CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.

2012 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - 13ª classifica no TOP 35 na 4ª semana de abril de microconto Escambau.

2017 - Classificada no 7º Concurso de microconto de humor de Piracicaba.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

SOBRE A TERRA SECA DOS MEUS OLHOS - 1º colocado no 26º Concurso de Contos Paulo Leminski,2015


SOBRE A TERRA SECA DOS MEUS OLHOS  –  
autoria   Rita de Cássia Zuim Lavoyer - 
1º colocado no 26º  Concurso de Contros Paulo Leminski,
Toledo- Paraná - 2015.

SOBRE A TERRA SECA DOS MEUS OLHOS - 


A CORRIDA: O tempo é irmão do vento e querem, a todo custo, nos levar empossados nos seus embornais. Quando a gente põe as pernas do pensamento pra seguir com eles, aí viramos escravos de vez das delícias das alturas, lá, pra onde a gente foge quando se põe a imaginar que um dia ainda há de existir lugar bom pra se viver. Não este, onde boa  referência pouco se encontra quando a gente se põe a procurá-la. 
     Punha-me a correr feito o vento, competindo com ele,  pra obrigá-lo a refrescar-me o corpo daquele quentor que subia da queimação da terra seca. Falava-se “quentor”, assim fazia entender que o quentor dali era o mais quente do mundo.  De cima, de um céu avermelhado,  nos castigavam os raios do sol que ardiam sem fim, pra pirraçar a secura da nossa sede de vingança daquele lugar em que nos jogaram, só pra nos punir, quando nos açoitaram com um parto mal feito, sem morte. Sim, agarrar-se àquele tipo de vida é algo digno de punição, morrer é lucro! Pra angústia da parteira, o choro infeliz ecoa sempre dentro do sangue que vem atrás da produção de tristeza de futuro, excitando ainda mais a proliferação de quem vai sonhar que um dia viverá, como se tivesse nascido, com direitos, quando se atravessou  entre as pernas de uma mulher qualquer que não conseguiu se precipitar do ataque de um predador.
      Muitas mães iam embora antes de ouvirem o segundo choro do filho. Eram  alegrias que iam, deixando – as suas crianças-,  pra correrem sozinhas nas ruas, um vale de lágrimas. Dos que corriam estávamos Manelão e eu a zombetear a molecada. Vencíamos o vento e não havia moleque que nos alcançasse no tempo das nossas voações sem asas. Correr deixava em nossas espinhas uma sensação analgésica, diminuindo as dores das nossas prisões sem grades, sem causas e sem julgamentos a que fomos condenados: nascer!  De certo modo, corríamos pra fugir de alguma coisa que cravaram em nós. Era algo que nos pregava a uma cruz que não carregávamos por acaso, mas por necessidade de carregá-la pra provar a ninguém - porque ninguém se interessava -  o que significava conseguir. Conseguir viver!
  Num pulo, estávamos nós dois no cume  do morro que, não sei qual a razão, chamavam-no “Morro dos Mortos”,  de onde eu avistava, lá embaixo,  o vale com o seu  filete d’água em cujo fundo meus olhos mergulhavam e minhas mãos almejavam alcançar.  Engatávamos marchas e velocidávamos  ainda mais nossas carreiras sem limites, onde o fim jamais existiria quando nos déssemos a atingi-lo. Retornávamos à casa quando nos chegava um vazio de estômago carecendo substância, aquela que nunca era o bastante pra saciar nossa fome. O automático da vivência não nos permitia saber do que tínhamos fome. Mas era uma fome... Fome de mais!

