DESVENDANDO
MISTÉRIOS
Gema era uma criança
diferente. Sua cútis apresentava uma cor que açulava o olhar da
multidão, inibindo o apetite de algumas pessoas. Gema, todavia, honrava o nome
que trazia: Gema!
Não
podiam tocá-la que Gema soltava os seus ‘ais’. Eram “ais” daqui, eram “ais”
dali. Os gemidos da Gema foram tomando
grandes proporções. Já moça, não havia compatrícios que desconhecessem os “ais”
da Gema.
A
mocidade dela começou a cercar-se de incômodos. Intocável Gema!
Como
uma nuvem fenomenal, a história da Gema pairou
sobre as cidades do entorno de onde
Gema morava, derramando sobre elas a substância lipídica daquela atmosfera
contida.
“Não
me rele, não me toque! O meu nome é Gema!”
“Gema,
Gema, Gema... Ai!...”
Virou
motivo de piadas a ziguizira da Gema.
O
assunto caiu nos ouvidos de uma criatura incontida, moradora de um desses
lugares, desabrochando-lhe a clarividência.
Não tardou em jogar as suas bugigangas em uma mala e rumar para a cidade que acolhia Gema.
A
poeira seca da estrada arranhava-lhe os dentes da boca sem saliva nenhuma
daquela espécie de gênero indefinido, que descera, toda desengonçada, do pau de arara apinhado de
gente misturada às galinhas e seus pintinhos. Parecia um plasma germinativo se
arrastando com a mala nas costas.
Aquela morbidez disforme preenchia totalmente a malha da camiseta verde desbotada, colorida por um degradê de suores ressecados, que
confundia-se com a calça safári tomada por bolsos. Aquela coisa esbranquiçada, sem forma e nem
aparência, desabotoou o seu cansaço diante do primeiro ser que ela avistou.
_
Conhece uma moça com o nome de Gema, que mora nesta cidade?
_
Oh, moça! Quem não conhece a Gema? Só faz gemer, a pobre. Até bendizência já
andam fazendo pra coitada poder melhorar! Mas não há dedos em rosários que convençam
o Senhor para acalentar o sofrimento do povo daqui da cidade, entende? Digo do
povo, porque desde que Gema se pôs a gemer, até descontrato de núpcias entrou
no rolo. Se Gema gemer depois do horário das galinhas irem pro poleiro, vixi! Aí
mesmo que ninguém procria na cidade. Filho gerado em noite que Gema gemeu pode
nascer sem as coisas... Se a senhora me permite confiança... Hum... hum...
Perdoe-me, senhora, vou guardá-lo!
A
cara amarrada da visitante calou imediatamente
o exibicionismo do homem, o maior
informante que aquela cidade já
registrou em todos os seus anais.
_
Vou encaminhá-la até a casa dela, mas o que a senhorita pretende com aquela gemedora? Antes, pretende
tomar um copo d’água?
Sem
conseguir respostas para as suas perguntas, o intrometido a cicerone seguiu na
carreira da moça que o ia deixando para trás, sem mesmo saber o rumo do
destino. Ele a levou bem na porta da casa da Gema, onde a padecente,
há muito, se confinara. O informante não arredou o pé do lugar, querendo logo se assuntar sobre
a estada daquela visitante naquela
cidade pacata no interior do fim do mundo.
A
porta da casa lhe foi aberta. Uma mulher cumprimentou a moça que ninguém ainda
sabia, conhecida ou não daquela família. O cheiro que saiu pela abertura da
porta era fétido e desequilibrante. As
duas adentraram o local, mas ao homem não foi dada a mesma sorte para
acalentar a gula da sua curiosidade.
Passado
algum tempo, podia-se ouvir nas alturas os “ais” da Gema. A cidade toda se
fechou em orações naquele momento, como nos demais momentos outrora gemidos nos
tímpanos do povo.
A
porta da casa se abriu e a visita e a visitada, que não a Gema, puderam ver o homem espremendo os ouvidos para tentar ouvir,
através da parede, o que se passava lá dentro.
_
O senhor pode me informar onde arrumo um lugar para passar alguns dias?
_
Claro! Na minha casa tem um quarto que... se eu ajeitar um pouquinho ficará
ótimo para a moça se hospedar. Não
querendo ser deselegante, a moça vem de onde mesmo?
_
Isso aí, fica à vista de todos? Tem necessidade de mostrar que tem isso?
_
Vou guardá-lo, madame!
Sem
conseguir, novamente, resposta, seguiram
calados até chegarem à casa.
_
Moça, pode se achegar que a casa é humilde, mas é limpinha! Esse é o quarto que,
não demora muito, boto nos trinquis para a moça ficar no conforto. Sem querer
me intrometer, qual é o nome da moça?
_
Chama esse chiqueiro de casa? Onde se toma banho por aqui?
_
A moça pode entrar na porta à esquerda que
é um banheiro. A porta não tem trinco porque eu moro sozinho mesmo, né?!
Mas pode tomar o seu banho, fazer as outras coisas sossegada, que aqui o que
não falta é respeito.
