CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.

2012 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura


segunda-feira, 15 de junho de 2015

UMA CANÇÃO PARA O RAFAEL

''Sabe quem é esse garoto caído na foto? É o Rafael14 anos, morador de Cariacica (ES) e que sonhava em ser um estilista famoso. Sonhava, porque ele foi assassinado. Foi espancado com paus e pedras. Morto, aos 14 anos de idade. Não tinha envolvimento com crimes, com drogas e passava horas em seu quarto fazendo vestidos para bonecas. Frequentava a igreja do bairro, fazia parte de um grupo de jovens. Segundo a família, Rafael sofria preconceito o tempo todo por ser gay e por ser afeminado, por não se enquadrar no padrão heteronormativo imposto.

Rafael pagou com a vida por viver uma vida que a gente é proibido de viver. Rafael entra pra estatística, não gera protesto da ~gente de bem~ porque não era imagem de santo, não era Jesus em cruz. Era só mais um menino pobre, preto, viado. Menos um, alguns dirão. 
Rafael não será mais estilista, porque Rafael foi executado. E os motivos, que ainda estão sendo investigados, já estão muito claros.''



UMA CANÇÃO PARA O RAFAEL
  
Na certidão: Rafael Humano Como EU.
Rafael era calmo; seu semblante, angelical. De seus olhos amendoados podiam-se extrair brilhos multifacetários, e ele os multiplicava em suas doações para enfeitar ainda mais os traços finais de sua cútis de porcelana.
Os lábios de Rafael tinham contornos delicados e a cor de carmim exalava uma saúde inspiradora  de onde fluía sorriso farto.
Os cabelos cacheados escondiam-lhe os ombros. A malha, grudada na silhueta, mostrava peculiaridades expostas num corpo de mito. Assim a natureza o fez, assim a natureza o queria.
 O  Rafael se fazia amigo dos colegas com uma força exagerada de se sentir igual.  Era igual aos demais “Rafaeis”, embora os seus semelhantes o diferenciassem.
Em riste um, outro e tantos  muito “normais”, foram os dedos que apontavam-no em julgamentos depreciativos.
Oh,   Meigo Rafael!
O tempo encurtava-se e as horas prometidas aproximavam-se.  Seus passos delicados, outrora firmes, flutuaram sobre os ponteiros que marcavam o momento da dança no compasso das ameaças. Sem um par,  dançou no palco marcado por pedras e paus que descrevem a batuta regida por mãos assassinas. 
Com a sua física indefesa, provou trocas de energias, perdendo de vez as suas partículas elementares.   Castraram sua biologia, subtraíram sua igualdade.
Rasparam-lhe os cabelos, deram cabo àquele sorriso de paz.  Os seus olhos injetados de sonhos foram chutados, fecharam-se diante de tanta  impiedade.  Suas folhas com desenhos de vestidos voaram com o desespero do vento, levando, manchadas, a sua rasgada ao tempo.
 O semblante daquele que um dia foi, é, agora, deformação. Do seu corpo  estendido no chão, uma geografia desfigurada escorre entre a seca  daquele meio natural de  relações.
Oh, como eu o vejo, agora, nesse chão pisado e cuspido por “homens de fibra”?   
Cadê você, meu amigo? A sua casa, o seu sobrenome, a sua identidade cadê?
Que vontade de abraçá-lo e protegê-lo, mas cadê você, meu irmão, nesses pedaços de corpo que eu vejo?
Ouça a minha canção, meu filho querido! Que eu cantarei a tantos como você. É um pouquinho do que posso fazer. Quero cantá-los.
Ah! Esqueço-me, sempre, de que eu não sei cantar... Sempre mesmo!
A minha voz não é bela, o meu som não tem ritmo, mas eu quero tanto uma canção para você, meu esposo!
Vá, meu amante, ouvir a canção que palpitou no seu peito, e arregaçou as mangas do seu verbo de vida.
 Vá, no balanço da alma, exalar o seu perfume no ateliê do Universo.  
Vá, meu pai amado, celebrar o bailado da sua pureza. Da natureza foi parte integrante, mas quantos amantes não o conheceram no amor.
Oh, criatura perfeita! Em quantas canções ainda tem que gritar? Lá, no seu encalço, pregaram um decalque e prometeram arrancá-lo com a justiça das mãos. 
Quem sabe no palco de Apolo um anjo lhe cante uma música. Por- que no do homem, você dançou Rafael. Você dançou!
Onde estiver aprenda: antes de ir à guerra cante uma canção em louvor ao seu deus. Já sinto, companheiro! Já sinto, que no oráculo ouvirá melodias de amor.
Vá até ele, um deus o espera para brincarem juntos com um disco cuja canção não desfigure o seu semblante de gente.
 Ouça canções, querido! Ouça canções.
 Perdoe-me !
 Perdoe-me, Rafael, mas eu não sei cantar.

Rita Lavoyer



2 comentários:

Célia Rangel disse...

Ah! A "elite" castradora que se mostra perfeita na acepção do que a sociedade determina como certo e errado! Quantos Rafaéis Humanos / Ritas Humanas / Célias Humanas percorrem nessa estrada poluída tentando a busca da proteção, dignidade e ética dos valores de "amor ao próximo" e nem sempre conseguem...
Um texto repleto de dolorosas verdades!
Abraço.

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Comovente homenagem, Rita. Salve Rafael!