CLASSIFICAÇÕES EM CONCURSOS LITERÁRIOS

PREMIAÇÕES LITERÁRIAS

2007 - 1ª colocada no Concurso de poesia "Osmair Zanardi", promovido pela Academia Araçatubense de Letras;

2010 - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2012 - 2ª classificada no Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2014 – Menção honrosa Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba;

2015 – Menção honrosa no V Concurso Nacional de Contos cidade de Lins;

2015 - PRIMEIRA CLASSIFICADA no 26º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, Toledo-PR;

2016 – 2ª classificada no Concurso Nacional de contos Cidade de Araçatuba.

2016 - Classificada no X CLIPP - concurso literário de Presidente Prudente Ruth Campos, categoria poesia.

2016 - 3ª classificada na AFEMIL- Concurso Nacional de crônicas da Academia Feminina Mineira de Letras.


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

'Blog do Oda' é o melhor de 2012


O meu singelo blog também foi classificado. Estou muito feliz pelo meu espaço conquistado. Estou aprendendo a lidar com essa ferramenta. Eu vou melhorar. Eu vou conseguir!


Parabéns a todos os participantes. Parabéns a todos os classificados, especialmente ao Oda .

O "Blog do Oda", obra de Odair Marcel Oliveira Moura, de Araçatuba (SP), ficou em primeiro lugar no concurso "Melhores Blogs de 2012", o primeiro realizado pela Cia dos Blogueiros com a participação de 58 candidatos.
Conquistando 179 pontos dos 250 possíveis, Odair Moura recebeu as melhores avaliações nos itens "Conteúdo próprio", "Conteúdo de qualidade", "Atualização", "Layout" e "Interatividade". Ele receberá um selo de reconhecimento como prêmio e, junto com os outros quatro melhores classificados, será destacado pela Cia no blog oficial.

O segundo lugar ficou com "Brisando na Cozinha", de Carla de Souza Colombo, blogueira de Londrina (PR). Ela recebeu 173 pontos.

O terceiro melhor blog de 2012, com 172 pontos, é o de Matheus Ferreira Farizatto, de Ribeirão Preto (SP), autor de Virando Jornalista.

Lidiane Maria da Silva, de Belo Horizonte (MG), conquistou a quarta posição, com 171 pontos, com "Lidiane Franqui".

Já o quinto lugar ficou com dois blogueiros: Marcos Henrique de Oliveira (São Paulo-SP) e Nilson Alves de Souza (Birigui-SP), autores de 'A gente escreve' e 'Um Asno', respectivamente, por ordem alfabética. Ambos conseguiram 169 pontos.

Os jurados desta primeira edição do concurso foram Ester Leão, Paulo Sérgio Neves e Vitor Garcia Pontel, além de José Marcos Taveira (coordenação). Cada um deveria avaliar os 58 blogs participantes e dar notas de 0 a 10 para cada um dos cinco itens.

Em vez de distribuir cinco selos de "Melhores blogs", a coordenação decidiu distribuir dez para valorizar mais membros. Os jurados também receberão os seus, copiando a imagem abaixo:

Veja abaixo como ficou a classificação dos dez melhores colocados:

COLOCAÇÃO - PONTUAÇÃO - BLOGUEIRO - BLOG

1º - 179 - Odair Marcel Oliveira Moura - Blog do Oda
2º - 173 - Carla de Souza Colombo - Brisando na Cozinha
3º - 172 - Matheus Ferreira Farizatto - Virando Jornalista
4º - 171 - Lidiane Maria da Silva - Lidiane Franqui
5º - 169 - Marcos Henrique de Oliveira - A Gente Escreve
5º - 169 - Nilson Alves de Souza - Um Asno
6º - 168 - Hosana Leonor de Oliveira - Propagandas, Brinquedos e Brincadeiras
7º - 165 - Rita de Cássia Zuim Lavoyer - Blog Rita Lavoyer

8º - 164 - Karina Lima dos Santos (Ka Santos) - Mente Florida
8º - 164 - Sonia Amorim - Universo Paralelo
8º - 164 - Danilo José Fernandes - NECC - Noticiário Esportivo da Cidade de Cunha
9º - 163 - Julio Ernesto Bahr - Bahr-Baridades
10º - 162 - Antonio Vinícius Silva da Costa - Berçário natural


Parabéns a todos os blogs que foram bem classificados! Os que não ficaram entre os dez, podem melhorar seu espaço para concorrer no ano que vem.
Fonte- www.ciadosblogueiros.blogspot.com.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

VIAGEM AO INTERIOR




Já fui viciada em quebra-cabeça. Embora a atividade seja excelente, tudo que ultrapassa a barreira do suportável torna-se prejudicial. Enquanto eu não encaixava a última peça o mundo podia se acabar lá fora.

