terça-feira, 16 de dezembro de 2014

TENHO MEDO


TENHO MEDO  - RITA  LAVOYER
 

 Tenho medo, meu amor,

Que nos falte a vida

E que a falta venha separar

Duas almas tão queridas. 


Tenho medo, meu amor,

De não ter, juntas,  minha  boca e a tua.

E da coragem que insiste

Querer levar-me  do teu céu à lua.

 
Tenho medo, meu amor,

Da presença desta ausência que insiste

Em rondar o teu semblante.

Tenho medo, meu amor! Tenho medo!

Que não me queiras amanhã por tua amante.
 

Tenho medo, meu amor,

De não passar contigo uma noite que nos caiba,

Desvendar os mistérios da madrugada

No orvalho do nosso calafrio.

E no cio que alimenta nossas almas desgarradas

agarrar-nos à estação  do nosso estio.
 
 Tenho medo, meu amor,

De ficar contido o teu sexo

Sem em mim desfrutar  a tua práxis,

Deixando-me um futuro estase.

 
Tenho medo, meu amor,

De não dançar  contigo uma música inteira.

Que não seja de verdade, posto que

Na orquestra, eu bailarina, tua brincadeira.

 
Tenho medo, meu amor,

Do por que do azul do céu.

Se de dia é claro, escurece a noite,

Olhar do lado e descobrir: foste.


Tenho medo,  meu amor,

De não assistir do tempo a metamorfose.

Vivamos no agora a nossa essência

Para partirmos juntos na nossa overdose. 
 
Rita de Cássia Zuim Lavoyer

QUANDO EU SENTIR

Rita Lavoyer
Quando eu sentir
Quando eu sentir que quero pecar,
Permita-me que eu peque.
Quando eu sentir que preciso adormecer,
Permita-me que eu adormeça.
Quando eu pressentir que  preciso sonhar,
Permita-me que eu sonhe.
Quando eu precisar entrar em delírio,
Permita-me que eu delire.
Quando eu  precisar acelerar o esquecimento.
Permita-me que eu esqueça.
Quando eu  quiser apagar o que restou na minha memória,
Permita-me que eu apague.
Quando eu estiver vazia,
Completamente cheia de nada,
Absolutamente nada.
Permita-se adentrar-me
E plantar-se em espaço vago.
Em mim adormeça, sonhe, delire
E conserve o que puder recordar de mim.
Quando sair, saia,
Levando-me toda  consigo,
Para recordar-se
Para onde pode retornar
Quando eu sentir que quero pecar.
Rita Lavoyer
 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sou a noite, pessoa!


SOU A NOITE,PESSOA!

 

RITA LAVOYER

 
Sou a tua noite, vem que eu te embalo.

Traze no teu ser o cansaço

 E em mim podes colocá-lo.

Dá a esta noite o prazer

De ser do teu céu o paço.

 
Com os teus pés fora da rota,

Pisa-me a imensa raiz

Cálida. Denota teus passos e bota

Semblante em minha cariz.

  

Depois que fizeres de mim concretude

Avantaja-te com qualquer libação.

Toca-me o ventre com instrumento sagrado

E tira do som o teu vinho e o teu pão.

 

A canção dos alimentos que queres

Encontrarás bem dentro de mim.

Sou dos arvoredos sementes,

Uivando vontades crescentes,

Confinadas em meu camarim.

 

Autorizado estás

 Para das flores tirares fragrância.

Para tal precisam do orvalho

Que brota da tua inocência.

À vaga dá luz com teu lume

E faça o dia de mim descendência.

 

Terminado o teu sono, e tua alma

Novamente encontrar-se contigo,

Descansados estarão os teus passos

Por teres me dado sentido.

 
Por ti exerci tal função

Fui noite porque assim me quiseste.

Adentro da visão caminhaste

Fazendo-me dos teus sonhos vedete. 
 
do livro Partida,2012.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

ELE FOI FEITO PRA ELA


 

Ele foi feito pra ela

Durante muito tempo ela o desejou com muita força. Ele era tudo o que ela queria em uma época. Ele estava encostado quando ela o viu, valorizando-o. Tirou-o do “armário”.  Seu corpo começou a querê-lo também.  Ela o cobiçava, ela o comia com os olhos sentindo cada toque dele em sua pele. O seu desejo tornou-se  obsessão. Criou coragem, foi atrás. Ela o tocou  e conversou com ele em segredo. A partir daquele dia tornou-se  o seu confidente.

