terça-feira, 3 de maio de 2016

A FIGURA DO TIRSO


Rita Lavoyer
A menina sentiu uma saudade que a levou para debaixo daquele pé de manga, que se juntava a outros, em que sempre teve vontade de subir e colher a fruta madura, chupando-a lá em cima mesmo, mas não fazia porque suas mãos pequenas não davam conta de agarrar os grossos galhos da árvore. Saía dali e ia ver o jogo de biroca com os moleques na rua de terra. Queria mesmo era ganhar aquela “zoiuda”  do Tirso, figura do cão, como ela o pintara, há muito esquecido por ela. Mas nesse jogo ela nunca participou, apenas observava com sua grande força de vontade, sendo parte integrante da partida sem nunca ter sido.
A “zoiuda” rasgava a terra e mandava as miudinhas para mais de metro de distância. Aí ela – a “zoiuda” - ria-se das miudinhas. Ela via as suas  bolinhas de gude – as que nunca teve -  ali, jogando com aqueles moleques.
Sentia uma força atiçando-a a quebrar os dentes do Tirso por muitos motivos, principalmente porque se chamava Tirso.  O lazarento do moleque, além de subir nas mangueiras e se deliciar com as mangas que ela via primeiro, jogava as cascas e os caroços da fruta no quintal da casa que ela tinha que limpar.
Queria muito que o Tirso caísse da mangueira e um meteoro o atropelasse. Pobre menina, desenvolveu uma vontade enorme de ser milagreira e promover a multiplicação dos bichos de manga só para ver o menino se entupir de bigatos.
Desde quando Tirso é nome para moleque? Isso é nome para velho com pigarro enroscado na garganta, que vivia cuspindo na calçada por onde ela passava todas as manhãs para ir ao trabalho, num tempo em que criança trabalhava desde criança, lá naquela casa que era vizinha do avô do Tirso que, só de pirraça também se chamava Tirso. Achava o velho feio,  desengonçado e “zoiudo”; o neto se parecida muito com ele.
Lembrou-se da casa que limpava, vendo as cenas do moleque Tirso sobre o pé de manga. Tinha que preparar a prova. Se vingaria com questões que ela sabia -  o Tirsinho, filho e bisneto do Tirso, não acertaria nenhuma. Tirsinho  era o próprio meteoro que esmagava os colegas da sala onde ela lecionava, fazendo-a, vez ou outra, sentir vontade de limpar chão da casa dos outros  a ter que entrar naquela sala e encontrar-se com o filho do Tirso. Os olhos esbugalhados do Tirsinho, misturando-se à sua cor laranja ferrugem,  a remeteu a uma  vaquinha  que a menina  fez utilizando-se de uma manga podre que estava no chão da casa que trabalhava. Ela fez um buraco para a boca,  pôs olhos de feijão, perninhas de palitos de dente e deu àquela vaca o nome de  Tirso e a deixou lá para o tempo consumi-la.
Já era hora de ela ir aprender com os alunos. Tirsinho  levantou-se  e entregou uma sacola de mangas à professora que a acolheu com carinho, pois cheirava a infância. Emocionada, adiou aquela prova vingativa.  Feliz,  ela as repartiu com os alunos. Quem mais se deliciava, sujando-se todo,  era o Tirsinho. Daquela cena, concluíra que o cãozinho chupando manga não é tão feio quanto o pai dele.
 Tirsinho foi educado, recolheu todas as cascas que os colegas jogaram e limpou  o chão. Mas uma manga ele guardou para acertar em alguém. Mirou e, com força, jogou num colega que, rápido, abaixou-se. A manga, como aquela  “zoiuda”,  foi rasgando o espaço, acertando, feito um meteoro, a boca da professora, quebrando-lhe os dentes da frente.

 Os alunos miudinhos correram mais de metro, fazendo o zoiudo rir da cena.  Banguela, ela concluiu que não se deve substituir uma prova vingativa por uma sacola  cheia de frutos de vingança da qual ela era parte integrante, e as figuras dos Tirsos enraizaram-se ainda mais no seu sentimento e na sua memória.