 O COICE- Sobreviver... Se vive de que jeito nesse mundo sem fim, de um fim que não se sabe ao menos onde que começou... Uma carência de gente que havia  dentro de nós que nos fazia quase nada, até o pau, tacado pelas mãos da vida, doer no nosso lombo pra renascer um “eu” dentro da gente e logo em seguida termos que matá-lo se ele se apresentasse com identidade forte, capaz de fazer besteira por causa daquele nada se ele insistisse em achar alguma coisa dentro. Procurar coisas dentro do nada é coisa de doido, e ter que viver doido, melhor não viver.  Mas era uma confusão de dentro pra fora e de fora pra dentro de nós, ah, isso era e muita.  Nada de nada! Era o lombo mesmo que sentia o peso  por não aprendermos como se fazia o certo, já que errado era o fato de termos nascido pecado. E não havia como fugir das lambadas, do que já estava registrado: moleque que não apanhava  de manhã, certamente no correr do dia se cumpriria o mandado.
 Minha mãe me excomungou todos os dias pelo fato de nela eu ter aumentado o bucho, o que confesso: nem sei se foi bom ou pior do que aqui fora, nesse mundo desgraçado em que ela quis me pôr sem ter me dado o direito a outra metade. Uai, e não são dois que fazem um?  Acordava todos os dias doído pela dor do amanhecer sem saber se seria pior ou mais doloroso abrir os olhos e não enxergar nada de vida lá fora, ou não ter que abri-los para nunca mais encarar o nada daquela oferenda e ter de viver o dia  que exigia ser consumido.  
A terra rachada daquele lugar seco era tapete pros rasgões calcificados dos nossos calcanhares, e andávamos na sofreguidão pros calangos bico-doce não se achegarem abotoando seus beijos perigosos  nessas partes dolorosas dos nossos pés. Éramos alimentos dos bichos e do grupo de moleques escapava o mais rápido que apanhasse um lenho, fazendo estribilhar  sua casca seca nas moléculas do pó deixado ali quando jogaram a sujeira da invenção do mundo, fazendo se esconderem os bichos famintos de nós. Por isso era sempre bom andarmos em grupo; já que não éramos nada, um pouquinho de cada um formava alguma coisa, um cisco, ainda que fosse pra espantar calango.  
 Nas securas do chão íamos, Manelão e eu, descarregar  a ânsia dos nossos desejos nos bichos que  chegassem à altura do nosso umbigo. Depois de abatida a presa, a levávamos para remediar a nossa inanição. Manelão era rapaz de corpo feito, de pele da cor de barro úmido, daquele que brilha  pela falta de um sopro que o seque,  corajoso de pai e de mãe. Seu sorriso malicioso ardia na claridão do dia. Nunca usávamos camisa, ele  me ensinou que era melhor de peito aberto pro vento prazerar o tempo. Ensinou-me o jeito do engate, o desatinado, mas não valia um só pedaço daquele corpo que o cão modelou pra adorno dos olhos da gente. E os meus olhos queimavam naquela claridade ardente e empoeirada enquanto era de dia.
 Numa dessas, no meio da moita, ajeitou o bicho e o segurava enquanto eu fazia o serviço, mas o largou quando viu que os meus olhos tomaram mais brilho que os dele. O bicho se revoltou contra mim. Fiquei ali gemendo a minha angústia, enquanto a refeição sumia na poeira do picadão. Manelão rolava seu corpo na areia caçoando a minha desavença com o bicho que eu, sozinho, não dei conta de gozar. Fiquei ali na moita gemendo a minha dor.  Saiu desatrelado, feito doido, gritando dentro do pó vermelho a minha frouxura. Ergui o meu calção sem querer ver o inchaço deixado pelo coice do bicho na minha virilha. Já quase escurecia quando consegui chegar, arrastando-me, naquele lugar de idas e vindas sem vontades. Meti-me no barraco por uma invenção mal feita de entrada e num passo já estava na outra porta. Gastando o suor que não me restava mais no corpo, estiquei uma esteira no chão daquela tapera e ali mesmo me joguei pra esquecer a maldita dor que se intrometia em mim, exatamente naquele lugar de desejos  em que eu necessitava esquecer.