Tornou-se obsessivo ver o brinquedo grande terminado. Com os infantis, passei a fazer a mesma coisa. A criança montava, eu passava cola e liquidava o brinquedo.

No meu tinha lógica passar cola, afinal, é esse o propósito, mesmo porque não há lógica em montar mil peças duas vezes. Mas e o da criança, composto de 15, 50, no máximo 100 peças? Pra que cola se a utilidade do brinquedo é ser refeito para que a criança aprenda que aquele sistema de organização pode ser montado a partir da peça que ela quiser, aprendendo a desaprender para reaprender a montar tudo novamente?

É imperativo que entendamos a importância da matemática e suas lógicas, para que nos aceitemos contidos dentro de um sistema biológico e cultural na mesma proporção, porque somos quebra-cabeças cujas peças precisam ser aceitas para não nos dispersarmos. Digo: para que as nossas peças, aquelas que representam os nossos ancestrais não se desorganizem em nós, levando à bancarrota a nossa própria organização, desequilibrando-nos.

Desaprendi um caminho outrora traçado e fui, partida de todas as formas, para uma partida cuja jogada objetivava reaprender outro caminhar. Viajei nas minhas ideias libertas. Muitas delas mascararam a minha realidade, potencializando-me escrava de uma liberdade que lutei para conquistar. Principiando o trajeto, cada peça do meu quebra-cabeça tomou o seu rumo, desfigurando as minhas semelhanças. Sem demora formaram grupos. Estudando-os de longe constatei: eita gentinha de sangue difícil essa que me compõe! Tá louco! Que gente ruim!

É muito comum nos perguntarmos:

_ Pra quem será que puxou essa criatura!?

Quando a intenção é matar a árvore pela raiz o veneno vai à veia:

_ Puxou à sua mãe!

Principalmente se a fulana em questão for a sogra – respondemos.

Voltando aos meus povos: Um grupo de esquerda, outro de direita. Os meus ‘eus’ são assim, intransigentes. Daí pra ribanceira ninguém me empurrou; caí sozinha. Daqui pra poesia foi um salto, já que com a poesia não há compromissos, fiz da Literatura o meu consultório psiquiátrico, possibilitando um ponto se fazer História no papel-divã.

Em uma consulta, embora “eterizada”, parti consciente no lírico. Regressei na minha História. Vi lá muitos ‘eus’, uns me querendo muitos; outros me ignorando. Gente boa toda vida!

No meu trajeto eu via cada gente daquela como minha fração, aceitando-a. Igual as letras que eu colo e formo palavras, com elas um texto. Fiz da Literatura, a minha, um recurso a ser explorado. Eu ousei explorá-la partindo para o interior: o meu!

Quando eu escrevo do outro, há muito de mim que o compõe. Logo, desnudo-me naquele a quem nomeio personagem, possibilitando-me uma catarse. Na Literatura eu também me humanizo, fazendo, do meu pretérito, arte. Sou eu, primeiramente, que tenho que aceitar a minha arte, as minhas letras e os povos que eu sou, construindo, pois, a minha Hitória.
Voltando ao quebra-cabeça e à minha partida, ensinada, deixei sobreviver os meus ancestrais dentro dos órgãos com os quais estou contida e eles igualmente em mim. Não teria voltado organizada da minha partida se os meus “ antepassados” continuassem partidos, formando grupos separatistas em mim.

Não sustentariam a raiz da minha árvore genealógica sobre a qual posso projetar para o futuro outros vôos , apostando que para alçá-los ainda faltam muitas peças. Eu as encaixarei aos poucos, porque aprendo com a sabedoria dos que me compõem que sou inacabada e quanto mais me procuro mais vejo outros ‘eus’ faltando no meu quebra-cabeça.

