CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.

2012 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - 13ª classifica no TOP 35 na 4ª semana de abril de microconto Escambau.

2017 - Classificada no 7º Concurso de microconto de humor de Piracicaba.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

MOCINHAS SEXAGENÁRIAS - SESC BIRIGUI

Foto: Willians Menane


Por Rita de Cássia Zuim Lavoyer
Birigui, a Cidade Pérola, capital do calçado, pedaço precioso do Brasil, é uma cidade que respeita a natureza. E para colaborar com seu progresso estabeleceu-se, ali, o Sesc que, atuante, caminha lado a lado com o tempo, por isso entendeu que sua unidade precisava expandir. 
Havia um terreno de glamourosa história registrada na Vila Xavier. Idealizaram-no: local adequado para o projeto de expansão. Parcerias firmadas, a doação do terreno concretizou-se. Com a graça da beleza que a natureza oferece, habitavam ali vinte e quatro Palmeiras Imperiais – mocinhas sexagenárias –, predestinadas à soberania. Esbanjando elegância de estilo, são, do presente, o valor. 
Ah! Não se podia matar tanta beleza natural em nome de bela obra de arquitetura. A solução seria pedir às Palmeiras licença para mudar-lhes o espaço, conservando o seu endereço. Ah, a Natureza respirou aliviada, o homem ouvira-lhe as preces e, por intermédio do Sesc, as Palmeiras, naquele terreno, estarão preservadas.

Mãos à obra que o sonho já é realidade. Reuniões, planejamentos, roteiros, etapas, esboços, demolições, limpezas, terraplenagem,  arquitetura, engenharia, planta humanizada, estruturas, design, instalações, jardinagens, tudo pensado, discutido e aprovado para que as “Estrelas em destaque” sejam, nesse Universo do Sesc, a sua marca registrada.
Novos empreendimentos exigem trabalhos e as Palmeiras souberam que desse espetáculo são as protagonistas, para as quais todos os empenhos seriam consagrados.  Para usufruírem melhor bem estar nessa nova morada, avisaram-nas de que do berço em que estavam, a outro precisavam ser transplantadas.
As “Vinte e Quatro Mocinhas”, exultantes, concederam singela licença. Valentes, aceitaram o desafio: deixaram-se conduzir a tão responsável aventura.
E a terra foi revolvida. Como joias, feitos os cálculos, as Palmeiras, uma a uma, carinhosamente, foram removidas e postas em destaque no projeto arquitetônico.  Em reverência às suas origens, levaram consigo suas raízes e de humildades fertilizaram-se. Ante os novos espaços, no mesmo terreno, a elas destinados, viram-se transplantadas. Ali, brincando, exibiam suas silhuetas esguias com mais de doze metros de altura, alegrando dos céus seus carizes. Mostravam-se gigantes, gloriosas a essa nova etapa.
Dia a dia, compreendiam que deixar o seu solo, experimentando outros lugares, extraindo deles o necessário aos seus fortalecimentos, lhes aumentava o vigor. Aos  pássaros desejam-se pousada, sustento, potencializando a ambos as suas finalidades, virtude que a vida lhes proporcionou.  
Enquanto pesquisas e projetos se desenvolviam e aos poucos se concretizavam  para transformar o recinto em  ecológico e ambientalmente o mais sustentável possível, havendo  duradoura reciprocidade entre as Palmeiras, seus tempos e seus espaços,  a gestação do padrão estrutural perpetuava em sua coluna o retrato de cada uma delas, valorizando-lhes os perfis.
E elas, assistindo tranquilamente ao trabalho, durante cinco anos, aprofundaram-se em propensa fortuna. Tudo já era realidade. Hoje, podemos ver que o projeto se adequava às Palmeiras. Aos nossos olhos presenteados o deleite de toda uma arte onde das Palmeiras impera o verde de seu matiz, registram no conjunto da obra os seus DNAs, porque o Sesc Birigui é tal como as Palmeiras Imperiais e elas, cientes dessa unificação, agradecidas, o edificarão. 
Revigoradas com os tratamentos que receberam e, findado o processo dessa criação, revestidas da estirpe que lhes foi consagrada, guarnecidas de maturidade, sagraram-se Senhoras de si. Novamente transplantadas, ganharam, cada uma, a poltrona que lhe é de direito, para que, estabelecidas em seus canteiros, assistam, abrilhantando, a unidade a elas planejada.
Com total autonomia, as Palmeiras Imperiais ruflam suas folhas ao tempo para dizer-lhe que continuarão lado a lado com ele em suas infindáveis jornadas, porque no Sesc Birigui- Capital das Palmeiras,  é o lugar  onde elas, para todo o sempre,  desejam ser e estar. Privilégio que, desde os seus nascimentos, a Natureza registrou em suas credenciais.  
  



