CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.

2012 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - 13ª classifica no TOP 35 na 4ª semana de abril de microconto Escambau.

2017 - Classificada no 7º Concurso de microconto de humor de Piracicaba.


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

NORMALÓIDES




Quantas escolas perdidas em anos. Quantos anos de escola perdidos. Quantos anos perdidos na escola.
A criança vai à escola para aprender a ler, escrever e, quem sabe, se tornar um bom cidadão. Mas tem coisas na escola que a gente aprende e nunca mais esquece.

Aprendeu a ler, escrever e a decorar. Aprendeu que caju tem vitamina C. Não engorda, combate a gripe e ajuda a crescer.

_ Tome vitamina C! Não engorda e ajuda a crescer. Caju! Tome suco de caju! Suco de caju tem vitamina C!


Achou o assunto interessante e o bestunto tratou logo de decorar. Não podia ver ninguém pra baixo, ouvir uma tosse, a mais baixa que fosse, ou um espirro que mandava logo a sua:


_ Tome suco de caju! Caju tem vitamina C! Você vai se curar, você vai ver!

Encheu-se como jarra do tal suco e foi à escola. Sentia-se encharcado com a tão grande informação. Era o dia daquela prova e na jarra levou a sua cola.

_ Tenha paciência! – ele suspirou indignado. _ Prova de Ciências na primeira aula não tem espírito que se acalma!


Mas ele decorou pra valer aquela da vitamina C.


A professora, com muita competência, pegou o giz, e avisou que as respostas da prova seriam respondidas com “X”.


Ela passou pelas fileiras distribuindo as folhas xerocopiadas. Numa das mãos estava o chumaço de provas e o giz. Com a outra, distribuía as folhas de perguntas que esperavam por um certo “X”.


Algumas crianças não conseguem desenhar perfeitamente as letras, deixando algumas palavras quase ilegíveis. Ele era uma delas. Preferia que a prova tivesse aquelas perguntas com linhas embaixo onde ele pudesse escrever as suas respostas. Claro, queria fazer uso da sua letra feia.
Quando ele leu a prova ficou tonto. Atônito! Botou as mãos na cabeça e gritou dentro de si:

_ Cadê a vitamina C!? O suco de caju!?


Nesse ínterim a professora deu um espirrinho.


_ Vai tomar suco de caju!


A voz do coitado estava tão trêmula que ao som do nervosismo fez soar outra coisa. Aí começou o seu dilema.


Há muito tempo era isso mesmo que a professora queria. Disfarçando o seu cinismo profissional, mandou aquele aluno direto pra diretoria.
A classe toda ria. Balançava a cabeça concordando com aquilo que a líder fazia.


Até provar ao diretor que suco de caju pode ser tomado, tomada de rancor, aquela professora pôs um zero bem redondo na prova daquele garoto indisciplinado.


_ Indisciplinado! – ela disse àquele pai quando dela satisfação foi tomar. - Ele é meio anormal. Tem idéias absurdas, não condizem com o que é fundamental. Trate o seu filho. Não podemos discutir questões em que ele próprio decide o que fazer. Como pode? Ele quer ter autonomia. Sujeitinho desse porte não é bem aceito em nenhuma Academia.


A esse personagem inoportuno daremos o nome de aluno.


A lógica se torna ilógica quando burrica fica. Quando o burro fica manso não há pedra que o arriba. Se a birra é pesada como pedra, apedreja-a. Se a pedra pegar na birra e essa ainda mansa não fica, pegue o laço. Se ainda não der jeito, põe camisa de força ou use cabo-de-aço. Se amarrou com mau jeito, hum... Depressa! Enfie agulha debaixo da unha. Não há ativo que não se torne passivo com isso tudo, e o seu todo será jarra para, então, enchê-lo de conhecimento. Logo, conhecendo todas as razões, quaisquer que sejam elas, o burro fica inteligente. Tão inteligente quanto aqueles que o encheram de razões, embora com delicadas rajadas de canhões.
O inteligente é insábio quando amansa burro pra poder ficar por cima. Quem um dia não foi inteligente-insábio que atire a primeira pedra.


Quanta asnaria para falar da alfabetologia.


Contrariada, ela, sempre com o giz na mão, conversando com os braços, fazendo a maior confusão:


_ Pra ele não há remédio – gritou bem alto sendo ouvida por todo o prédio. _ Não se ajusta ao perfil da escola. Por mim o mandaria embora.


E lá se foi o tempo. O tempo passa, uva passa, ferro também mete o cacete e onde passa boi passa boiada todo dia e então, de Ciências à Biologia, que bestiologia! A mesma professora lá na frente ele encontrou, mas nunca se esqueceu que suco de caju tem vitamina C, é bom pra gripe e ajuda a crescer.


Aprendeu a fazer dissertação e a responder com “X”. Continuava com as suas idéias que deixavam os professores de cabelos em pé. Agora já é aluno médio, além do caju aprendeu que vitamina C é um ótimo remédio. Está sempre se deparando com a ‘fessora’ de ‘Biô’ que vive gripando.
Como de uma boa lição tira-se assuntos que não se esquece, de novo, ganhou um zero bem redondo por suas idéias que sempre aborrecem. Pra ele é real; para outros, imoral.
Aí ele mandou de vez ao primeiro espirro que a ‘fessora’ deu.


_ Tome vitamina C! Se não tiver chupe um bom caju!


Era alergia. Alergia a giz. A voz dele, aos ouvidos dela, soava como fuzis.

Foi quando passou a conhecer o coordenador daquela escola e, também, os bois de sua classe, com suas cabeças balançando e as bocas babando.


