quinta-feira, 25 de agosto de 2016

CARINHO É POESIA


A ANTAGONISTA DO SUJEITO INDETERMINADO - 2º LUGAR CONCURSO NACIONAL DE CONTOS/2016.

A ANTAGONISTA DO SUJEITO INDETERMINADO
 Rita de Cássia Zuim Lavoyer
2º classificado no
 Concurso Nacional e Contos Cidade de Araçatuba
Edição 2016



            A ANTAGONISTA DO SUJEITO INDETERMINADO

            Debaixo da camada grossa de maquiagem -  que  formava uma máscara perfeita, moldando-lhe o rosto  – ela acumulava  o cansaço  de um tempo modorrento, derramado sobre seus ombros de mulher  indecisa,  que hesitava sempre em ser o que era, ou permanecer onde estava.  Os lábios  dela, quando precisava, apresentavam um sorriso lânguido, como se os músculos da sua face pálida, há muito, esquecera-se  como funcionar para expressar, a quem quisesse ver, o que significava um sorriso .   Não lembrava-se de como  reclamar das coisas. Depois que o único filho, Frederico Alcântara de Albuquerque Júnior, saiu de casa para explorar o mundo – o que o possibilitou conhecer sua esposa, com a qual formou família,  a convivência com o marido  passou da passividade a uma inerte oxidação dos  atos e fatos do que fazia, ou deixava de fazer, por razões  que ela própria não achava explicações.
            Dispensou a funcionária quando se deu conta de que uma coisa era certa: jamais alguém lavaria as roupas íntimas do seu esposo.  Pespegou-se à esta  função como quem  se sustenta no sigilo de suas mais entranháveis confissões. Da família sumarenta de outrora, do leite da canjica diária  que o filho  Júnior   insistia em pedir para  derramar no chão e ela, reclamando, corria para limpar,  restou-lhe o silêncio no grupo familiar que abriram no WhatsApp para se comunicarem. Não se adaptou à tecnologia e nem se esforçou para melhorar sua performance virtual. Era muita evolução para sua memória enraizada na infância de pés no chão e do medo excessivo que trazia de aranhas.  Decidiu não voltar mais ao grupo familiar  por não conseguir nenhuma resposta às perguntas que postava – também nunca teve certeza de que as postara corretamente e se chegavam aos destinatários: o esposo Frederico, o filho Júnior, o neto Nicolau Antônio e a nora, cujo nome a fascinara desde o primeiro momento em que ouvira: Sophie Emmanuelle.
             Achava luxuoso  um nome próprio trazer o ‘ph’ em sua grafia, ainda mais tendo o  segundo nome acrescido de dois “m” e dois ‘l’. Essa ostentação não era para qualquer sogra exibir. Sempre que achava uma brecha, enchia a boca para pronunciar o nome da nora, soletrando-o em seguida  para que entendessem como  escrevê-lo.
            O esposo, Frederico Alcântara de Albuquerque, cujo nome não perdia a oportunidade de pronunciar por inteiro, explicando em seguida as origens de sua família - hábito que acabou tornando-o inconveniente nas rodas de amigos que frequentava - chegava do trabalho e encontrava a casa moldada aos padrões de harmonia preestabelecidos pelo casal desde quando adquiriram o imóvel financiado, há muito quitado, logo que o proprietário dele ascendeu profissionalmente no ramo da contabilidade.
            Com sua garrafa de vinho e uma barra de queijo comprado no mercado, que ele insistia chamar de empório, Frederico Alcântara de Albuquerque chegava, após o expediente do seu escritório, estufado de suas realizações e ia direto para a cozinha alimentar o seu descanso de um dia exaustivamente matemático, de contratos  assinados e balanços vitoriosos.   
            – Pegaram o saca-rolha daqui? Tiraram e esqueceram-se de colocá-lo  no lugar!? Há décadas mexem nas coisas e não tomam o cuidado de organizá-las!! Será que nunca vão aprender sobre a funcionalidade de uma casa?
            Ela levantou-se de onde estava, abriu a gaveta e entregou-lhe o saca-rolha.  A Frederico, o vinho com queijo parecia-lhe saboroso, mas não o suficiente para matar a fome que sentia em compendiar a faina daquele dia de cálculos exauridos por suas cógnitas mãos multiplicadoras de operações numéricas. Frederico Alcântara de Albuquerque de nada se esquecera – concluíra - sua organização o trazia vitorioso e realizado em sua profissão.