Rita de Cássia Zuim Lavoyer é professora de literatura e escritora.
A convite do Sesc, Rita nos presenteou com o texto contando a história de um dos principais elementos da paisagem da nova Unidade do Sesc em Birigui, as palmeiras imperiais (
Roystonea oleracea) que estão presentes no terreno ha mais de sessenta anos e que foram preservadas durante a obra do complexo Sesc em um delicado processo de transplante e preservação.
 
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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

terça-feira, 24 de outubro de 2017

AOS POLICIAIS

AOS POLICIAIS
Não deveriam ler um texto sobre morte. Por isso, peço-lhes perdão, mas o escrevi por ter muitos Policiais a chorar. Gostaria de compor uma Ode a eles, meus escritos seriam mais brandos, belos e até bajuladores. Mas não! Embora os Policiais sejam merecedores de epopeias, hoje, faço-lhes uma prosa com o tom da elegia. Por isso minhas palavras escorrem como sangue. Aqui, elas não terão outra cor, uma vez que a realidade sobre a segurança, em todas as partes, compele-nos a meditar quanto a nossa cooperação para com esses benfeitores que, com seus dons, nos protegem a todos.
Será um dom? Pode, numa relação desigual de poder existir mais fuzis nas mãos de malfeitores que viaturas, armamentos e Policiais para vencerem os crimes sem que esses Humanos não contassem com recursos Divinos? Que nome dar ao sacrifício dos Policiais que fazem da sua vida o escudo protetor para o seu próximo? Coragem?
Clamamos por segurança. Queremos todos, das mais variadas patentes, a nosso favor, porque são eles, os Policiais civis e militares, que ganham para isso. Que sejam heróis então! Deveria existir cemitério para heróis. Que tolice! Heróis não morrem!  Só o homem morre. Policiais morrem! Policial morto serve pra quê? Só para dar ibope nas páginas e canais de terror policial? Não há paginas, nem canais que divulgam  os medos, as angustias, as frustrações, as necessidades, as ações humanitárias dos Policiais! Não precisam?  Os brutos não choram, não riem? Não! Porque os barulhos das bombas que eles têm que enfrentar não são maiores  que o silencioso grito que aperta do Policial a jugular. Ao Policial compete-lhe desativar suas bombas no próprio peito, sem alardes. 
Um Policial morto é um cadáver a mais no cemitério; é um filho a menos para o conforto dos pais. Um Policial morto é um número a mais nas estatísticas do crime; é um pai a menos para auxiliar os filhos. Um Policial morto é um ganho a mais para o bandido; é um funcionário a menos na folha de pagamento. Um Policial morto é um discurso a mais para o político; é um irmão a menos para os diálogos. Um Policial morto é um sarcasmo a mais para o traficante; é um companheiro a menos na corporação. Um Policial morto é um choro a mais no leito do cônjuge; é uma esperança a menos para um futuro melhor.  Um Policial morto é uma vela a mais que se queima, é uma sociedade a menos com segurança.
Tudo isso e muito mais é possível com a morte de um Policial que recebe homenagens  que ele não vê, nem ouve mais. E a sua família, Policial? E a sua família?  Depois ela recebe o auxílio funeral que não supre a sua ausência e, ainda, como recompensa dão-lhe uma medalha.
É cruel demais esperar que um Policial morra para homenageá-lo depois. O corpo do falecido não sente, não vê e nem ouve mais as palavras dos discursos a seu favor.  Ele quer, precisa de silêncio para usufruir da segurança que sempre mereceu.  Mas se fosse possível consultar-lhe as entranhas, ali, onde suas bombas foram desativadas, a sua voz, talvez, profetizaria o futuro e nos responderia a pergunta: qual é o nosso futuro, Policial, sem a graça da sua proteção?  
Sem respostas, cumpre-nos continuarmos acreditando que Infinita é a bondade de Deus, mas algo a mais deve surgir de nós, a nosso favor e nossa proteção, porque os Policiais,  esses seres humanos que não trazem os coletes da onipotência estão sendo alvejados covardemente e morrendo por nós.
Deixo o meu silêncio e a minha vergonha por não valorizar a contento este profissional de quem tanto precisamos: O POLICIAL. Este, que por amor à farda, à profissão e em respeito ao seu juramento, tem dado a vida pelo irmão. Isso não é ter dom. Isso é ser Divino.
Rita de Cássia Zuim Lavoyer