Se necessário, eles reaparecerão na minha caminhada e partiremos, tranquilamente, para os mundo de fora e de dentro, sem nenhuma obsessão.

Rita Lavoyer é membro da UBE e Cia dos Blogueiros . Texto publicado no Jornal Folha da Região em 29/08/2012













sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O BEIJO DA SERPENTE - 2º COLOCADO NO CONCURSO INTERNACIONAL DE CONTOS CIDADE DE ARAÇATUBA- 25ª EDIÇÃO

Aos amigos, aos conhecidos, aos leitores antigos e aos mais recentes,  às pessoas que eu não conhecia, mas que me avisaram sobre a minha classificação, parabenizando-me, o meu mais sincero MUITO OBRIGADA PELO RESPEITO E CONSIDERAÇÃO!  Rita Lavoyer

Igualmente agradeço aos me avisaram sobre a minha classificação, parabenizando-me quando eu fui classificada como Menção Honrosa na 23ª Edição do concurso de contos cidade de Araçatuba,  2010, o que esta secretaria de cultura não teve consideração de fazer. 



O BEIJO DA SERPENTE


Jacobson tocava a sua harpa serenamente no alto da torre. Através de uma abertura assistia a paisagem do mundo. Era belo o mancebo que, imberbe, se apresentava músico para o universo. Sua musicalidade ecoava por entre os sons do movimento do vento. De quem herdara tanta beleza e quem lhe teria dado o instrumento, confinando tamanho talento entre paredes? Quando a música cessava, ela forçava seu rastejar adentrando a mata.

Era claro o dia, ele apareceu tangendo com seus dedos de brisa sua harpa, soltando ao tempo seus poemas em notas. Eles repercutiam um estímulo de marcha na serpente que vibrava ante a harmonia daquele som. Chegou rastejando e se pôs de cabeça erguida querendo alçar o seu corpo longilíneo para alcançar o mais alto do seu desejo. Mantinha-se ereta, apoiando-se no pedestal de sua cauda enrolada e desenhava uma silhueta sedutora na dança que fazia para chamar a atenção do músico, sibilando. Sua língua bífida tateava a atmosfera sedutora que ansiava produzir. Por quê?

– Há tempo, vejo-te por aqui. O que pretendes, senhora cobra?

– Oh, tuas melodias vibram-me o corpo e hipnotizam os meus olhos sempre abertos. Agradam-me deveras. Quero que saibas: tocam-me a alma

– Tens uma alma? Por que eu acreditaria em uma cobra?

– Há muito me encantas. Quem és e qual o teu nome, meu querido?

_ Meu nome é Jacobson. Quem achas que sou?

_ Certamente és um anjo. Vives nas alturas, meu querido anjo!

– Não sou o teu anjo, cobra! Mas muito me admira saber que aprecias as minhas canções. É dom celeste, entendes? Ninguém me ensinou. Quando eu começo a sentir alguma coisa que não sei nomear, dedilho as notas e o sentimento passa.

– E o que um anjo sabe sobre sentimentos? Anjo sente dor?

– Sei que há os bons, puros, próprios dos anjos.

– E como sabes distinguir os bons dos maus sentimentos, se os dos anjos, como dizes, são somente os bons? É por isso que tocas, por que te confundes com o que se passa em ti?

– Não, senhora cobra! Toco por que me foi dado este dom. Preciso aproveitá-lo a contento da criação. Não vens ouvir-me? Faço-te, pois, o bem.

– Hum...não ouço, sinto vibrações. Queria ficar ao teu lado, apreciando-te enquanto tocas. Se me fazes o bem estando distante, juntos seria melhor ainda.

– Não seria má ideia ter uma companhia por aqui. Mas se não ouves, como dialogas comigo? Estranho... Vivo tão só. Ninguém vem visitar-me. Sinto-me excluído do plano das entidades, só porque nasci com uma anomalia. Percebes que não tenho asas? Se eu as tivesse, voaria pelo espaço abençoando todas as criaturas que amam.