 O DELÍRIO  - Era gente demais, e o vozerio  consumia as minhas ideias. Estavam próximos aos meus os olhos da minha mãe.  Pareciam outros olhos o daquela peçonha. Olhos que eu nunca tinha visto porque nunca se deixaram ver na frente do meu olhar. Corri com os meus embaçados ao redor e pude ver Manelão com menos brilho na pele do que no seu normal. A minha boca estava mais seca do que o chão em que se pisava de costume. Um frio arrepiava o meu corpo. Fui agarrando o meu juízo pra colocá-lo de volta na cabeça e percebi que estava pelado naquele chão de terra, sendo observado pelos olhos de um monte de  gente da peste.
 Dona Terebentina, a macumbeira, tentando me amumiar com folhas de bananeira. Escutei dela a tal da “febre”. Ela amarrava os quase mortos ao rabo do sofrimento com as suas garrafadas. Feiticeira desaforada!  Ao invés de bendizer a morte, tentava amaldiçoar a vida curando os seus doentes. O seu único filho, Juvêncio, já era moço, mas era aleijado o infeliz. Não arrastava as pernas e os braços não esticavam, por isso nunca deu um soco em alguém quando quis ou precisou. Curava os filhos dos outros, mas o próprio não soube acertar na fazeção. Pariu aquilo, que além de mal feito, fedia. Nunca que de abrir a boca e contar suas amarguras sofridas pelos malfeitos  da molecada, que sempre jurava estava brincando com o desafortunado. Pobre Juvêncio. Só sabia receber dó e zoeira do povo.
 – O moleque está com febre, Rosita! Tem um osso quebrado bem na altura do saco. Vou preparar uma garrafada pra não infeccionar a fratura e amassar umas ervas pra entorpecer a dor do infeliz. Parece que foi coice de bicho brabo.
 – Sabe de nada não, Manelão? – Era a voz da minha mãe querendo tirar notícias daquele maldito que me enfiou nesta enrascada.  
–  Zé Jão foi à caça ontem, dona Rosita. Adentramos o picadão, havia uns bodes soltos por lá, mas não tinham o nome do dono. Manelão ainda mentiu:   –  Eu não quis pegar nenhum, então vim embora, Zé Jão ficou por lá. Não vi mais nada! 
– Aí, seu desgraçado! Algum bicho traz o nome do dono pendurado no pescoço? Você  traz o nome daqueles diabos que te pariram pendurado nos cornos, traste?
Minha mãe não gostava do Manelão nem de ver.  Eu sabia que depois que o povaréu saísse das suas observações sobre mim, minha mãe iria tomar satisfações sobre essa minha  desavença ocorrida com o meu tempo.   Ela pôs fogueira nos calcanhares dos curiosos que saíam bendizendo o enfermo e amaldiçoando o bicho que me pregara aquele coice no osso.
– Vai ficar aleijado, Zé Jão! Que foi que fez? Estava se metendo com bicho de novo, criatura do cão? Isso é castigo, moleque que já nasceu desgraçado! Além de ter você como filho, agora aleijado? Quando conseguir se levantar do chão, aproveita a tua outra perna, infeliz, e arraste a tua vida por esse mundo, se ele ainda  te quiser.
Sei não como ficaram as coisas. Tudo escureceu e eu via e ouvia estranhezas que não eram do meu  lugar, mas de outro.  Quando dei por mim de novo, já estava a casa cheia da mesma gentarada fazendo aquela excomungação de reza que salva alma que já está caminhando pro inferno. Alma!? Vê lá se existe isso! Sei só que existe coisa pior do que desgraceira, e viver é bem maior na equivalência. Aquela ladainha aumentava o meu ódio por ver aquele povo pedindo minha vida, se como alguém que rezasse ali soubesse o que é isso.