- Nossa, que absurdo isso!  - ela pensava.

Ele era um pouco maior que ela, tamanho ideal, ideal para que o seu corpo se encaixasse nele.  Perdia o sono imaginando-se com ele, deitando-se com ele, acordando com ele, saindo, passeando com ele, mas ainda não  tinham  se experimentado.

Desejava aparecer com ele em público para que  deixasse de ser um segredo, um desejo apenas. Ela o queria elogiado, porque o  que sentia por ele era imenso. Com ele, estaria linda, extremamente bela. Sentia desde o primeiro momento que ele foi feito pra ela.  Tinha certeza de que não havia mais nenhuma mulher para ele, ainda que outras o experimentassem, ele era dela.  Ela era a única! Convencera-se disso imaginando-o quando os seus traçados foram esquematizados.  Não querendo ser poética, mas apelando: suas  histórias estavam alinhavadas desde quando a linha conheceu a agulha – ela escreveu.

Foi quando entendeu o que significava amor platônico, mas o queria apolíneo. Já não aguentava mais e começou a entender que ele também a desejava, pois trazia a imagem dele impregnada em seus pensamentos. Desejaram-se. Ela foi atrás dele novamente. Ele ainda estava no “armário”, começou  a desconfiar afinal, era belo demais para estar largado.

Não dava mais, ela o abraçou.  Seus braços o trouxeram para  perto do seu peito. O lugar era apenas para os dois.  Havia espelho, despiu-se enquanto ele a aguardava. Ela o trouxe novamente para perto dela. O arrepio revelou-a desesperada por tê-lo. Ela o queria ali, naquele momento, diante do espelho ela se viu inteirinha dentro dele. Deliciou-se  com aquela imagem que tanto cobiçou. Ela  estava, extremamente,  uma mulher linda.  Sentiu toda aquela  perfeição acariciando-lhe a pele. Delirou! Era tudo o que ela queria há tempos de desejos escondidos.  Ajustaram-se perfeitos e ela não queria  parar de experimentá-lo. Tudo nele era gostoso. Ela tinha certeza de que ele era dela. Tinha certeza: era dela! Os seus  joelhos...

Tudo tem um tempo, ali também não podiam se demorar. Ela colocou  a sua roupa, o seu corpo estava suado, dificultando o ajuste. Já estava com vontade de despir-se e tê-lo novamente.  

Saíram, ele nos braços dela. A alegria estampada no seu rosto revelava-a a todos que a viam – “estou feliz!”

Disse bem alto, para que todos não apenas a olhassem, mas também a ouvissem:

 Ele é meu!

 Ele já estava reservado. – ouviu, naquele momento, de uma pessoa qualquer.

 Não! Ele é meu, foi feito pra mim! – disse alterada.

  Senhora, perdoe-me, mas quando o tirou do armário,  já que não quis experimentá-lo na ocasião,  nós o desamarrotamos e o  colocamos na vitrine. Essa senhora passou e o viu,  gostou e o reservou.  Agora ela voltou para pegá-lo.  – foi o que outra vendedora lhe disse enquanto os seus olhos  de mocinha corriam a silhueta desengonçada daquela outra interessada.

  Vou levá-lo para minha neta. – ouviu de uma boca feia.

Esperou-a, talvez desistiria da compra, deixando-o para ela.  Viu os seus sonhos saírem embrulhados para presente. Seus olhos  seguiram  aquela avó pela calçada, enquanto a vendedora tentava lhe mostrar algo desinteressante.

Quando deu por si que aquele  embrulho fugiria dos seus olhos, correu e alcançou  aquela avó.

Na calçada uma velha agonizava, enquanto  uma moça desaparecia na multidão carregando seus desejos nas mãos.

 O meu vestido é lindo, deixa a vista  meus joelhos  -  sorri uma linda mulher  diante do espelho.