– As asas não te seriam um fardo? Sentiste alguma vez uma ardência dentro de ti? Aquela que se sobrepões à lucidez? Não gostarias de ser um anjo da paixão, para unir os apaixonados, ajudando-os a decifrarem a língua um do outro, para, depois, se fortalecerem no amor? Do contrário, não perderias o teu tempo e a tua razão?

– Perguntas demais, confundindo-me! Não sei o que é esta ardência a que te referes, mas... só sei tocar este instrumento, presente de batismo. Quem quereria a companhia de um anjo que só sabe tocar harpa? Nem amigos tenho. Aceitarias um anjo por amigo?

– Queres-me tua amiga?! Gostaria de voar para alcançar-te. Bater à cabeceira da tua cama, reanimar-te nas madrugadas febris, pois tocas nas madrugadas também, já rastejei até aqui muitas vezes, vibrando com as tuas notas à luz do luar. Sentes que alguma coisa corre dentro de ti, por isso tocas melancolias enquanto a brisa do luar te lambe a testa. Estás sempre nu neste período. Serpentes causam medo, fazemos relação com o demônio. Devoramos os que nos afrontam. Somos o símbolo do pecado. Não temes as serpentes? Eu sou má! Quando toco a minha boca...

– Sim, eu as temo! Mas me pareces tão leal! Não és uma serpente. Vem ao encontro das minhas canções quando eu as toco. Se eu souber que virás, tocá-las-ei ainda melhor. És diferente aos meus olhos.

–Toca uma das tuas canções. Quero dançar para ti, vibrando.

O que pretendia? Aceitando aquela ordem, o anjo provocava com os dedos movimentos delirantes nas cordas do seu objeto de trabalho. A serpente se contorcia num êxtase incontido, arrastando sobre o solo parte do seu corpo. Saltava do chão, escancarando a sua boca, cumprindo o dever de mostrar ao mundo as suas presas, por onde escorria, abundante, a sua substância, umedecendo aquela superfície sobre a qual demarcava terreno. A sua língua degustava, de longe, a rubra cor da face do anjo.

– Preciso recolher-me agora, permites-me, senhora?

– O movimento da minha dança te constrange?

Sem resposta, a serpente ficou observando o clarão que ele deixou em seu lugar. O que promovia tanta claridade que lhe ofuscava os olhos? Alguns dias se passaram contaminados pelo silêncio massacrante que o anjo deixou. Não aparecera, deixando aquele réptil incitado. Ela bailava seu corpo e silvava, fazendo pingar sobre o solo o seu veneno mortal. Insatisfeita por não ser ouvida e vista, debatia-se tentando transpor aquela construção, deixando em cada ataque obsessivo a marca da sua existência. Travou uma luta com aquelas pedras sobre pedras. Não podendo mais, rendeu-se àquela compulsão. Por que tamanha entrega? Quando pressentia o último suspiro, a sua fosseta captou uma nota musical chamando-a para a ressurreição.

– Senhora cobra, estás ai? Senti a tua falta, única presença que me alegrava o dia. Fiquei imensamente triste por não ter-te diante dos meus olhos. Fugiste? Sabia que não te teria por amiga, por isso adoeci. Uma parte do meu corpo tornou-se estranha. Orei muito sobre as escrituras para conseguir livrar-me da fadiga que me atormentava. Preciso de ti, do teu bailado no ar, como de uma santa.

– Meu anjo, não saí daqui desde a última vez que tocaste. Entreguei-me ao fim. As tuas canções são o meu pretexto, mas és tu o meu motivo. Estive presente. Os teus olhos não enxergam a raiz do teu império? Não foi dado a mim o dom de voar. Encontras-te nas alturas, eu ao rés do chão. Queria eu ter nascido um anjo, para deixar de conviver com espécies tão vis como as que me rodeiam.

– Não gostas dos teus iguais, por isso queres fugir de ti? Não desejas que os tire do mundo, mas que te livre do mal. Tens bondade, eu sei!

– A minha ira é sincera, e eu não fujo de mim, mas do meu estado de réptil. Escalar esta parede seria em vão. Poderia rastejar sobre o teu corpo liso, me esforçaria ao máximo, mas não conseguiria mudar minha condição, o que me seria muito prazeroso, sentir o calor da tua escultura.