sábado, 21 de outubro de 2017

MICROCONTOS




Palavra do dia: carta

- Cabral, que devo escrever na Carta do Achamento?
- Ora, Pero, escrevas que descobrimos adultos e crianças pelados
vivendo com bichos. Mas usa aquelas linguagens Medievais, 
senão tua carta não entrará para a história da arte e
“Movimentos Anticartas Obscenas” te cassarão a escrita.
Tu queres isso?



 carta
Encostou. Transpiravam-lhe as mãos. A boca seca, o coração acelerado,
a confusão, as pernas bambas, o frio na espinha e, ali, na estrada,
quando o policial pediu-lhe a habilitação, fugiu! Alcançado, disse que é trabalhador, abstêmio e que fugiu porque não tem habilitação,
só carta de motorista.



Palavra do dia: braça

Mediram, somaram, dividiram e concluíram:
as cabeças estavam ¼ de braça distantes uma da outra.
Como uma jaca pode cair e atingir os dois?
Peritos buscam entender que bode foi esse de a jaca
se espatifar na cabeça da cabrita e do Zequinha no mesmo instante!
Investigam se provocaram tremor no solo.


Palavra do dia: costureira

Era costureira muito temida. Fez o Aedes Aegypti proliferar na cidade.
Às noites, saía à caça de sapos.
Enfiava papéis com nomes dos seus desafetos nas bocas deles
e as costurava.
Ontem, a natureza a viu sofrendo com dengue hemorrágica.
A bem da terra, não gravaram o nome dela na lápide do túmulo.



Palavra do dia: aventura

Nas aventuras solitárias, Tonho, cavaleiro andante, 
prendeu os significados e as posições das coisas. 
Matuto, apeou da mula que o carregava e fez-se cavalheiro.
Carregou sua dama relinchante no lombo
até o dia em que ela encontrou um astuto solitário
que a convidou para viver aventuras a dois.   

 aventura

Nas suas inconsequentes aventuras nas águas quentes do Caribe,
Tutu não perde a oportunidade de experimentar
um banhista desavisado sobre a fome mortal de um tubarão aventureiro.

aventura

Casa da Moeda foi o nome que Patricinha deu às economias do Léozinho,
que ela conseguiu quebrar.
Quando Léozinho viu seu porquinho espatifado e suas moedas saqueadas
disse que a ladra haveria de pagar.
Patricinha não tem dúvidas: viverá melhores aventuras.
Já estuda meios de se aproximar do BNDES.




Palavra do dia: novidade

Qual a novidade para o almoço, bela?
- Sopa!
- De novo? Há dias você só faz sopa no almoço e na janta!
- Prometo que a janta será diferente, belo!
**
- Qual a novidade para o jantar, amor?
- Sopa!
- E a novidade que me prometeu?
- Não prometi novidade. Prometi que seria diferente. Esta eu comprei pronta.




Palavra do dia: flauta
Flávia flautava nas aulas de música porque a flauta do professor flertava com seu violão.


Palavra do dia: surfe

Severino viu campeonato de surfe na TV.
Sonha estar numa prancha, pegando uma onda daquela.
Impossível naquela seca onde vive. Quando a vontade o atola, é na água barrenta dum riachinho q’ele equilibra seu sonho.
Já pegou muitos jacarés. Como medalha, usa pedrinhas.
Tem uma latinha cheia delas.



Palavra do dia: clique

Drácula, traumatizado com os cliques dos interruptores do Sol e da Lua,
teve uma luz: comprou tapa ouvidos no mercado livre.
Os hackers descobriram seu endereço e, num clique,
seu castelo transformou em luz para os  vampiros midiáticos. 
Arrependido, lamenta-se: deveria ter comprado um tapa olhos.




Palavra do dia  puberdade

Rui não acredita que tudo que sobe desce;
que o homem é o lobo do homem; que está na puberdade... 
A irmãzinha jogou sua Bárbie na cara dele e o desafiou.
- Fica horas no banheiro e não acredita nisso ainda?
Ele chora que o sapatinho da boneca furou-lhe as espinhas.
Ela, rindo, acertou-o de novo. 



