CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2015 - Recebeu voto de aplausos pela Câmara Municipal de Araçatuba;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba;

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras;

2012 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - 13ª classificada no TOP 35, na 4ª semana de abril de microconto Escambau;

2017 - Classificada no 7º Concurso de microconto de humor de Piracicaba.

2017 - 24ª classificada no TOP 35, na 2ª semana de outubro de microconto Escambau;

2017 - 15ª classificada no TOP 35, na 3ª semana de outubro de microconto Escambau;

2017 - 1ª classificada no concurso de Poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2017 - 11ª classificada no TOP 35, na 4ª semana de outubro de microconto Escambau;

sábado, 16 de março de 2013

DESVENDANDO MISTÉRIOS


DESVENDANDO MISTÉRIOS

Gema era uma criança diferente. Sua cútis apresentava uma cor que açulava o olhar    da multidão, inibindo o apetite de algumas pessoas. Gema, todavia, honrava o nome que trazia: Gema!

Não podiam tocá-la que Gema soltava os seus ‘ais’. Eram “ais” daqui, eram “ais” dali.  Os gemidos da Gema foram tomando grandes proporções. Já moça, não havia compatrícios que desconhecessem os “ais” da Gema.

A mocidade dela começou a cercar-se de incômodos. Intocável Gema!

Como uma nuvem fenomenal, a história da Gema pairou   sobre as cidades do entorno de onde Gema morava, derramando sobre elas a substância lipídica daquela atmosfera contida.

“Não me rele, não me toque! O meu nome é Gema!”

“Gema, Gema, Gema... Ai!...”

Virou motivo de piadas a ziguizira da Gema.

O assunto caiu nos ouvidos de uma criatura incontida, moradora de um desses lugares,  desabrochando-lhe a clarividência. Não tardou em jogar as suas bugigangas em uma mala e rumar para  a cidade que acolhia Gema.

A poeira seca da estrada arranhava-lhe os dentes da boca sem saliva nenhuma daquela espécie de gênero indefinido, que descera, toda  desengonçada, do pau de arara apinhado de gente misturada às galinhas e seus pintinhos. Parecia um plasma  germinativo se  arrastando  com a mala nas costas. Aquela morbidez disforme preenchia totalmente a malha da camiseta  verde desbotada, colorida por  um degradê de suores ressecados, que confundia-se com a calça safári tomada por bolsos.  Aquela coisa esbranquiçada, sem forma e nem aparência, desabotoou o seu cansaço diante do primeiro ser que ela avistou.

_ Conhece uma moça com o nome de Gema, que mora nesta cidade?

_ Oh, moça! Quem não conhece a Gema? Só faz gemer, a pobre. Até bendizência já andam fazendo pra coitada poder melhorar! Mas não há dedos em rosários que convençam o Senhor para acalentar o sofrimento do povo daqui da cidade, entende? Digo do povo, porque desde que Gema se pôs a gemer, até descontrato de núpcias entrou no rolo. Se Gema gemer depois do horário das galinhas irem pro poleiro, vixi! Aí mesmo que ninguém procria na cidade. Filho gerado em noite que Gema gemeu pode nascer sem as coisas... Se a senhora me permite confiança... Hum... hum... Perdoe-me, senhora, vou guardá-lo!

A cara  amarrada da visitante calou imediatamente o exibicionismo do  homem, o maior informante que aquela cidade  já registrou em todos os seus anais.  

_ Vou encaminhá-la até a casa dela, mas o que a senhorita  pretende com aquela gemedora? Antes, pretende tomar um copo d’água?

Sem conseguir respostas para as suas perguntas, o intrometido a cicerone seguiu na carreira da moça que o ia deixando para trás, sem mesmo saber o rumo do destino. Ele a  levou   bem na porta da casa da Gema, onde a padecente,  há muito, se confinara. O informante  não arredou  o pé do lugar, querendo logo se assuntar sobre a estada daquela visitante  naquela cidade pacata no interior do fim do mundo.

A porta da casa lhe foi aberta. Uma mulher cumprimentou a moça que ninguém ainda sabia, conhecida ou não daquela família. O cheiro que saiu pela abertura da porta era fétido e desequilibrante.  As duas  adentraram o local, mas ao  homem não foi dada a mesma sorte para acalentar a gula da sua curiosidade.

Passado algum tempo, podia-se ouvir nas alturas os “ais” da Gema. A cidade toda se fechou em orações naquele momento, como nos demais momentos outrora gemidos nos tímpanos do povo.

A porta da casa se abriu  e a visita e a  visitada, que não a Gema, puderam  ver o homem espremendo os ouvidos para tentar ouvir, através da parede, o que se passava lá dentro.

_ O senhor pode me informar onde arrumo um lugar  para passar alguns dias?

_ Claro! Na minha casa tem um quarto que... se eu ajeitar um pouquinho ficará ótimo para a moça se hospedar.   Não querendo ser deselegante, a moça vem de onde mesmo?

_ Isso aí, fica à vista de todos? Tem necessidade de mostrar que tem isso? 

_ Vou guardá-lo, madame!