Autoria – Rita de Cássia Zuim Lavoyer

 

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Esse político não me representa

Esse tipo de pessoa é o próprio estupro.
Perdoe-me, mas ao deputado não cabe o título de FDP, em respeito às putas que são limpas e dignificam o seu ofício - de quem,
esse senhor, não alcança beijar-lhes os pés.
Se o deputado pretende criticar o governo, apontando-nos as falhas e apresentando alternativas coerentes que os faça com instruções, para que tenham créditos os seus argumentos.
Ninguém defende uma Nação violando direitos humanos.
 Esse político não me representa.
 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Leão e o$ Rato$

Jornal Folha da Região, 08/12/20145

           


Na República do Ratil, Ratinhos babavam com a pescaria dos Ratões -   conhecedores  do ofício -  pois cresceram assistindo às ratanças dos pais e avós, os “Joões-Ratões”, que tinham i$cas mais gorda$, por isso pescavam Peixões e reinavam absolutos, enquanto Ratinhos jogavam a rede e...nada

Marquetaram. Lançaram Pti$co$ e com eles apeteceram os olhos dos peixinhos cansados de serem fritos. Avistando aquela jogada brilhante, intuíram que se pulassem nas redes alternativas  sairiam do fundo do nada em que se encontravam.   Logo os Ratões deram um jeito de tornar ilegal a rede, sob suspeita de puxarem gato.

            E foi e deu! A pescaria foi farta e os Ratinhos subiram a rampa
 da Queijolândia. Aos peixinhos coube-lhes ralar o queijo para abastecer
 as pi$$arias.   
  
    O Rato eleito - que se autodenominou Rei- deu para cada súdito  carta alcunhada “Rarta branca”, para  com ela agirem como bem entendessem, desde que alguém  não soubesse de nada.   Súditos, “sem querer querendo”, descobriram os buracos do queijo. Afoitos, consumiram as “Rartas” todinhas.  Pediam outras e o Rei lavava-lhes  as mãos, digo: as patinhas.

             Ratos também pensam: contrataram  um Leão, pela ferocidade,  para guarda do Rei e do cofre, cuja chave ficava junto com a caneta do líder do Ratil. O Rei precaveu-se e colocou à frente dele a Cobra Abafadora dos buracos.

         Nos dias de festas, o Rei-Rato reunia os Súditos, Joõezeiros e Buraqueiros  para degustarem pescados na ‘Mantega’,  afinal eles também são de redes e das redes. Nessas ocasiões  o Leão percebia que sua majestade trazia um rabo a mais entre as pernas. Num final de festa, o Leão avisou o Rei sobre que o via.  

            Eu não sei de nada e você não viu nada – repreendeu-lhe o Rei.

        Todos dos buraco$ souberam que o Leão de$cobrira. Foi Federal! Pensaram em trocá-lo por um Bode que “expia$$e” pior. Por e$tratégia, o Leão continuou na guarda real, afinal em terra de rei quem tem dois olhos é vesgo e vira fera, podendo matar.

            Numa reunião acalorada,  Rei-Rato agasalhava a Cobra em sua roupagem. Não aguentando se esconder,  fadigada, emergiu a cabeça para tomar-lhe a caneta e dar- lhe o bote. O Leão, num rompante, rasgou a roupa do Rei-Rato, arranhou-lhe um dedinho, mas o salvou antes que a rastejante o consumisse.

Rapinas da realeza  remessaram a rede sobre a fera. A Cobra recuou, rumou ao seu reduto. Nenhum Ramphasto* reapareceu para romper a rede que reteve o Leão.                    

A Cobra regozijou na sujeira dos buracos,  mas cuspiu todos os rabos  dos frequentadores por trazerem nós que não desatavam; enquanto isso, ratinhos inofensivos de laboratório reivindicavam nas ruas do Ratil, fazendo-se cobaias. Para evitar separatismo, a Abafadora distribuiu  “Rartas” de todas as cores e, por sua agressividade, o Leão pagou o pato.   

No “Dia da Graça Forte”, Peixinhos que se asfixiavam por justiça foram incitados. Diante deles o Leão, sem reação, virou réu.  O cardume, enrubescido,  ralhava:

- Viva o Rei! Enjaule o Leão! Lavem as mãos,  o Leão  será condenado! Ratearemos sua roupa e rifaremos sua juba. Sigam-nos, ceguem-no! No seu rabinho amarraremos o astro brilhante e  sonoro, para  lembrar-se, quando se mover,  de que,   publicamente, Rato não tem rabo, e que lealdade não tem o mesmo valor  que o pe$o  de  grupo unido que rala e nada!

 Por essa destreza todos  receberam  uma pi$$a de bilhões, que já pagaram e não comeram, mas babam esperando a próxima.

*Ramphasto: tucano


Rita de Cássia Zuim  Lavoyer