            – Não botaram a mesa ainda? Que fizeram de janta?
            Ela  trouxe  à  mesa uma travessa quadrada, de porcelana branca, ornamentada com variedades de folhas verdes, legumes  coloridos cortados, cada qual, respeitando a forma que constitui seu corpo. Os ovos cozidos fatiados em forma de gomos, os  morangos divididos ao meio e a manga, em fatias triangulares, equilibravam a pluridimensionalidade  de calorias que aquele Frederico precisava respeitar em sua dieta. A lista desse cardápio fora decidida para aquele dia; as demais estavam pregadas na porta da geladeira, como o Frederico deliberara.
            – Não cozinharam muito bem os ovos. Não vou comê-los. Detesto ovos moles. Essa cor amarelada me enoja.
            – Marquei consulta para amanhã. Procurei meus documentos, senti falta da minha identidade. Outro dia me pedira para tirar cópias e juntar a um processo do qual não me lembro bem, lembra-se?
            – Pedi que alguém do escritório providenciasse isso! Sabia que me esqueceria. Deixe de ignorância! Não precisa de identidade para sair de casa, nem para se consultar.  Na sua habilitação constam os números dos seus documentos, é só apresentá-la, caso alguém necessite reconhecê-la, junto com a carteira do plano de saúde.  
            – Quero a minha identidade de volta – ela respondeu. Mas o silêncio dominou o ambiente e ela não ouviu mais nenhuma menção sobre o seu documento.  
            O anoitecer aproximava-se da escuridão do silêncio dela. Recostou-se no sofá procurando nele um analgésico que lhe tirasse a dor que ela não sabia identificar. Descalçava-se, gostava de sentir o frio do chão sob seus pés, isso a retornava à sua infância.   Dali,  observava os quatro perigosos degraus da escada da antessala que confluía para a sala de estar onde, diariamente,  descansava suas forças. Tão fiel ao seu canto e ao seu sofá, nunca entendera a funcionalidade daquela arquitetura em que o sujeito que adentra o “hall”- como se referia Frederico Alcântara de Albuquerque- tem que descer para alcançar o altar.  Ela tinha um “que” com aquela escada que a hipnotizava, arrastando-a para várias limpezas profundas dos ângulos que cada lateral dos degraus possuía. Levantou-se do sofá e, com um pano enrolado no seu dedo indicador, de joelhos, esfregava aqueles minúsculos espaços angulares, querendo arrancar a última poeira que, por ventura, atraísse  uma aranha que pudesse, ali, tecer a sua teia e se reproduzir.
             Sempre teve medo de aranhas. Pesquisou a respeito dessa espécie e, mesmo a menorzinha, aprendeu, possui  um forte  veneno. Mas na sua visão, a mais perigosa é a Viúva-Negra, portadora de características que, comprovadamente, estão presentes na sua gênese. Mesmo se treinada, não haveria de ser menos perigosa.   Encarnou que uma dessa poderia possuí-la.  
            – Não trocaram o sabonete? Tiraram o tapete do banheiro e não colocaram de volta?  Tomaram banho e não viram isso? Será que nunca vão aprender as ordens das coisas?  Há décadas mostram as mesmas inaptidões ao aprendizado...
            Ao toque de alerta, ela  levantou-se  dos degraus e, correndo, providenciou o tapete. Bateu três vezes, até que a porta do banheiro se abriu.
            – Você acabou de jantar, não supus que fosse tomar banho agora. Ouvi o telefone tocar enquanto estava na sala, quem era?
            – O Frederico Júnior. Disse-me que está tudo bem.  Farão nova mudança, vou transferir-lhe  alguns proventos. Estão aproveitando as atmosferas de outros mundos. Sabe como aproveitar a sorte que tem esse meu filho.
            – Por que se mudam tanto? Não se identificam com os lugares que escolhem para morar?  E o Nicolau Antônio, pobre criança, que formação terá nesse entra e sai em mundos diferentes? Àquela esposa não basta ter nome bonito, um marido que a sustente, quer  também desbravar o mundo à custa do sogro?
