantes. 
Do ponto de uma história, outras histórias foram criadas com enredos que  causaram risos, arrepios, angústias, suspenses, raiva  com  desfechos que nos permitiram interpretações as mais variadas, tão bons foram os enigmas que conseguiram  produzir, registrando-os.  

                Em outro momento, criaram, individualmente, textos sobre seus defeitos e qualidades que foram lidos ao microfone. Também  foi solicitado aos grupos um conto de horror, com cenas, as mais drásticas, que eles pudessem registrar, com personagens mais monstruosos que eles conseguissem imaginar.

                Até aqui demonstraram que não querem sujar as mãos de sangue, ainda que para destruir um personagem, ou para saírem-se melhores  entre os seus.   Os textos de horror que eles produziram não apresentaram sinais de violência que choquem ou deixem impressões  negativas no leitor.  

                Ficamos  emocionados com as revelações  de amor entre os colegas, com as lágrimas do Marcos que já sente deixar os amigos por causa da mudança de cidade.

                Enriquecemo-nos com as declarações de alguns participantes  que se identificaram com colegas  que, embora fossem das mesmas séries, nunca se  sentaram perto, quanto mais juntos um do outro.
 Muitas experiências eu trago desses momentos que estive nessas duas atividades em auriflama: sobre bullying e produção de textos. 

                Tenho um caminho que me possa ajudar a ajudar alguém a trabalhar melhor  as questões do bullying: a produção de textos  com o auxilio da Literatura. 

         
       Eu, Rita de Cássia Zuim, renasci novamente em Auriflama.

                Muito obrigada  ao Centro Cultural e Biblioteca Municipal de Auriflama, aos funcionários, pela oportunidade  que me proporcionaram de mostrar um pouco do meu trabalho à esta comunidade, à professora Eliane e seus alunos.

                Que Deus os abençoe a todos.


Após a leitura da obra "Bullying não é brincadeira", de minha autoria, os alunos produziram uma reeleitura no Centro Cultural e Biblioteca Municipal de Auriflama. Cheguei lá, à tarde, eu fiquei observando-os dando os últimos retoques no painel, sem me identificar, fiquei admirando-os. Um me olhou, meio que suspeitando, disse ao outro: -  acho que é ela.  Foram chegando... chegando...



Ver meus livros trabalhados em escolas, surtindo efeitos desta proporção...  não tenho palavras que ajudem a  expressar  minha gratidão. 
Recebam todos os envolvidos neste projeto minhas orações em forma de bençãos. 


Rita de Cássia Zuim Lavoyer.