Uma
leitora com ganas de ser narradora onisciente
Por Rita Lavoyer
Ao
adentrarmos as labaredas das relações interpessoais com as quais cada
personagem da obra Os Filhos de Moisés está envolvido,
incendeiam-nos as táticas e os recursos verbais – esquematicamente
pensados para cada peça que constitui essa Fortaleza – persuadindo-nos a
desconstruirmos convicções, que há muito nos impingiram,
questionando: – Existe o pecado? O bem que vence o mal de fato é
bom? Qual o limite de uma reputação para que a traição, assim denominada,
receba tal alcunha? Há ficção que se sustente distante das cinzas da
realidade? Em se havendo uma obra literária, ao protagonista
compete-lhe o título de herói com final feliz?
Além da percepção que podemos obter
sobre as Sesmarias – terras cedidas aos agricultores na época do
império –, o romance traz a rasgo, como verdade inconsútil,
uma história dentro da qual Moisés, órfão de pai ainda jovem, travou
batalha com o padrasto Bento e os três filhos que ele trouxera do primeiro
casamento, sendo um deles, Casimiro, seu antagonista, futuro esposo de
Sinhaninha.
Mas
batalha maior, Moisés – cujas reações e atitudes frente aos universos interior
e exterior, que servem de centro unificador da narrativa –, travaria com as
circunstâncias que abateram seu coração. Os temores e os obstáculos que o
envolveram acentuavam-me as expectativas de que ele se daria bem em algum
investimento. Tornei-me faminta por mais saber...
Desconstruindo
paradigmas de moça recatada e boazinha, Anne Louise (Sinhaninha), a
poetisa, não se furtando da oportunidade de vingar-se do esposo Casimiro e do
sogro Bento, o fez com maestria, no momento oportuno. Antes, gerara um filho de
Moisés, engolindo as consequências desse romance secreto, permitiu-se um futuro
promissor, agarrando-se à oportunidade que a vida lhe veio a proporcionar
após enviuvar-se. Novamente grávida de Moisés desposou o tio
materno dele, o generoso Arão. Este, ciente da situação angustiosa
de Sinhaninha, dispôs-se a registrar os filhos dela como seus, fazendo-os
seus herdeiros, portadores de seu nome.
Moisés
amargou o não ouvir seus únicos filhos homens - que seriam
continuadores de seu nome familiar - chamá-lo “pai”, enquanto suas muitas
filhas, havidas com Benedita, sua esposa e irmã adotiva de Anne Louise,
corriam para os seus braços de homem rústico, de coração aniquilado pelas
desventuras que a autora de Os Filhos de Moisés soube tão bem
construir.
Enquanto
leitora, desejei-me, em alguns momentos, narradora onisciente
para, a cada suspense que me acometia, controlar as artérias dos
acontecimentos, cujo fluxo narrativo fora influenciada, envolvida, tendo
os sentimentos devorados. Permitindo-me destinatária deste romance,
arremessei-me para o tempo e o espaço, personagens
importantes daquele império colonial que o compõe, achando ali
fragmentos de muitos fatos que permeiam nosso presente e abrem caminhos para
novas histórias.
Assim,
assisti o destino, bastante cruel, de outros personagens que usufruíram seus
infortúnios advindos dos maus sentimentos deles, em detrimento da
justiça, uma vez que, para eles, a justiça tardava e, quando não,
surpreendentemente, chegava a cavalo, ora meio de ataque, ora instrumento de
combates e defesas.
À
criadora, na sua função de exercer a arte, exaltando-a no gênero e estilo que
lhe competem, cabem-lhe os méritos desta premiação promovida
pela Secretaria de Cultura de Araçatuba, através do edital de “Concurso de
apoio a projetos de fomento à publicação de livros inéditos no município de
Araçatuba”.
Vocês,
leitores, estarão marcados, de alguma forma, quando abrirem Os Filhos de
Moisés, não querendo mais fechá-lo até que cheguem à Fortaleza, entendendo
os desfechos dos questionamentos, conservando na memória as imagens dos objetos
que se nos apresentam literariamente, sem intenções, mas que nos farão
gerar outros objetos culturais, posicionando-nos assim diante de um processo
fertilizador, tirando-nos da posição de simples leitores para a de autônomos
cocriadores: contribuição de alto grau que a boa arte nos
proporciona.
Um romance moderno, histórico, social,
psicológico e regionalista, com narrativa esteticamente bem
elaborada para nos seduzir a todos enquanto entretenimento e
aprendizagem.
Permitam-se também, destinatários
desta produção, depois adentrem A Rua da Liberdade, 44, desta mesma autora, para continuarem ligados à boa literatura produzida em
Araçatuba, por Maria Luzia Villela.
Rita de Cássia Zuim Lavoyer