Palavra do dia: votação

Injustiça! Na eleição, sem
pre os mesmos candidatos! Por sua humilde condição, votará naquele
que lhe mate a fome. Na votação, para vingar-se da sua inanição,
enfiou a mão no bolso e certificou-se de que suas parcas moedas
o condenavam a escolher, mais uma vez, entre
o hot-dog e o cachorro- quente.



Palavra do dia - nostalgia

Curumim, após a morte do Pajé, repete:
Fora, nostalgia! Fora, nostalgia!

Certo de que na sua aldeia não haverá mais as contações de histórias
que reuniam a tribo ao lado da fogueira, Curumim, com saudade
de ouvir sobre a pátria dos seus ancestrais, para remediar sua dor,
tornou-se adepto do Google.


--------------------------------------------------------------------------------------------------Por Rita Lavoyer -------------------------------------------------------------

sábado, 14 de outubro de 2017

PROFIXXIONAL

Publicado na coluna Tantas Palavras-Jornal Folha da Região, 14/10/2014
PROFIXXIONAL
Rita Lavoyer

            Tem coisas que se aprende na escola e nunca mais se esquece. A criança aprendeu em uma aula que suco de caju tem vitamina C. Estudou sobre o tal suco e foi fazer a prova.  A professora pegou o giz e avisou que as respostas seriam marcadas com  “X”. A criança preferia prova dissertativa para apoiar-se em seus garranchos, que deixavam a professora em dúvida sobre a exatidão de suas respostas. Quando leu a prova não viu a pergunta sobre o que estudara, gritou:

         – Cadê a vitamina C!?  O suco de caju!?
            Nesse ínterim a professora espirrou.
            – Vai tomar suco de caju!! – o aluno falou.

            Aconteceu o que há muito tempo a professora surda queria. Apoiada em seu profixxionalismo, mandou aquele aluno direto pra diretoria. A classe toda ria, balançava a cabeça, concordando com aquilo que a líder fazia.

            – Indixxiplinado! – ela disse ao pai, que satisfação  foi tomar  . – Seu filho é anormal, tem ideias abxurdas que não condixem com o que é fundamental! Pra ele não há remédio.  Não xe ajusta ao perfil da excola. Por mim o mandaria embora!

            O tempo passa e a mesma “profexxora”, noutra escola, aquele aluno encontrou, mas não se esqueceu de que  suco de caju tem  vitamina C. Continuava com as ideias que incomodavam. Já era aluno médio, além do caju aprendeu que “vitamina C” também era ótimo remédio. Estava sempre se deparando com a ‘fexxora’ que vivia gripada.

            – Tome vitamina C! Se não tiver chupe um bom caju!

            Era alergia a giz. A voz dele, aos ouvidos dela, soava como fuzis e, de novo, só para “maXucar”, ganhou um grande “X” .

            Foi quando ele conheceu o supervisor da escola e os bois da sua claxxe com suas cabexas balançando e as bocas babando.

            Existem textos que, por uma questão ou outra, alguém não conxegue ler. Por causa das suas histórias aquele aluno vivia por um fio, mas delas não desistia e as  aceitou  por desafio.

            Oh, sina! A professora do “X”, aquela danada, também era Pediatra aposentada. Dizia que adorava “crianxa” e que a “vitamina C” era fundamental à vida do bebê!

            Num outro dia, a aula foi laboratorial  O dia fatídico chegou e outra vez suco de caju aquela  ‘xoxora’ quase tomou.

            Ele pensou bem:  “Já sou quase doutor, farei um receituário. Recomendar-lhe-ei um bom suco de caju.”

            E lá se foi o aviãozinho de papel. Letra feia com ‘fexxora’ cega, foi o maior escarcéu. Enquanto todas as cabexas estavam na vertical, em sobe e desce,  concordando com o radical, a dele estava na horizontal  em vem- e- vai.

            –Meu Deus do xéu! Xeu reitor, exxe aluno é um impexilho. Tire-o da minha claxxe para não comprometer a reputaxão do grupo por cauxa da xua letra feia e xuas esdrúxulas ideias.

            Naquele instante,  a “xora” era toda verborreia. 
      
            Com outros “xores” dessa “eXtirpe” , o estudante aprendeu que nem só de morte morre o homem e que “caju” faz rima pobre com lugar sagrado para onde não se deve mandar qualquer coisinha tóxica.