            – E alguém tem alguma coisa a ver com isso? Sophie Emmanuelle é o padrão de mulher estabelecido para deixar qualquer homem de joelhos.  Não somente por sua beleza, mas seu comportamento  exemplar de esposa e mãe deixa qualquer espécie indefinida morta de inveja.  O Júnior  sabe o que faz e sei que está fazendo corretamente.  Torço para que o casal continue assim.
            Ela sujeitava-se às ações estabelecidas por aquele Frederico, até que uma necessidade a fez, pela primeira vez,  desejar um consumo nada comum para alguém do seu tipo. Sem receber sua identidade, decidira não ir àquela consulta marcada. Foi às compras. Entrou em lugares que, pela falta de necessidade, não imaginara visitar. O exótico dos objetos a atraiu, deixando-a deveras excitada.  Um palpitar acelerado no peito colocou-a num estado periclitante de ser.   Fascinada pelo que sentia em suas mãos, fora incitada a imaginá-los em ação. Não titubeou. Extrapolou nas compras com  o cartão de crédito de  valor limitado por aquele contador. Comprou mais do que podia adquirir sem achar motivos  para responder às questões que lhe remeteriam a respeito dessas compras.
            Escondeu o que adquirira e jogou-se no sofá numa hora perniciosa em que tudo que a decorava naquela sala de estar não carecia mais da sua vivência. Um nó na garganta aumentou a dor que ela não sabia decifrar e nem o sofá poderia mais amenizar. Fitou os degraus da escada.   Pensava fortemente na aranha. Um frio incontrolável descia-lhe a espinha ao imaginar que essa espécie  pudesse lhe subir a perna, alcançar o seu pescoço e entrar em seu ouvido, seduzindo-a e matando em seguida a sua razão.
            Assim, aquela que era medo apresentou-se estável e o comportamento passivo da vítima contribuía para que a Viúva-Negra exercesse a função para a qual nascera. Subia pelo seu braço forte cujos músculos se desenvolveram digladiando o vazio que a ternura  há muito lhe deixou.  Naquele fim de tarde a infração da vítima cooperava para que se tornasse duplamente criminosa.
            – Verifiquei o extrato do cartão de crédito, hoje, como sempre faço, vi um excesso de gastos que nunca aconteceu antes na conta de Frederico Alcântara de Albuquerque!!!  Decidiram gastar o que não temos numa oficina, marcenaria, armazém de ferramentas? O que será que pretendem com picareta, machado, martelo e outros instrumentos de assassinar madeiras? Será que decidiram arrumar o que fazer?
             Sem o vinho e o queijo de costume, já no final daquela tarde -  quase mais do que perniciosa -, aquele esposo chegou depositando seu determinado cansaço nos ouvidos dela. Aos berros dele, silenciara-se ali  um delito sem precedente que, no fundo, há muito ela desejava. Incapaz de se mover, buscou no desconforto as forças para alçar-se do sofá cujo analgésico não lhe curava mais. Aprumou-se inexpressiva e amou, naquele instante, a dor que a mergulhara naquela pachorra,  sôfrega por consumir sua inapta existência.
            No dia seguinte queria sentir algo e, insensível, entrevistou diversas pretendentes que lhe servissem de funcionárias. Contratou a que mais se enquadrou  à geometria daquela construção. As roupas íntimas do Frederico ela não lavaria mais.
            As contratadas, todas, contrariavam, de alguma forma, o jeito de ser e de estar do Frederico dentro da casa, desproporcionando-o nos seus ângulos; mas não foi por isso que permaneciam somente dois, ou três dias no trabalho: era algo pior. Ela   desistiu de ser a patroa de tão curto tempo. O mal estava por ser executado.
            Silenciosa, limpou a grossa camada de maquiagem que aplicou quando levantou-se  de manhã, pegou as ferramentas que comprou com o cartão de crédito e, armada,  extravasando todas as forças e medos acumulados durante anos, como delinquente,  expulsava todo o seu tempo naquele momento sem lei para o qual não haveria juiz a determinar uma pena a seu crime.  Atacou violentamente os quatro degraus daquele “hall” que confluía para a sala de estar, destruindo seus ângulos sem funcionalidade, danificando o  assoalho de madeira.
