CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.

2012 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - Recebeu o troféu Odete Costa na categoria Literatura

2017 - 13ª classifica no TOP 35 na 4ª semana de abril de microconto Escambau.

2017 - Classificada no 7º Concurso de microconto de humor de Piracicaba.


terça-feira, 3 de novembro de 2015

MORTOS DE CARNE FRACA

Rita Lavoyer

- Raimunda, sabia que morto  é uma espécie que nunca vão falsificar? Não enguiça os parafusos, não  pifa na hora ‘h’,  não precisa de manual de instrução. Morto é o produto mais original que existe.

-  Mas nessa artura da tua vida, tá filosofanu sobre morto por quê?
- Exatamente! Pela altura da vida. Olhe lá embaixo, mulher besta!  Essa altura não é de vida, sua trolada! Aqui, só quem chega são os mortos bem morridos. Vê se acorda, lesa!  

-  Bastião, ocê e eu tamu morto, como vou acordar? Aqui deve ser o Paraíso. Di certo nós morremo e vamo viver  as maravilhas que lá na terra nunca pudemos aproveitá. Por isso morremus juntos.

- Deve ser a perdição! Eu não fico aqui nem morto! Vou dar um jeito de voltar.

- Bastião, ucê morreu sim, homi. Lembra que ucê falava: “Tô morrenu di vontade di cumê aquela vaca!” Cê repetia isso trocentas vez por dia. Falou tanto que o feito aconteceu: morreu mesmo!

- Mas eu não comi aquela vaca!!!!!!

- Ah, Bastião!  Rosinha sempre avisou procê ficar longe dela, que era perigosa. Aliás, é por causa daquela coisa que estamos mortos: por causa dos chifres que levamos. Cê queria ela e foi chifrado. Por causa do meu amor por você fui chifrada junto. Fui invetá de fazer carinho na bicha.
- Sou homem de raça. Nem morto fico sem comer aquela vaca. Desço lá e mato o meu apetite.   

- Mas, homi, vão nos botar aquela roupa  branca e vamos virar vento. Bastião, vivo ocê num conseguiu cumê,  morto vai ser  mais difícil. Me leva junto.  Posso te ajuda a segurar a vaca. Que jeito que morto  come vaca? Tem manual de instrução?
- Encarno e como, pronto! Vou sozinho, Raimunda.

- Por isso que morreu. Apesar de estar  sempre duro,  sempre teve a carne fraca. Ói lá, as cabeças sem pés estão chegando. Vamos correr, Bastião, enquanto ainda vemos nossas pernas!

- Corro eu, você fica! Foi por causa do teu choro que não consegui comer aquela vaca.   Aquilo é coisa pra homem! Como ela hoje, na sombra daquele pé de manga.

- Chorei porque fiquei cum dó. Já tive vontade de cume  também, mas num queria vê ocê comendu ela, cê num ia me dar aquela parte dura que mais gosto. Tinha ciúme daquela coisa que te atiçava o apetite, Bastião.   
E não é que o Bastião conseguiu escapar do Paraíso?

- Oi, Raimunda, minha querida amiga!

- Querida amida? Tá fazenu o que aqui, Rosinha?

- Estava atravessando o pasto, vestida de vermelho,  debaixo do pé de manga que você conhece bem.  Aquela coisa do Bastião parecia que estava encarnada. Veio pra cima de mim, me pegou pelas costas. Eu gritei, ela me jogou pra cima e escutei um tiro, depois outro.   Mas agora o assunto é morto. Tem notícias de Bastião?

- Vixi, que desencontro danado! Vai dar inguiço! Bastião desceu pra terra, vai encarnar e matar a vontade de comer a vaca. Mas, pelo que vejo,   a vaca morreu, né?

- Morreu! A  vaca que o Bastião queria tanto morreu.
- Alguém mais comeu a vaca?
-  Ah, os vivos não deixariam de comê-la.  
- Não sobrou nada pro Bastião?  
- Nem o chifre, Raimunda! De vaca morta sobra só o mugido.
- E como é o mugido de vaca morta? Vamos mugir, Rosinha? Quem sabe o Bastião ouvi nóis duas e vorta pra cá?

- Raimunda, quem deixa o paraíso por causa de carne de vaca, não merece voltar pra ele. Não foi por falta de aviso.  Bastião nem adulterado volta pra cá.   Vamos entrar e pegar uma  roupa branca?


- Vai você!  Quando tava vivo nunca deixei Bastião ser adúltero, morto quem vai adulterar ele, esperta?  Vou ficar aqui esperandu por ele.  Nem se tiver que falsificar um morto e enganar esta portaria, ele vorta, ainda mais agora que a vaca dele morreu.    Bastião nunca pifou na hora “h”. Tenho certeza que ele vai me trazer aquele pedaço de carne dura que eu mais gosto.   Nem que eu perca meus parafusos até virar uma vaca, vou esperar o meu Bastião. Muuuuu... Muuuuu... Muuuuu. 

2 comentários:

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

O que poderia ser triste e mórbido, é tratado com humor e leveza. Só você mesmo, Rita. Muito bom!

Rita Lavoyer disse...

Uai, sô! Pobre da vaca. até morta ela é comida.