O AVÔ  - Se existia coisa pior do que pior  era aquilo que chamavam de Armino Taipóidi . Bicho ruim que só de rosnar já fazia defunto suplicar o óbito, preferindo  morrer duas vezes a ter que enfrentá-lo. Se não desse ordem nada acontecia por onde os pés dele amaldiçoavam em pisar. De mulher não tinha uma só, entre elas, minha mãe, que ele dominava, chicote em mãos, igual aos bichos que pegávamos pra encher pança. Trazia sua faca - o instrumento da sua vida -  no aconchego da bainha abotoada em sua cinta de couro suada e surrada pelo suor daquele amontoado de estranheza que formava seu corpo, que só de nos olhar, arrepiava o pó dos ossos. Se cão existe, existe: Armino Taipóidi! Era a imperfeição desse mundo imperfeito que um dia inventaram com cara redonda e pele branca avermelhada pelo sol. O ruim não se acaba, fica a fedentina dele pra sempre por onde passou. Armino Taipóidi era resumo de carniça. Da mulher que pariu minha mãe, ouvi dizer que a matou e a outros que se aventuraram com ela na mesma cama em que jaziam seus amanheceres. Ele era o acúmulo de ódio, mas mais de ódio foi tomado quem o livrou desse mundo, rasgando-o vivo e o deixando pendurado na árvore das frutas com o sangue escorrendo-lhe pela boca e uma foice encravada em sua bunda. Ninguém chorou aquele acontecido. Soube do ocorrido e senti algo diferente que nunca havia me acometido antes. O que seria?

MUDAMOSAdentramos, minha mãe e eu,  a morada do falecido Taipóidi, onde eu nunca  tinha entrado. Demos com muitas cabaças penduradas nas paredes.
–  Zé Jão, quebra essas cabaças que tem peso chacoalhando aí dentro.
Saí e rachei as cabaças na parede de tijolo, atrás da casa, abrindo cada uma delas. Dentro havia dinheiro que eu nunca tinha sentido em minhas mãos. Uma necessidade correu-me no desejo e tratei logo de esconder alguns daqueles valores. Mágico parecia que o lazarento não era, como enfiou aquilo dentro das cabaças foi pra mim um mistério. Numa pilha de tijolos,   atrás da casa, amoitei quase todo o dinheiro. Um dia ia me servir.  No que o ia cobrindo, uma cobra apontou-me. Num susto saltei bem longe com coragem de pegar galho pra erguê-la e jogá-la dentro de um quarto, pela janela que Rosita tinha aberto. Pra não haver desconfiança, dei umas notas à mulher quando entrei na casa, e cuidei de fechar a porta do quarto, garantindo a estada da cobra ali, que também me serviria.
– Quanto tinha nessas cabaças, seu moleque ladrão!?
– Tá tudo ai, não mexi em nada, mãe!
– Se aquele velho se dava a guardar dinheiro em cabaça, deve ter mais por ai! Zé Jão, vê embaixo do colchão se acha mais alguma coisa. Era dado a amoitada. Fazia seus biscates. Mas não dava dinheiro a ninguém. Amontoava suas mulheres na surra quando elas não o queriam de forma alguma. Só Mariana, que precisava da troca de suor com aquilo por excesso de carência. Por fome, dava-se por comida. 
Sei do que a mulher falava, era também uma presa nas garras daquele seu pai. Do tempo em que a mãe me ganhou nunca mais parou de sangrar. Manelão um dia me falou que mulher sangra porque nasceu para isso. Mas Rosita tinha mais sangue do que as outras mulheres, por isso nenhum homem queria ter com ela. Assim ouvia Terebentina falar quando ia levar as garrafadas pra’quela mulher quando o sangue não parava de verter volumoso. Sei de Mariana, a rejeitada de olhos desesperançosos cujo único atributo era o decote, que ninguém queria pôr vista.
 – Ter esse filho, Rosita, foi uma desgraça na sua vida. Vai morrer sangrando. Como podia deixar aquele homem em cima de você, sentindo as dores da criança batendo pra sair? Pusesse  fora, como ele obrigava Mariana a fazer!
Enquanto eu ouvia, silenciava presença, evitando que  me vissem por perto.
– Hoje vamos dormir numa cama, Zé Jão! Aproveita o colchão que o maldito lhe proporciona e sinta menos dor no corpo por ter nascido filho de quem é. Sonhar é o que não se pode mais depois que se tem consumido da alma o corpo. Resta deitar e dormir.
Que é isso que ela falava alto? Falava de alma e de corpo, como se de alma entendesse alguma coisa, aliás, nunca souberam explicar por não saber existir ou não. Como atribuem ao corpo alimento pra vermes, deveriam atribuir à alma, por ignorá-la, sustento do vento.