 Sabendo-se ser ele o “X” de muitos exemplos explicitados pelos ensinantes,  por não aprenderam como exigiam que os alunos aprendessem, ele concluiu que urubu tem penas nas orelhas e que rima com a ovelha que ele é: tão negra quanto a ave que, de cima,  enxerga a sujeira do mundo e o faxina, para alegria do suco gástrico dos xairéis, dos  xacocos, dos xexelentos, dos xaropes para os quais não há remédios que os expurguem.             



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

ESTOU VENDENDO UMA CRIANÇA, APARECIDA!

Estou vendendo uma criança neste Dia de Criança. Apareça por aqui, pago o preço que pedir!




Estou vendendo uma criança, desde ontem e para sempre, seja para os supérfluos, seja para os delinquentes.  Apareça quem quiser, que eu desembolso consciente. É tão fácil deixá-la contente.



Estou vendendo uma criança que ainda nem nasceu.   Apareça, aqui, aquele que eu paguei para me dar muito prazer.



Estou vendendo uma criança para o tráfico ali da esquina. Apareça quem a elimine, eu pago qualquer preço para não ver tão triste sina.




Estou vendendo uma criança para o sexo tão explícito. Apareça, quem de gosto, que eu pago para abafar o tal delito.



Estou vendendo uma criança para as violências domésticas. Apareça, eu pago para que este boletim não se some às estatísticas.



Estou vendendo uma criança para qualquer violência esportiva. Apareça, eu pago em qualquer moeda para que o meu time seja o campeão.




Estou vendendo uma criança para ser bem estuprada. Apareça, que eu compro TVs de todas as polegadas, apalpadas, mordidas e afins...



Estou vendendo uma criança para a tal desigualdade. Apareça que eu pago, eu sou “tão” sociedade; preciso estar. Já que sou, posso!



Estou vendendo uma criança para uma doença qualquer de fome. Apareça quem quiser, que eu pago com o meu dinheiro o que se compra, mas não se pode consumir.




Estou vendendo uma criança para uma fila de saúde. Apareça, vou pagar toda ciência que me permita a infinitude.



Estou vendendo uma criança para ser um homem bomba. Apareça, que eu pago qualquer valor para poder dormir em paz.
Estou vendendo uma criança para qualquer tipo de exclusão. Apareça, que eu pago qualquer preço para eu ser melhor que todos.



Estou vendendo uma criança para a boca do lixão. Apareça, eu pago o que você quiser, porque eu quero ver a frente da minha casa sempre limpa!






Estou vendendo uma criança para qualquer sinal vermelho. Apareça, eu pago para ganhar um verde que não reflita no meu retrovisor.



Estou vendendo uma criança para qualquer tipo de Fundação. Apareça, pago o que você pedir para proteger as grades da minha casa. 



Estou vendendo uma criança para se tornar um marginal. Apareça, que eu pago para calar a sua boca se disser que o professor é a autoridade na escola.




Estou vendendo uma criança para que ela não aprenda nenhuma arte. Apareça, põe logo o valor na obra prima que eu preciso lavar o dinheiro.



Estou vendendo uma criança que quer ser aparecida. Apareça, ‘cê’ trabalha tanto, arrisca a própria vida, ganha tão mal, vou dividir com você o dinheiro do resgate.



Estou vendendo uma criança que precisa de justiça. Apareça, eu pago o seu preço para arquivar o processo que corre contra mim.

Estou vendendo uma criança para viver em qualquer rua. Apareça, eu pago o necessário para derrubar os tais barracos.



Estou vendendo uma criança para um projeto eleitoreiro. Apareça, financio a campanha de quem tiver bom marqueteiro.



Estou vendendo uma criança para qualquer violação. Apareça, eu vou me confessar, faremos comunhão. Quanto cobrará  para a minha salvação?



Estou vendendo uma criança para a minha insegurança. Apareça, eu pago o preço, mas leve esse medo que há muito me domina.



Estou vendendo uma criança para uma escola sem educação. Apareça! Leve a minha carteira abarrotada. Leve também a lousa velha, os livros rasgados, a merenda contaminada. Os professores maltratados, espancados,  'apanhantes' e apanhadores de sonhos... Pra que dinheiro pra essas coisas?



Estou vendendo uma criança para que cresça e apareça, depois crucificá-la. Apareça, eu pago qualquer preço para jogar minha moeda nessa cruz.