Já estava assimilando que não havia interação entre ele e o mundo daquela diplomada.
Ora, ora! Já compreendia que aquela profissional o via de dentro pra fora, mas ela não ‘o’ assimilava e se irritava.
Ele era o rascunho da história dela.

Já tinha letra de adulto e nas dissertações tirava sempre nota azul. Não que os professores tivessem entendido os textos dele, mas a cor era um pretexto para ficarem longe de qualquer fruta.
Pelo que sim, pelo que não... melhor foi não sair na contramão. Já tinha a sua filosofia:


“Não se desgaste, se não quiser, com um profissional qualquer. Guarde do seu recipiente e saia de frente à procura de um outro seu, assim, tão bem diferente.”


Existem textos que, por uma questão ou outra, alguém não consegue ler. Por causa das suas histórias aquele aluno vivia por um fio, mas delas não desistia e as aceitou por desafio.


Aquele jovem fez da vitamina C o seu motivo para crescer.

Tomou um bom suco e foi prestar o vestibular.


Já contam 2000 e hoje da era Cristã, e aquele aluno pôs à prova tudo o que guardava em sua mente sã.


A Medicina ensina muita coisa, mas para ser profissional na área precisa muito amor.


Nem todo labor dignifica e faz do homem – doutor.
Nem todo doutor dignifica o labor e faz do homem – rancor.
Nem todo homem dignifica o rancor e faz do doutor – labor.
Não só o labor, mas também o rancor dignificam o homem e fazem dele doutor de qualquer causa.
Se enquanto doutor a sua causa for o homem, dissolver-se-á o rancor, sua causa terá efeito, e eleito será o homem-doutor de dignificado labor.


Oh, sina! A professora de Ciências, a ‘fessora’ de ‘Biô’, aquela danada também era pediatra aposentada.
E não é que ela ensina àquela turminha de Medicina que a vitamina C é fundamental à vida do bebê!?
Num outro dia, a aula foi laboratorial. Uns botaram o avental; outros, a embalagem.


_ Credo! - Ele gritou. _ Aula de cérebro é uma aula cerebral. Será que este cérebro, tão artificial, é igual a um cérebro de animal?


E ele celebrou em pensamento fervilhante:


“Não! O animal tem o seu próprio instinto e o homem, estando extinto, torna-se irracional. Enquanto aquele foge para sobreviver, alguns homens vivem para de nada fugir, mas fogem de si mesmos, sem coragem, para dentro de suas próprias embalagens.”


Talvez quisesse levar uma lança no peito. Queria furar os tímpanos dos outros, com os ecos de suas rimas pobres, e achava aquilo bem feito.


Aquele aluno sempre tinha outra alternativa para qualquer assunto, e aquela classe, nada criativa, balançava a cabeça toda vez que a ”sôra “ com ele discutia.


Não deu outra. O dia fatídico chegou e outra vez suco de caju aquela velha ‘sôra’ quase tomou.
Ele pensou bem:


“Já sou quase doutor, farei um receituário. Recomendarei à ela um bom suco de caju.”


E lá foi o aviãozinho papel. Letra feia com ‘sora’ cega, foi o maior escarcéu.


Eita, universitário zebrário!
Então ele conheceu o reitor.


Foi quando desistiu daquele curral; enquanto todas as cabeças estavam na vertical, em sobe e desce, concordando com o radical, a dele estava na horizontal em vem- e- vai.


“Tanto burrico querendo ser médico. Será que isso é inédito?” - pensava ele. Mas se corrigia:

“ Serão burricos ou burróides? Nem um e nem outro – respondeu-se : são normalóides.”


O mundo, às vezes, não entende o diferente. Às vezes, é indiferente a ele. Mas há pacientes que necessitam de um diferente bem paciente. Um diferente consciente, que vê no paciente não um padecente, mas um ser humano desgastado com o cotidiano e que, embora esteja por um fio, saiba tornar aquele momento digno de ser vivido.


Há alternativas para afirmativas do tipo : NÃO HÁ REMÉDIO. Acredita nisso?


Não só de doença morre o homem.
Não só de bala perdida morre o homem.
Não só de suicídio morre o homem.
Não só de atropelamento morre o homem. Não só!
Também afogado no desconhecimento de si mesmo morre o homem.


Saiu no mundo olhando pro sol. Parou. Pôs a mão no peito, pegou o seu crucifixo e o beijou.
Continuou caminhando com os pés descalços na rua quente de pedra preta.


Queimou, bolhou, resistiu. Sarou-se. Virou artista. Mais um na multidão. Vive a arte que melhor sabe fazer – busca o compreender, imaginando-o e curando-se.


Porque aprendeu que nem só de morte morre o homem.


E que caju faz rima pobre, até formar eco que rompe destino, para alcançar e consolar o c., digo, caju de urubu albino.


Prestenção! Nóis num pode fazê rima aqui, siô!


RITA LAVOYER

Republicação. Texto publicado em junho/2008

2 comentários:

Jorge Sader Filho disse...

Parece que a Rita arranjou uma bruta encrenca!
Mas na verdade, muita gente está precisando tomar suco de caju. O presidente, oitenta por cento, calculo, dos parlamentares, os burros que empacam...
Ô rapaz, não é caju-amigo não! Já está arranjando desculpa pra beber cachaça?
Não gostou? Tome suco de caju, não engorda e faz cescer!


Beijos,
Jorge

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Texto muito bem humorado e pleno de sabedoria. Marota sabedoria...

Parabéns e obrigado pela presença, constante e muito bem-vinda, lá meu sítio. Um beijo, Rita.