– Sentia alguma coisa diferente. Os meus lábios tremiam. Nunca, antes, havia sentido isso. O exterior queria corromper-me o interior. Travei-me em luta.

– Achas que foste acometido pelo medo de ficar só?

– Então eu tive medo de perder-te? Escondi-me, igualmente o meu talento musical. Não sei quanto tempo é destinado a um anjo, mas quero que saibas que não poderia sair desta existência sem ter te conhecido, incomparável senhora.

– Precisas ser desejado com o fogo da paixão, esta que te faz levantar nas madrugadas e prostrares nu nesta abertura, mas que não sabes nomear. Eu o tenho. Acreditas que uma serpente pode desejar um anjo? Estou fraca. Tua ausência levou-me a vontade de viver. Agora, a delitescência proporcionada por tua revelação obriga-me demais retribuí-lo.

– Desejas a mim, um anjo? Somos de espécies totalmente diferentes. O que me dizes é nada mais do que uma fantasia bizarra. Mas... As cobras são vivas, inteligentes, sagazes. A senhora é muito boa. Confesso-te que começo a conhecer o medo. Despertas em mim aquela ardência a que te referiste. Mudaste o meu ritmo. Sei o quanto podemos, quando queremos. Queres a mim, não? Oh, divaguei num desejo incontido de ser amado, o que eu nunca fui. Vê! Não estou num templo. Estou quase nas nuvens. A mim nem preces, quanto mais oferendas.

– Estás carente. Toque uma música, meu anjo. Irei retribuí-lo agora.

Novamente, obedecendo à ordem, notas jorravam das alturas compondo um maquinismo que fazia funcionar um bailado de fricção na terra. O que se passava oculto lá em cima para que ele se deixasse induzir pelos impulsos da serpente, projetando uma correspondência entre terra e céu?

– O que farias comigo se eu te permitisse?

– O que queres que eu te faça, farei. Serei a tua serva.

– Não te quero serva. Vou recolher-me agora. Sinto-me mal. Outra vez aquelas aflições me invadem.

– Sim, meu senhor! Recolhe-te. Faze penitências, cumpre os teus desígnios, eleva-te. Quanto mais alto te mostras, mais ainda te desejo.

– Preciso ir e não quero. Despertas em mim um sabor diferente do ar da vida. Tuas cores vibrantes me atraem. Apesar de me vires anjo, não tenho potencial para tanto. Quero-te, sim, como companhia enquanto toco solitário aqui em cima, acredite! O teu rastejar me fascina. Descer não posso. Tenho certeza que conseguirás subir. Podes!

– Encontras-te em uma altura além da minha capacidade. Rastejar é a minha condição. Não tentes descer. Somente asas me permitiriam chegar a ti.

– Podes tanto quanto queres. Não te deprecies, minha querida. O resultado do que desejas está na confiança que deves ter no teu potencial. Pois o tens. Conheço-te, minha senhora. Tua presença e as lembranças de ti alteram-me o raciocínio. As sensações que me atormentam as noites têm o teu nome, Rainha dos Anjos. O caminho que escolheres para segui-lo, vendo nele a luz, ali estará a tua verdade, e ela te libertará. Eu te espero, dividirei contigo a altura que me foi concebida. Emprestar-te-ei os meus olhos para que, através deles, vejas o que corre pelo universo.

– Desperta em ti a paixão. Falas parecendo ter propriedades sobre o assunto. Começas a conhecer outros sentimentos, meu senhor. És uma entidade. Promove um milagre. Leva-me a ti.

– Terás as asas que quiseres ter, se acreditares que conseguiras tê-las. Deseja-as com força e promove a tua metamorfose. Chegarás. Vem, eu preciso de ti!

– Senhor, meu anjo, desejar-me colocaria a tua essência à prova. Apesar de as tuas palavras serem claras e seguras, pareces estar sob o domínio da fantasia.

– Senhora, o desejo desconhece proibições. Serás minha tanto quanto a fé é do meu Senhor. Conhecer a verdade é descobrir o sentido da vida. Advogo por ela.

– Falas em fé?! Acredito que a tens em demasia. Rio ao mesmo tempo em que me atormento. Vejo-te criança e falas como gigante, embriagando-me.