Sem conseguir, novamente,  resposta, seguiram calados até chegarem à casa.

_ Moça, pode se achegar que a casa é humilde, mas é limpinha! Esse é o quarto que, não demora muito, boto nos trinquis para a moça ficar no conforto. Sem querer me intrometer, qual é o nome da moça?

_ Chama esse chiqueiro de casa? Onde se toma banho por aqui?

_ A moça pode entrar na porta à esquerda que  é um banheiro. A porta não tem trinco porque eu moro sozinho mesmo, né?! Mas pode tomar o seu banho, fazer as outras coisas sossegada, que aqui o que não falta é respeito.

_  Hum...Vai me cobrar quanto para eu  enfeitar esta pocilga?

_ A moça pode ficar à vontade, dê o que a moça achar justo.

Ela enfiou a mão num dos bolsos da calça e  entregou-lhe  um maço de dinheiro que, impressionado, pegou-lhe  a mala  e a colocou no quarto dele, querendo, aflito,  numa só palmada, juntar as penas que intuíam vazar daquele cômodo para o outro.

_ Acho melhor a moça ficar com esse quarto aqui, que já está arrumadinho. Eu arrumo aquele outro pra mim e já vou providenciar uma fechadura arretada para a porta do banheiro, assim a moça pode fazer as suas necessidades e tomar o seu banho em paz e com segurança.

_ Por que quer me mostrar que tem isso?  Tem o hábito de ficar com isso a mostra?

_ Não, moça! É que ele é meu, gosto dele!  É por isso!

_ É! Está bem acabadinho! Isso ainda pia?

Desconcertado, o hospedeiro resolveu ciscar-se daquele terreno,  deixando  a moça encaixando-se no conforto que a ele convinha lhe proporcionar.

Não demorou muito e a  casa já estava hospedaria, com a feição do dono que, dado a vidente, esparramou para todos os cantos da cidade que ele hospedava uma pesquisadora que viera especialmente para estudar os “ais” da Gema.  

Curiosos se apeavam em frente àquele futuro comércio que eram aos montes. Não demorou, na varanda já havia mesas e cadeiras. Um freezer ficou lotado  com garrafas de bebidas e de hospedaria a casa acabou, também, virando um boteco onde  os curiosos se reuniam para tentar  desvendar os mistérios daquela visitante. Até apostas eram feitas naquela varanda. Quando ouviam os “ais” da Gema, apostavam que a moça não pernoitaria ali. Se não ouvissem os “ais”  da Gema, silenciando a cidade, apostavam que a moça  retornaria antes do jantar.

Retornando sem avisar, ela o pegou remexendo sua mala, que esquecera aberta quando, pela última vez, saiu num surto só!

_ Tire o seu focinho de gambá das minhas coisas! Saia deste quarto, seu enxerido! Vá procurar alguém da sua espécie para se intrometer com ele antes que eu lhe arranque as glândulas fétidas que traz neste seu corpo verticalmente comprometido! Já estou enjoada  de me hospedar neste seu comércio infame! Fica sempre com isso à vista?

_ Se isso não a agrada, posso escondê-lo. A moça fique à vontade para permanecer nesta casa o quanto quiser. Se não tiver mais o dinheiro para pagar, nem faço conta. Basta que a moça me dê a honra de continuar a pernoitar aqui, pois olhe, me faz companhia.  Vivia mesmo muito só! A  moça me agrada por demais!

_ Ah, cala a sua boca! Aliás, qual é o seu nome mesmo, heim!?

_ Se a moça pretende jantar, posso lhe arrumar uns bons petiscos antes que lhe ponha a mesa.

_ Vá! Sirva-me o que tem aí,  que hoje  o meu trabalho foi duro! Estou morta de fome!

Metido a cozinheiro, ele se desfez de um dos seus especiais e o serviu  a passarinho com folhas verdes. A mesa parecia mesmo uma mesa de boteco de fim de mundo resolvido na varanda de uma pocilga.

Ansioso para não perder aquela hóspede inventada às carreiras,  bateu ovos e preparou omelete que serviria com moelas ensopadas. A garrafa de cerveja, trincando de gelo, a esperava para refrescar a garganta seca daquele inferno de fim de mundo e da moça também.

_ O que é isso, seu infeliz? Ah, isso, de novo diante dos meus olhos?

_ Ah, sim! Já o escondi. Isso? Preparei com todo o carinho, especialmente para a senhorita. O frango é fresquinho, tempero que atrai a minha freguesia e a faz lamber os  beiços e pedir mais. Isso é omelete à moda da casa, batido com fígado  picadinho e cheiro verde. Não pus queijo ralado,  moças finas costumam apresentar alergia a  isso, mas se preferir posso bater outros ao modo da moça, o que acha?

Devoradora  de Hitchcock, a aprendiz de xeretice ultrapassava a bizarrice do próprio, abominando qualquer alimento vindo dos galináceos, principalmente o produto final da fêmea.

