CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.

2012 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - 13ª classifica no TOP 35 na 4ª semana de abril de microconto Escambau.

2017 - Classificada no 7º Concurso de microconto de humor de Piracicaba.


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

FÁBULAS DE LAVOYER




O PÉ E O SAPATO




O Pé já tinha passado por maus pedaços na vida. Foi perseguido, torturado. Os maus estiveram ao seu encalço sem dó nem piedade. Enquanto Pé, fez-se mão, corpo e cabeça por longo tempo.
_ Para aonde pretende ir, Pé, assim tão descalço? – Perguntou-lhe o Sapato envernizado.
_ Vou a procura da minha conduta – respondeu-lhe o Pé.
_ Mas você acredita que alguém consegue encontrar conduta por aí? Acha mesmo que ela está à disposição de todos?
_ Acho que ela existe, não sei como ela é. Pretendo encontrar a minha – respondeu o Pé

_ Para que deseja outra conduta. Pensa que ainda não a tem?
_ Se a tenho, não a sinto em mim, não deve ser de muito valor. Talvez ninguém a perceba. Preciso de uma que me pese e me dê significado, para que eu pense nela constantemente. Isso deve ser conduta. Por isso quero encontrar a fonte onde ela deve jorrar abundante. - Assim se explicou o Pé para o Sapato.


_Mas, Pé, você sempre andou desse jeito, descalço, desprotegido?
_ Já me senti desprotegido. Algumas coisas do solo ainda me atingem, apesar de a minha sola já estar bem grossa.
_ E os seus calos são resultados dessa sua caminhada a procura da conduta?
_ Pode ser. Mas caminho descalço mesmo porque não tive a sorte de um sapato.
_ Pé, você já ouviu falar em meia?
_ Já ouvi, sim! Ainda não tive a oportunidade de ter uma.
_ Eu posso ajudá-lo a conseguir uma. – O Sapato continuou perguntando: _ Você me conhece?
_ Acho que é um Sapato, ou não?!
_ Isso mesmo, Pé! Eu preciso chegar num lugar bem alto. Posso contratá-lo para levar-me até lá. É só me calçar e chegaremos juntos. Com sorte, poderá encontrar, quem sabe, a conduta que tanto procura.



O Pé, desconfiado, perguntou:
_ Como quer que eu o calce?
_ Enfie-se em mim- respondeu o sapato.
_ Mas você não vê que o meu tamanho é bem maior do que o seu? Além do mais eu sou um Pé velho, você é um Sapato novinho, poderei estragá-lo.
_ Estragar-me não. Poderá alargar-me. O que é bem diferente.

Como nunca antes tinha recusado um desafio, o Pé tentou se enfiar no Sapato. Impossível manter-se dentro dele, mesmo assim caminhou boa jornada encolhendo os dedos e mancando. Meio caminho já tinha sido percorrido quando o Pé, sangrando, chiou:
_ Não quero mais carregá-lo dessa forma, ‘seo’ Sapato. Saia de mim!


Assim o Pé agiu, pinchando longe o Sapato já empoeirado.
Parado no mesmo lugar, o Sapato sabia que não chegaria a lugar algum sem a ajuda daquele Pé. Não querendo aposentar as chuteiras, ponderou. Bateu a poeira, deu-se uma lustrada e, como estava distante do Pé, gritou:

_ Pé, venha me buscar! Encontrei uma outra forma de você me levar ao meu destino!

Com muita dor, o Pé caminhou ao encontro do Sapato.

_ Pé, coloque-me em seu peito, assim você poderá me carregar. Conheço esse tipo de dor que você está sentindo. Logo, logo ela passará e irá esquecê-la.

A proposta foi aceita pelo Pé. Quando ele se erguia para dar um passo, derrubava o Sapato.


_ Pé, desequilibrado desse jeito não me levará a lugar algum, e nós dois nos perderemos no caminho – retrucou nervoso o Sapato.
_ Mas o senhor, Sapato, é pesado demais para eu carregá-lo sozinho.
_ Pé, você tem que aprende a olhar ao seu redor. Ver o seu próximo, enxergando nele o seu complemento. Sozinho, Pé, você não adquirirá o equilíbrio necessário.
_ Quem é o meu próximo, senhor? Tão bom assim que me possa completar?
_ Pé, deixe de ser cego, olhe o seu mais próximo! Quem é ele senão o seu parceiro, o outro pé. São dois, não percebeu ainda?
_ Hum... Se é só um sapato, o que pretende com o outro pé?
_ É simples, coloque-me sobre o seu peito, e sobre o peito do outro pé colocará a meia que eu lhe darei.
_ E por que eu fico com o peso, e ele com paina?
_ Pé, para chegar onde se pretende, precisa deixar de ser ignorante. Conhece o ditado “ O que uma mão faz a outra não precisa ver”? Muito simples, meu caro


Avançaram bem pouco com aquele desequilíbrio total. O Sapato, muito mais pesado do que a meia, não permitia aos pés andarem sem derrubá-lo. Pés e Sapato começaram a se estranhar na metade do caminho.