            Profissionais  no assunto foram contratados para terminar o serviço e nivelar o piso dos dois ambientes.  Não havia mais o objeto para a sua fixação. O sofá alimentava-se daquela dor e todas as decorações da sala que a compunham ganharam forças e vozes. Tentou achar os quatro degraus, desviou o olhar para manter-se serena e carregar  o dia até o cair da tarde em que o Frederico Alcântara de Albuquerque  apresentava-se nada estranho com o seu vinho e seu queijo antes de saborear sua salada de verduras, frutas e legumes cortados respeitando as formas de suas naturezas.
         De repente, o colorido da salada a sobressaltou. Aquela cor arroxeada da beterraba cozida remeteu-a à Sophie Emmanuelle. Não era uma cor de se comer com a língua entre os dentes. Era uma cor viva e nojenta. As rodelas brancas e  suculentas do palmito lembravam as pernas roliças da nora,  que deviam clarear a escuridão dos mundos em que se aventurava. O amarelado das gemas mal cozidas  remeteu-a aos homens daquela família que ela  evitava chocar em qualquer circunstância.
          Com suavidade, ela voltou ao grupo familiar do WhatsApp e escreveu ali sua insatisfação em lavar as cuecas sempre borradas de amarelo daquele Frederico Alcântara de Albuquerque, razão de as funcionárias que contratou não permanecerem no serviço por mais de dois ou três dias.
         Alertou aquela família  sobre o veneno da Viúva-Negra, que não hesita em ser o que é, nem de permanecer onde precisa para determinar sua espécie. Pediu para usarem melhor as mãos e  o porquê do seu medo por aranhas.               E terminou a mensagem assinando o recado com o seu nome:  o que traz no seu registro de nascimento. Ninguém lhe respondeu nada a respeito.  
            Senta-se no sofá e, há dias, consome-se na dúvida de que sua mensagem fora ou não enviada e lida pelos seus destinatários. Aquela incerteza a estava envenenando.  Não teve coragem de verificar e desprezou seu celular num canto qualquer para descarregar sua bateria e nunca mais ouvi-lo tocar.  Não pronunciou uma palavra  a respeito e a toxina do silêncio  que  desenvolvia para si mesma vibrava seu corpo, dominando sua razão.
            A cada final de tarde, quando o Frederico Alcântara de Albuquerque chega com o seu vinho e seu queijo comprado no mercado que ele insiste em chamar de empório,  a Viúva-Negra se esconde dentro do sofá antes de ouvir:  o que fizeram de janta hoje? Colocaram o saca-rolha no lugar? Secaram o chão do banheiro?
            Noutra noite, jantaram os dois. O tempo estava quente e pegajoso tanto quanto o vinho e o queijo que ela experimentou. Não havia palmito na salada. As ferramentas que comprou -  por descuido, esqueceu-as na despensa- , caíram e um dos cabos bateu  num vidro de palmito, quebrando-o. Por essa razão decidiu não servir palmito aquela noite, embora estivesse com muita vontade naquele momento.
       Frederico Alcântara de Albuquerque  foi para o quarto reclamando a falta do palmito na salada. Depois, quando aquele marido foi se deitar, apagaram-se as luzes. Ela podia sentir o cheiro do palmito escorrendo-lhe à boca. Um ser incomum e brutal  não hesitou em sair   do sofá.   Logo em seguida, a Viúva-Negra passeava, decidida,  pela sala de estar deliciando-se dos ângulos daquela arquitetura.
            Com uma doce maldade estampada nos lábios, ela  seguiu para a despensa. Não teve dúvida em escolher o que saiu carregando e, descalça, deliciando-se com as mãos o formato daquilo que pegara,   continuo os passos rumo ao quarto do casal onde não titubearia fazer-se determinada na ação que se propôs executar.      

                            Autoria- Rita Lavoyer

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