NO TORPOR  -    Entendi as razões do ódio daquela mulher por mim e do meu ódio hereditário por Armino Taipóidi . Agarrei-me ao ódio de não poder mais correr uma liberdade escondida e fugir para sempre das vistas daquela pessoa. No que Manelão já assuntava na janela a incomodar minha atinação.
– Aí, Zé Jão! Fui hoje ter lá nos cumes, correndo feito vento, sem você. Se quiser ainda posso te ajudar como antes. Estenda a tua mão que eu te agarro. Volta, Zé Jão, o teu coração ainda bate, eu sinto. Abra teus olhos, amigo!  O vento no cume soa solitário, carece do teu passar por ele pra assobiar direito. Que tanta febre é essa que agarrou pro’cê? Acorda, meu amigo! Você vai andar sim! Corre por aí que Terebentina é feiticeira que não sabe de nada. E mesmo se você não andar te levarei nos meus ombros por onde eu precisar ou quiser ir. Mas quero ir na tua companhia...
– Faz o que aqui, malfeitor? Ele não corre mais com você. Não vê que está mais na morte que na vida?  Some, diabo! Deixa o moleque morrer que já se passou o tempo dele por aqui.
– Dona Rosita, deixa eu ficar com ele, falar  com ele, até saber que nunca esteve sozinho. A senhora não gosta de mim, mas eu vou ficar, porque tenho tempo! Zé Jão precisa saber que é amado, e eu amo demais esse meu amigo. Deixa eu ficar aqui chorando ele, sem entender por que um coice besta causou tanto estrago ao meu amigo. Acho que outras coisas ruins se avolumaram dentro dele, pondo-o neste estado de morto. Um coice de bicho não faria isso com ele, dona Rosita.