_ Pé, colocarei dentro da meia uns contrapesos para compensar os lados. Assim, a cada passo que você der, chegando o mais perto possível do meu destino, complementarei no que faltar, o que acha?
_ Posso tentar, senhor Sapato. Darei o melhor de mim para que chegue aonde almeja. Cuidarei de fechar os olhos do outro pé, tomando a rédea da situação.


A cada queda que o Sapato levava, contrapesos eram depositados na meia, e o equilíbrio se anunciava.


_ O que está achando de me carregar, Pé?
_ Ótimo, senhor. Comprometo-me a levá-lo aonde desejar.


Caminharam muito e a meia já estava abarrotada de tanto ser o ponto de equilíbrio daquela empreitada.


_ Senhor Sapato, será necessária outra meia. Esta primeira que o senhor me deu já está muito cheia, poderá romper-se a qualquer momento, o que me deixaria bastante triste, uma vez que ela já tem significado para mim. Se isso acontecer, perderei o equilíbrio e o senhor cairá. Acho que eu o estou conduzindo bem, estamos ganhando terreno, e pretendo levá-lo para ganhar outros. Aconselho-o a providenciar outra meia caso ainda queira que eu o leve ao seu destino.


_ Eu sabia que isso aconteceria. Portanto, já mandei providenciar outro pé-de-meia para você. O que acha, Pé?
_ Excelente, senhor! Todavia, cumpre-me lembrá-lo de que o seu verniz acabou, está opaco.


_ Toda via, meu caro Pé, tem seus altos e baixos, e com a nova meia que ganhará me lustrará sempre, até que eu reflita o meu brilho por onde passarmos. Não é mesmo, Pé?


_ Sim, senhor Sapato!
-Isso! Mas enquanto o outro pé da meia não se enche, esta que já está cheia ficará amarrada a mim, como escudo para me proteger, caso eu venha a cair.


_ Senhor, será muita carga sobre o meu peito. O outro pé poderá carregar a meia cheia, senhor!


_ Não! O outro pé está sem visão. Eu não lhe pedi para fazer o que fez. O ditado dizia “ O que a mão vê...”, não o pé. A carga dele será menor, ela irá aumentando à medida da nossa caminhada, para ele não sentir de uma só vez o peso que carrega. Enquanto ele não vê, você deverá carregá-lo, também, como fardo.


_ Sim, senhor Sapato! As coisas do solo já não me atingem mais.


_ Experiência conquistada, meu caro Pé! Quem é forte de verdade e importante neste trajeto é você, Pé. Você tem significado porque vale muito para mim, meu grande amigo Pé. Quando chegarmos aonde eu quero, eu devolverei todas as meias à você. E depois, se quiser, você as calçará. Poderá procurar o que pretendia mais confortavelmente, o que acha, meu fiel amigo Pé?
_ O que é que eu procurava mesmo, Excelentíssimo Sapato?

Autoria- Rita Lavoyer - Membro da Cia dos Blogueiros















9 comentários:

Anônimo disse...

oi Rita, que txto bem feito, detalhista, mostrando enfim que somos nada sem os pés, eles calejados ou não, sem meias ou sem sapatos, nos leva aonde se deseja. parabéns, pra variar, está ótimo.
marianice

jhamiltonbrito.blogspot.com disse...

Meu Deus, que pezinho pé de chinelo, deu o maior suadouro no tadinho do sapato.
Vc foi " expulsa" do Conselho qui nem qui eu?

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Intrigante e muito original esta sua fábula, Rita. Fiquei cá com meus botões a matutar sobre as muitas entrelinhas deste texto... Um beijo e parabéns pela ótima lavra.

Jorge Sader Filho disse...

Aí etá, Rita!
Para um dos pés, um sapato. É preciso entender as diversidades.
E você colocou na reta, com muita propriedade, o real escondido de muitos.
Abraço grande,
Jorge

Célia disse...

Como li as entrelinhas! As subliminares! Fantasticamente encabulante! Valores éticos todos mexidos! Parabéns, Rita pelos ensinamentos via fábula!
Abraço, Célia.

lino disse...

Uma bonita fábula!
(aquela imagem é autêntica, do nosso primeiro-ministro a ouvir alguém em Luanda, mas a frase é irónica: o "santo" e a "santa" que refiro são o presidente angolano e a sua milionária filha).
Abraço

Anônimo disse...

Oi Rita. Muito bom! Ai meu pé...
Bijos
Léo

Anônimo disse...

Boa, Rita. Muito boa a sua fábula. Do mais, não podemos pensar em fábula sem pensarmos o homem em seu aspecto geral, não é mesmo? Muito bem claro a corrupção do homem, o"Pé" perdendo o seu valor, substituindo-o pelo vil metal, muito bem metaforizado como 'contrapeso' e cegando a sua consciência- representada pelo outro pe sem visão.
É um texto que tem muito a ser discutido. Parabéns e providencie uma regularização aqui para que eu não precise comentar novamente como anônimo.

César Rodrigues

Cacá - José Cláudio disse...

Moral da história: o mundo é dos espertos. Muito boa, Rita. Grande abraço. paz e bem.