– O que fazes de mim? És, pois, a minha sombra. Andas ao meu encalço. Se aí embaixo eu estivesse, lamber-te-ia os pés, posto que não os tem, todo o teu corpo esguio, por compensação.

Aqueles impulsos, por ambos questionados, dominaram a situação e as motivações celestiais conseguiram transformar o biotipo da serpente. Quanto e até onde a crença pode arrastar o crente? Teve a sua temperatura alterada, despertando sensações incríveis naquele réptil ao ponto de não mais sentir as suas presas, devido ao grande esforço de pensamento que fizera para que chegasse à transformação que a levasse ao sagrado. O seu veneno parou de pingar. Melodias, as melhores até então nunca ouvidas pela natureza, eram ensaiadas pelo anjo, para celebrar a conquista que ambos tanto almejavam. Não tendo medo algum de se entregarem àquele encantamento, a serpente transcendeu e as suas asas apareceram um dia, enquanto o sol namorava o horizonte. Entorpecida naquela realidade, ela tremia a sua nova fragilidade.

– Percebes, meu senhor, que passo por transformações? Conseguiste promover o teu milagre. Chegarei até ti para depositar em tua boca o meu beijo, em seguida arrancar-te a puríssima virgindade.

– Rainha dos Anjos, foste audaz. Estive contigo, vibrei no mesmo plano, por isso conseguiste tão belo feito. Sobe. A altura te espera. Traze-me uma pedra que brilhe. Ela pesará sobre a nossa história. Serás o meu Anjo Custódio.

Não questionando aquele pedido, saiu a procura da pedra e lapidou-a. Num esforço incrível, forçou uma subida e caiu na primeira tentativa.

– Não faças desta pedra um obstáculo. Terás que subir com ela, senhora.

– Para colocar na tua boca o meu beijo, esta pedra não será pretexto para desistência, mas tão somente outro motivo para a minha estada na altura.

Concentrada no seu objetivo, abocanhou a pedra, forçou outra subida e quando chegava no alto faltaram-lhe as forças. Jacobson agarrou-a, deixando cair a sua harpa, que foi batendo nas paredes daquela fortaleza, chegando esfacelada no chão. O anjo sentiu a perda do seu bem precioso, mas não deixou que a sua aflição atrapalhasse aquela apoteose.

– Disse que conseguirias, serpente! Atravessa o umbral da eternidade agora.

– Meu senhor, me chamas serpente? Fiz-me diferente para alcançar-te. Não me vês também um anjo? É grande a claridade aqui, quase machuca a minha visão. Trouxeste-me ao teu patamar, acreditando em mim o que eu não supunha existir. Na minha fraqueza fizeste-me forte. Aqui está a pedra que pediste. Nesta altura em que te encontras, há mais aberturas por onde podes ver outros lados do mundo! Julgava apenas uma. Tocavas nestas outras fendas também, quando não tocavas para mim?

– Todas as aberturas são queridas. Conseguiste esta. A claridade é o teu ponto de vista. Do mundo que vieste não vias a vida girar?

– Não! Via apenas a vida subir e ganhei esta passagem. Tudo o que mais desejo é beijar-te. Subi aqui para isso, meu senhor.

– Não! Primeiro promove a realização dos sonhos que me ensinastes a sonhar. Passeia sobre o meu corpo sem saíres dele. Arranca-me a virgindade, dá-me o prazer de conhecer a tua paixão neste nosso delírio.

– Não sabes nada sobre prazer, meu anjo. És ainda uma criança e eu te trarei à vida. Quererás, depois deste momento, ser o anjo da paixão como te propus. Vejo-te tão igual a mim. Tens o corpo tão quente quanto o seio que amamenta a criação.

Ele esquivava a sua boca das investidas dela. Naquele momento de entrega mútua, a serpente gemeu revelações de amor e os corpos se entrelaçaram. Não dava mais e ambos se pediam. Jacobson saboreou a boca da serpente cravando lhe as suas presas mortais, injetando nela o seu prazer, arrancando-lhe a língua. Transmudando-se ao seu estágio primeiro de víbora, Jacobson condena-a, tentando emparedá-la no poço interno, para juntar-se aos muitos restos de outras vítimas suas.