QUERECENÇA  
– Quem é você, peste, que vem com tanta luz  turvar-me a vista?
– Zé Jão, sou o enxerto no teu latifúndio! A afluência do teu incessante querer atrofiado pela monotonia do teu único sentir! O suspiro do teu corpo!
– Sabe lá o quê de querer e de sentir? Você lá sente e quer alguma coisa?
– Zé Jão, sou a tua querecença constante, o que te faz querer algo cada vez maior.  O complemento da tua parte. Não da outra de que tanto carece, que você bem sabe, mas não quer admitir: o teu pai. Sempre quis esta tua outra parte para se completar, já que com tua mãe não encontrava e nem conseguia nada.
_ Você é o inferno que me invadiu no momento da minha nasceção!?
– Nasceção, não, Zé Jão, porque você só nasceu uma vez, como você mesmo diz: pela metade,  e nasceção é ato de nascer quantas vezes se tem vontade de viver. A tua outra metade te domina e te arrasta, desencaixado,  para a morte, que sou eu. Quer morrer, morra! Mas mate também! Matando encontrará tua vida, aquela que você tanto suplicou, desde quando morreu no teu nascimento.  Escolha se quer viver ou morrer. Vivendo continuará morto. Morrendo, quem sabe, arrancará os teus pés encravados neste lugar que teus olhos fazem deserto - e que não te abastece mais. Desconfunda-se da tua sombra, Zé Jão, que é tempo. De uma forma, ou de outra, estarei sempre com você. Eu sou a morte, mas dependendo dos lados tenho significados diferentes. Ouça a voz do teu amigo que te chama.
– Zé Jão, dá tua mão pra mim, meu amigo! Tá gostando desta cama que teu avô Taipóide te mandou, né?  Pare de fingir delírio, moleque!  Teu tempo não consegue passar sem a companhia do vento, embora desencaixados, os dois não se separam.  Ficarei aqui, porque dona Rosita foi acudir Terebentina pelo passamento de Juvêncio. Foi picado, dentro do quarto, por uma cobra das brabas. Foi Armino Taipóidi  quem matou a venenosa com uma foice. Teu avô veio aqui ter com tua mãe. Deu dinheiro pras despesas dos remédios e despejou beijos nas tuas mãos várias vezes. Viram ele amargando tristeza debaixo da árvore das frutas com rosário nas mãos. Talvez estivesse rezando, pedindo tua cura. Para de delírio, Zé Jão, e acorda dessa febre por causa de um coice de bicho, sô! Deu de ser frouxo? Não sei ficar sem você! Vai querer brincar de vida e deixar a morte dar rasteira em nós? Só vou conseguir voar de novo se você for comigo.
– Decida-se se quer morrer e ir para a vida, ou permanecer nesta morte de vida que você tanto amaldiçoa,  porque no espaço em que se encontra o vento passa mais alto  e você não é dado a olhar para cima. Aceite, Zé Jão, este que te chama e que te quer, que também pode ser tua outra metade, e saia da secura onde teus pés choram em pisar. Com teu delírio viu o que aconteceu com Juvêncio e com Taipóidi. Você queria que fosse tua mãe a morrer picada pela cobra e que seu avô fosse morto da forma como  o viu sob a árvore das frutas. Viveu, no teu delírio, teu momento de vingança, Zé Jão: matou!  Conheceu a casa do homem que você odeia; viu, sem interpretar direito, o dinheiro que ele deu à tua mãe junto com o colchão sobre o qual você se  deita agora.   Decida-se se quer morrer e vir comigo, ou ficar com Manelão nesta terra que teus olhos tornam seca.
– Zé Jão, sou eu, meu irmão, Manelão! Volta pra darmos rasteira na morte! 
Esses foram os poucos dias dos quais eu consigo me lembrar da minha nasceção. Faz tempo que o vento passou veloz, assobiando nos meus ouvidos. Ah, o tempo e o vento,  esses  que querem, a todo custo, nos levar empossados nos seus embornais. Aprendi que há embornal feito exatamente pra cada um. Não podemos nos enfiar no que é costurado pros outros. Se não nos encaixarmos direito rasgamos a própria história e, viver de remendos é gostoso não. Aprendi que quando a gente põe o pensamento pra acompanhar  nossa história, aí a gente  foge com gosto, por experimento.  O vento de cada tempo é que dissolverá as moléculas da querecença que faz a gente gostar do que deve e esquecer do que não deve ser gostado. Como eu me lembro bem de quando estávamos, Manelão e eu,  com os pés lá no cume, afundando os nossos olhares no vale que adormecia incólume.
Fui,  e batizei o meu corpo no quentor que renascia de novo em mim. Voei, como um sopro, pras corridas sobre a terra, admirando o firmamento. Fui,  meu amigo Manelão, por ter ido aprendi que tinha corpo e tinha alma e que ela é o sustento do vento, contrariando Rosita em seus dizeres: “Sonhar é o que não se pode mais depois que se tem consumido da alma o corpo”.  Rosita, pobre mulher, cujo tudo lhe fora roubado, me ensinava que havia muito nada em tudo que existia. Eu era o nada absoluto dela. Resolvi dela o problema. Taipóidi,  pobre velho, o vejo sob aquela árvore - onde eu queria vê-lo morto -, com um rosário nas mãos. Eu o ouço rezando  pela mãe de Rosita – que ele matou por ela tê-lo traído a vida toda - e agradecendo-a  por ter parido Rosita, filha que ele jura, nas orações, não ser dele. Reza por Rosita e por Juvêncio. Vai entender os vivos? O pobre velho  é meu pai, mas não é meu avô?
 Voa, meu amigo Manelão, com estes teus pés ligeiros, sem camisa, de peito aberto, como me ensinou, pra que minha alma, em forma de vento, sinta o prazer de agasalhar-te o peito, no teu tempo: uma forma de eu dizer, meu amigo, que também te amo.  Vou viver ao teu lado, amigo meu, até que um dia seremos mais do que ventos, relembrando  os torpores dos tempos que vivemos enquanto estávamos juntos em corpos. E nos nossos tempos unidos seremos uma só molécula no embornal do mundo, aí este lugar bom de se viver será melhor ainda. De alguma forma me ouvirá, como já ouço tua saudade. Agora entendo a razão de este cume ter o nome que tem: “Morro dos Mortos”.
Tomara, que no tempo deles, o homem que reza com rosário nas mãos, debaixo da árvore das frutas, se confesse e que Rosita escute que sempre foi amada por ele: meu pai.   