Estou vendendo UM PRESENTE! Hoje é dia das crianças, Aparecida, compre-O e faça dele passado. Porque o futuro ... o futuro... quanto é mesmo que vale se ele - O PRESENTE - aparecer?


ESTOU VENDENDO UMA CRIANÇA PARA O MERCADO DE CONSUMO. EU PAGO!
É SÓ ELA ME PEDIR.  EU PAGO!



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

CONVALESCENÇA





Por Rita Lavoyer

Acho que não usaria a palavra “convalescença” com facilidade se não a estivesse experimentando. Ela soa mal aos meus ouvidos.  No mínimo diria: estou de molho, estou nos meus direitos... se o período de “convalescença” a que estou submetida não me ensinasse a respeitá-la.

Chega um momento da vida que o que tinha que ser simples ficou complicado e se uma decisão não for tomada para uma possível solução tudo para. No meu caso, algumas coisas importantes estavam parando. Para onde eu ia- geralmente motorizada-, se estivesse calçada com algo que não fosse um chinelinho, sentava e ficava.  Calçar sapato era um suplício e andar só com chinelos estava agravando os problemas dos meus pés.  
Há anos chegando em casa com calçado nas mãos prometi que trataria a deformidade que me atormentava. 

Procurei médicos para tirar dúvidas, conseguir informações e opiniões sobre o meu caso e todos, todos foram unânimes quanto a necessidade da cirurgia. Dos amigos, a quem contava minha situação, ouvi negativas de todos os tipos quanto ao procedimento. Cada um tem outro amigo cuja cirurgia foi mal sucedida.  Mas eu decidi que a minha seria um sucesso!

Já não tinha mais como fugir da situação e autorizei que metessem o serrote e implantassem logo as placas e os parafusos. A minha certeza foi se fragilizando após outras consultas o médico me explicar e dar recomendações sobre o pós cirúrgico. Misericórdia!

Voltando aos amigos, alguns me animaram mais um pouco. Disseram que quando o tempo pensa em mudar os parafusos me avisam dias antes.
Passei pelo anestesista. Uma criatura linda, tão delicada e humana, confortou-me: - Prepare-se! E terminou com a máxima: DÓI MUITO!

E chegou o dia abençoado. Subi na maca, respirei empoderada de mim, me achando... e me achei aos gritos com a enfermeira me picando para aplicar o soro. Fui valente! Segurei firme e nem fui mal educada com ela. E o lindinho reapareceu. Falou sobre a anestesia e aplicando qualquer coisa na minha veia, falou sobre a dor, sobre a queimação, sobre... Ainda bem que não deu tempo de eu ouvi-lo  nesta última explicação. Se eu já não estivesse dormindo, fugia com meus pezinhos mancos daquele centro cirúrgico.

Para bem da verdade e dos médicos, tudo o que me informaram sobre as dores do pós cirúrgico é verdade, e descobri que o estado líquido de Deus tem o nome de Morfina. Ai, que alívio! Como também é verdade eu não ter me preparado psicologicamente para a tal “convalescença”. As cirurgias que já fiz não me exigiram isso. Aguentar uma semana parada foi barra, duas já estava chutando o pau da barraca com o pé costurado. Entendi que um método eficiente para quem deseja internar uma mulher no sanatório é engessar os pés dela. Que mulher se aguenta sem bater perna?

Não aguentava ler. Escrever nem pensar, mas não parei de rezar porque sei que há remédios na oração.  Está em Paulo (Hebreus, 10:36): “Porque necessitais da paciência, para que, depois de haverdes feito a Vontade de Deus, possais alcançar a promessa.”  E eu me prometi isso!

A cirurgia ainda dói. Mas é tanta vontade de pôr um calçado para caminhar bem que paciência tornou-se forte aliada da minha convalescência.

Abençoada seja a ciência e eu creio no milagre promovido pelas mãos dos médicos, aceitando que a palavra CON-VA-LES-CEN-ÇA agrada meus ouvidos e proporciona-me bem estar.

Deixo aqui um conselho para quem precisa operar os pés: espelhe-se nos casos positivos, que deram certo. Cada caso é um e o seu é único. Siga o seu desejo de melhorar, respeitando o seu período de convalescença que tudo dará certo para você também. Desejo-lhe sucesso, porque o forró nos aguarda!


Por Rita Lavoyer