– Ficarás eternamente lá, na raiz do meu império, arrastando-te sobre os restos dos teus iguais, por castigo, por teres traído a tua espécie, amando, cobra idiota! Concretizaste-me anjo a partir da tua visão ilusória. Soubesses de ti, terias entendido o meu nome. Faço o que fiz para honrar a minha raça. Não traio. Eu cumpro com propriedade, por experiência. Com esta pedra pura que me trouxeste, aumentarei este monumento que tanto vislumbraste. Respondo tuas perguntas?

O que a serpente desejava dizer naquele momento?

Cessado o seu trabalho, ele jogou-se do alto e saiu rastejando. Adentrou o seu berço e desapareceu sem olhar para trás, como sempre faz. Sem ter atingido o solo interno da torre, a serpente jogou-se para alcançá-lo, mas o seu corpo alado de ilusões plainou no clarão das alturas. Ali, permaneceu buscando uma canção, até o tempo de enxergar Jacobson lá embaixo, entregue ao pé daquela fortaleza. Ela o supôs velando.

Caindo, porém, em si, a queda dela foi evidente. E como pedra, um réptil sobrepôs-se ao outro.

Conto que ficou na segunda colocação da 25ª edição do Concurso de contos cidade de Araçatuba edição 2012.


Rita Lavoyer  é membro da UBE e Cia dos blogueiros



OS FORTES ANDAM COMIGO!

Não adianta esculachar o sujeito que não fez o que deveria a alguém, por omissão, para que ele passe a fazer
como
não adianta reprimir o sujeito que faz o que não deve a alguém, por ação, para que ele deixe de fazer,
se das suas intenções exalam os maus odores liberados pelo desconforto que esse alguém lhe causa.  "Alguém" é sempre o culpado.
       Rita Lavoyer



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

POR CÉLIA RANGEL - PARTIDA


Fiquei  muito feliz por ver publicado no blog da escritora Célia Rangel um comentário sobre  o meu livro Partida.
Pedi licença a ela para publicar aqui no meu espaço também.

Muito obrigada, Célia Rangel!
Rita Lavoyer
www.celiarangel.blogspot.com


“...ao tempo que para senti-lo não precisa tempo...”

Quem inicia assim seu livro, dispensa todo e qualquer comentário...

Recebi. Li. Estudei. Pesquisei. Internalizei e agora, ouso testemunhar o belo arquivo poético feito por Rita!

Éter / Alucinação / Devaneios / Euforia / Volátil ... São subtítulos dos poemas. Ideia fantástica! ... e segue eterizada, no destaque do timbre de seus pés... no entendimento da vida... ao que eu sugeriria: eternizada! Foi para mim uma leitura filosófica que retornarei...

Destaco entre belos e significativos poemas

                                                                 “O OLHO DO LOBO”

O olho do lobo

é olho vermelho

o lobo do olho

é o seu espelho.

O vermelho do olho

é o lobo inteiro

quem julgou o seu fardo

foi você primeiro.

Viva o seu lobo,

deixe o rebanho,

largue o cajado.

Veja com o seu olho

todo o vermelho

que escorre,

que escorre,

que escorre em seu peito

feito um não sei o quê.

Feito um não sei o quê.

O lóbulo do lobo

é um olho ouvido

o pelo do olho

é um som comprimido.

Mate o seu cordeiro

pra poder viver.

Viva o seu lobo,

abra o seu olho,

vê se vê você.

Sinta-se inteiro

nesse seu espelho.

Abra o olho agora!

Não fuja do lobo

se ele o apavora.

O lobo é você mesmo

viva com ele

nesse mundo afora.

O espelho do lobo

é o seu reflexo

seja verdadeiro

deixe os complexos.


Por Célia Rangel

domingo, 19 de agosto de 2012

CHEIRO DE SARDINHA



Ele equilibrava-se imponente sobre o muro.

Era o gato dos sonhos dela.

Não acontecia o que ela desejava.

Os olhos do gato não a viam.

Unhas de gato não arranhavam a sua pele.

Melindrosa, com aquele miado extasiava-se.