Autora- Rita de Cássia Zuim Lavoyer – Araçatuba- SP

9 comentários:

Célia Rangel disse...

Ouviu ai, Rita?
Estou aplaudindo!
Merecidíssima premiação! Parabéns!
Abraço.

Cecilia Ferreira disse...

Que o quentor do meu aplauso lhe chegue bem. Digo quentor para que saiba que é o mais caloroso deles!
bjs da Cecilia, a Ferreira.

Rita Lavoyer disse...

Por e-mail, do grande amigo Hélcio Almeida:

"Rita,
Adorei o teu conto. Fui levado pela intensidade da tua narrativa a uma terra onde a vida não nasceu porque morreu antes. Senti no estilo uma deliciosa mistura de Guimarães Rosa (Grande Sertão) com Vargas Llosas (Guerra do Fim do Mundo). O premio foi mais que merecido Parabéns. Você agora é o meu paradigma.
Um grande abraço
Helcio"


Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Um conto para se ler com o devido vagar, com a atenção entregue. Um fundo mergulho ficcional, cheio de intensa inventividade. E concordo com o Hélcio Almeida, do comentário acima, sobre a influência estilística do mestre Guimarães Rosa nessa sua peça. Parabéns, Rita, pelo merecido primeiro lugar.

Ventura Picasso disse...

Rita - não conheço os outros que competiram com este, mas este é o vencedor e a melhor escolha. Lindo conto.
Você conta a realidade perturbadora da existência de muitos Zé Jão. O parto na poeira, aquele momento inevitável da chegada acidental daquele que ninguém queria. A descrição da fome, uma visão da fome inadiável. "Uai, e não são dois que fazem um"? O convívio promíscuo por falta de acomodação, todos misturados, como saber dos acontecimentos improvisados na escuridão, onde os corpos vivos tremem frio enganados pelo desejo. Ou "por fome, dava-se por comida". Por fim uma pergunta comum: "O pobre velho é meu pai, mas não é meu avô"? Não há escândalo, mas é assim que vida vive no Morro dos Mortos...
PARABÉNS!
Feliz Natal!

Emilia Goulart disse...

Rita, parabéns mais uma vez, da trabalho fazer bem feito, você conseguiu pintar uma tela surreal com este conto. Entrei nesta tela adentro sem enxergar obstáculos pelo caminho. Não procurei um conto escondido, encontrei-o na primeira lida. Parabéns..........
Emília Goulart

Rita Lavoyer disse...

Amigos, saber que vocês estiveram aqui, dispensaram tempo à minha postagem, comentando-a, acreditem: é para mim uma outra vitória.
Muito obrigada, muito obrigada, muito obrigada.
Rita Lavoyer

Rita Lavoyer disse...

por e-mail:

"
Rita!

Lia Jorge Amado? Incrível a sua narrativa! Quero o meu "embornal", agasalhar minhas moléculas e partir com um grande amigo: - o vento! Peito aberto e pés descalços para, do nascer ao morrer, fazer a "corrida Sobre a Terra Seca dos meus Olhos"...

Você apresenta o conflito social e a solução do mesmo, onde morrer seria mais benéfico que viver. A interiorização da consciência exata do que se passa no mundo psíquico dos personagens, nos faz pontuar inúmeros personagens reais... Rico monólogo interior com linguagem regional, simples e direta. Um despertar dos sentidos e sentimentos...


Sua capacidade posta à prova, dá o resultado para "podium"! Mais uma vez, Parabéns!

Obrigada, pela deferência em partilhar comigo, mais uma grandiosa obra sua!

Beijos, Célia.

Célia Rangel "

Antenor Rosalino disse...

Que belo conto, Rita! Com uma literalidade de primeira grandeza, irretocável, você traduz o limite de um holocausto que, faz com que a finitude seja a real solução para a imensidão das adversidades.
Por todas suas qualidades, por toda sua obra, pela magnanimidade de um ser humano de imensa e lírica expressão, você merece esse honroso prêmio e o aplauso das almas encantadas de seus privilegiados leitores. Parabéns!