Numa volúpia desencarnada, ela enfiou as mãos por debaixo da mesa, virando-a de pernas para o ar, fazendo voar os pedaços do frango matado especialmente para ela. A omelete, ela a esmagou entre os dedos. Com as bochechas sangrando por dentro, a sua temperatura derreteu o gelo que branqueava o casco da  cerveja, que ela tomou na garrafa  mesmo.

Diante da cena, vendo-se vencido, o hospedeiro  tratou logo de esconder o seu bibelô no devido lugar, protegendo-o; igualmente ao objeto que conseguiu surrupiar da mala da moça.

_ O que fez a moça se desentender assim com a refeição? Se a fome bater no estômago ainda, posso preparar uma canja que esquente o seu sutil paladar.

Somente a cadeira onde aquela nervosa se sentava permaneceu no lugar. Nas janelas não havia mais espaços que encaixassem  cabeças dos frequentadores daquele boteco.

_ Saiam do poleiro, seus piolhos de toupeira!  Estão pensando que vão assistir de graça ao espetáculo que travarei com este porco metido a cozinheiro de fim de mundo? Sumam da minha frente, seus fuinhas desenturmados,  antes que eu pegue as minhas coisas e suma deste antro de gambás.

Tudo, menos isso, era o que aqueles espectadores desejavam para a cidade. Voltaram cada um para as suas posições e continuaram a cuidar dos seus copos e das suas porções. A moça gelava o seu colágeno com abruptos goles que sugava na boca da garrafa.

De repente, já adentrados noite afora, os “ais” começavam a ser ouvidos, acumulando em um canto só da varanda os que rogavam consumir informações sobre aquela que ali aparecera tão sem mais nem menos. Ela saiu em disparada quase que voando para a casa da Gema, mas ele saiu na frente, desembestado, catando cavaco, e a moça atrás, alçando em seus calcanhares.

O que ele pretendia tentando chegar primeiro para alcançar o próximo “ai” da Gema, não se sabe, porque a moça desengonçada plasmou sobre ele, derrubando-o na poeira seca dentro da qual rolaram. Ele ficou ali, gemendo “ais”, enquanto ela, escondendo um instrumento,  aos tropeços, atingiu a casa da Gema.

A população toda correu para o mesmo destino. Encontraram-no caído,  gemendo “ais”!

_ Garnisé Galo, cadê o seu bibelô, homem?

_ Aquela dona fugiu com ele, Garnisé?

_ Oh! Nossa! E agora, o que será de você, Garnisé? Que crueldade!

_ É, nós desconfiávamos que você não deveria tê-la deixado  ciscar no seu terreiro. Sabíamos que coisa boa não poderia vir  daquilo. Agora, olhe só para você! Coitado do Garnisé, perdeu o que ele tinha de melhor.

_ Chore não, Garnisé!

A plateia queria, mais e mais, fitar Garnisé e com tantos “Oh!”,  “Oh!” não  se ouvia mais os “ais” com timbre feminino.

Correram, levando nos braços o exemplo de um suplício. Garnisé perdera o seu porte. Acharam a porta da casa da Gema arrombada. Pela primeira vez, em anos, a população conseguiu adentrar aquele ambiente escuro, quente e fétido de onde ecoavam os gemidos que atordoavam a cidade.  E os “Oh!”, “Oh!”  repentinos e repetidos, repercutiam dando novo selo a Zoovolândia.

Era o momento de Gema aquecer o seu frio. Viram-na coberta. Conseguiram, a tempo, assistir a uma fusão. As duas coisas tornaram-se, pois,  uma só célula. Aquela visão era clara.  Não resistindo à repulsa, chocados, os olhares fritaram aquela composição, que  trazia, destoando da realidade,  um pinto vivo, que ofegava,  no meio da fecundação.

Garnisé Galo, quietinho no meio do povo, registrava tudo na microcâmera que pegara da mala. Hoje, de posse dos seus materiais, Garnisé Galo, apostando caro,  desafia quem lhe dê a resposta exata sobre aquela pergunta do ovo e da galinha.

Diante da certeza  de alguns ele mostra um material. Na dúvida, mostra o outro. Não perdendo, com isso, nenhuma aposta.                   

Rita Lavoyer – Membro da Cia dos Blogueiros e UBE.                                                         

5 comentários:

Jorge Sader Filho disse...

Rita, de onde você tirou tanta invenção?
Gema, Garnisé Galo, o ovo e a galinha... Eita criatividade! Adoro seus textos, eles nos levam a lugares e mares 'nunca dantes navegados'.

Abraço,
Jorge

Célia Rangel disse...

Depois de tantos gemidos... pintos... garnisé... galo e gema... farei um bom omelete com 'ovos fresquinhos'... uma vez que não quero viajar na maionese da Rita... Hoje, não! Haja 'crista'...
Bj. Célia.

Helcio Almeida disse...

Sutil, sugestivo e intrigante. Gema, gemidos, senhoritas misteriosas e violentas, hospedeiro curioso e ganacioso. Você reuniu um elenco muito interessante. Fiquei curioso no fim mas aí é que está a graça. Parabens!

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Que final incrível, Rita. Tá desvendado o penoso mistério. Por aqui, só posso gemer meus parabéns!