Sobre o muro, ele titubeava frente a lingerie vermelha que ela lhe expunha, exalando o seu perfume de loba numa alcova ornamentada com cetim.
Ele pulou do lado de lá; ela, ficou do lado de cá engolindo o seu frenesi.

Ela entristeceu-se. Rasgou a lingerie, quebrou o frasco de perfume e esqueceu-se dos banhos.

O odor de sardinha que saía das entranhas dela atraiu o gato.

Ele pulou do muro à janela, da janela ao chão onde ela se esfregava.

Ofereceu-se a ele.
Com os lambidos ela gemia.

Ele a mordeu, ela gritou.

Ele engoliu.

De repente, parou!

Soltou um miado agonizante.

Sem necropsia, restou a necrose e uma atmosfera intoxicante.


Rita Lavoyer  é m embro da Cia dos blogueiros





terça-feira, 7 de agosto de 2012

LANÇAMENTO DO LIVRO "PARTIDA"




Lançar um livro é muito gostoso!

Mas confesso: escrever é bem mais fácil do que lançá-lo.

Escrever os poemas que compõem PARTIDA foi tudo muito natural. Tudo fluiu de acordo com o ritmo em que o meu espírito se encontrava naquele momento.

Quando eu descobri na Oficina de Poesias, ministrada pelo senhor Hélio Consolaro, que eu conseguia correr com as letras, formar bloquinhos com elas, dando-lhes formato de torre, olhei bem naquela construção de palavras, gostei e fui gostando mais ainda do negócio!

Como aprendiz de construtora ainda sou, dentro da minha Partida há os bloquinhos que desmoronaram, os que ainda estão balançando – estão no cai ou não cai- mas há também os alicerçados, seguros de si e fincados para sempre no solo do meu caminho.

Aos que estiveram comigo nesta Partida o meu muito obrigada, aos leitores que eu não conhecia, mas os conheci no lançamento, o meu muito obrigada! Aos que não puderam comparecer, o meu muito obrigada também pelos votos de felicidades. Aos que já adquiriram Partida após o lançamento, muito obrigada mesmo!

E muito obrigada aos que ainda estão solicitando.

Abraços de quebrar os ossos.

Rita Lavoyer

Membro da Cia dos blogueiros e UBE.



sábado, 4 de agosto de 2012

PARTIDA : escritora Rita Lavoyer lança seu primeiro livro de poesias

1. http://www.folhadaregiao.com.br/Materia.php?id=301947



'Partida': escritora Rita Lavoyer lança seu primeiro livro de poesias

TALITA RUSTICHELLI

Sexta-Feira - 03/08/2012 - 09h51



Em seu mais recente trabalho, a escritora auriflamense Rita Lavoyer, 45 anos, inseriu marcas autobiográficas fortes. O livro "Partida" - seu primeiro de poesias - traz cerca de 65 textos, a maioria fruto de acontecimentos pessoais de diferentes fases. Fases pelas quais ela afirma transitar, às vezes, em um mês ou em um dia. Como numa catarse, a obra é publicada não só para registrar fatos diversos de sua vida, mas também realizar um rito de passagem. O livro será lançado amanhã, em Araçatuba.

São 117 páginas que relatam reflexões, homenagens à família e à cidade, angústias, ou seja, tudo o que cerca a escritora. Períodos turbulentos, tênues e também reveladores a fizeram escrever cada um dos poemas, alguns com rima, outros sem, alguns com versos regulares, outros com versos livres. Para isso, dividiu a obra em cinco capítulos. O primeiro, "Éter", segundo ela, tem relação com a coragem, metaforicamente buscada na substância para poder partir em seu caminho. Ele introduz o próximo capítulo, "Alucinação", relativo aos efeitos do éter, com rumos incertos.

Em seguida, "Devaneios" traz alguns poemas fora da realidade, de alguém que anda em círculos. Mas em "Euforia" é que todo o processo começa a ser visto de forma menos densa e mais feliz. "São poesias carnais, que revelam a parte mulher, em que me vejo como esposa, mãe e filha", diz. E no último capítulo, "Volátil", é quando a poeta consegue pousar e colocar os pés no chão, cair na realidade. Como observa, a obra traz poemas que ela diz detestar pelo assunto que abordam, mas crê que foram necessários. Ver mais no site acima.