_
Hum...Vai me cobrar quanto para eu enfeitar esta pocilga?
_
A moça pode ficar à vontade, dê o que a moça achar justo.
Ela
enfiou a mão num dos bolsos da calça e
entregou-lhe um maço de dinheiro
que, impressionado, pegou-lhe a
mala e a colocou no quarto dele,
querendo, aflito, numa só palmada,
juntar as penas que intuíam vazar daquele cômodo para o outro.
_
Acho melhor a moça ficar com esse quarto aqui, que já está arrumadinho. Eu
arrumo aquele outro pra mim e já vou providenciar uma fechadura arretada para a
porta do banheiro, assim a moça pode fazer as suas necessidades e tomar o seu
banho em paz e com segurança.
_
Por que quer me mostrar que tem isso?
Tem o hábito de ficar com isso a mostra?
_
Não, moça! É que ele é meu, gosto dele!
É por isso!
_
É! Está bem acabadinho! Isso ainda pia?
Desconcertado,
o hospedeiro resolveu ciscar-se daquele terreno, deixando a moça encaixando-se no conforto que a ele
convinha lhe proporcionar.
Não
demorou muito e a casa já estava
hospedaria, com a feição do dono que, dado a vidente, esparramou para todos os
cantos da cidade que ele hospedava uma pesquisadora que viera especialmente
para estudar os “ais” da Gema.
Curiosos
se apeavam em frente àquele futuro comércio que eram aos montes. Não demorou,
na varanda já havia mesas e cadeiras. Um freezer ficou lotado com garrafas de bebidas e de hospedaria a casa
acabou, também, virando um boteco onde os
curiosos se reuniam para tentar
desvendar os mistérios daquela visitante. Até apostas eram feitas
naquela varanda. Quando ouviam os “ais” da Gema, apostavam que a moça não pernoitaria
ali. Se não ouvissem os “ais” da Gema,
silenciando a cidade, apostavam que a moça
retornaria antes do jantar.
Retornando
sem avisar, ela o pegou remexendo sua mala, que esquecera aberta quando, pela última
vez, saiu num surto só!
_
Tire o seu focinho de gambá das minhas coisas! Saia deste quarto, seu enxerido!
Vá procurar alguém da sua espécie para se intrometer com ele antes que eu lhe
arranque as glândulas fétidas que traz neste seu corpo verticalmente
comprometido! Já estou enjoada de me
hospedar neste seu comércio infame! Fica sempre com isso à vista?
_
Se isso não a agrada, posso escondê-lo. A moça fique à vontade para permanecer
nesta casa o quanto quiser. Se não tiver mais o dinheiro para pagar, nem faço
conta. Basta que a moça me dê a honra de continuar a pernoitar aqui, pois olhe,
me faz companhia. Vivia mesmo muito só!
A moça me agrada por demais!
_
Ah, cala a sua boca! Aliás, qual é o seu nome mesmo, heim!?
_
Se a moça pretende jantar, posso lhe arrumar uns bons petiscos antes que lhe
ponha a mesa.
_
Vá! Sirva-me o que tem aí, que hoje o meu trabalho foi duro! Estou morta de fome!
Metido
a cozinheiro, ele se desfez de um dos seus especiais e o serviu a passarinho com folhas verdes. A mesa parecia
mesmo uma mesa de boteco de fim de mundo resolvido na varanda de uma pocilga.
Ansioso
para não perder aquela hóspede inventada às carreiras, bateu ovos e preparou omelete que serviria
com moelas ensopadas. A garrafa de cerveja, trincando de gelo, a esperava para
refrescar a garganta seca daquele inferno de fim de mundo e da moça também.
_
O que é isso, seu infeliz? Ah, isso, de novo diante dos meus olhos?
_
Ah, sim! Já o escondi. Isso? Preparei com todo o carinho, especialmente para a
senhorita. O frango é fresquinho, tempero que atrai a minha freguesia e a faz
lamber os beiços e pedir mais. Isso é omelete
à moda da casa, batido com fígado picadinho e cheiro verde. Não pus queijo ralado, moças finas costumam apresentar alergia a isso, mas se preferir posso bater outros ao
modo da moça, o que acha?
Devoradora
de Hitchcock, a aprendiz de xeretice ultrapassava
a bizarrice do próprio, abominando qualquer alimento vindo dos galináceos,
principalmente o produto final da fêmea.
Numa
volúpia desencarnada, ela enfiou as mãos por debaixo da mesa, virando-a de
pernas para o ar, fazendo voar os pedaços do frango matado especialmente para
ela. A omelete, ela a esmagou entre os dedos. Com as bochechas sangrando por
dentro, a sua temperatura derreteu o gelo que branqueava o casco da cerveja, que ela tomou na garrafa mesmo.
Diante
da cena, vendo-se vencido, o hospedeiro tratou
logo de esconder o seu bibelô no devido lugar, protegendo-o; igualmente ao
objeto que conseguiu surrupiar da mala da moça.
_
O que fez a moça se desentender assim com a refeição? Se a fome bater no
estômago ainda, posso preparar uma canja que esquente o seu sutil paladar.
Somente
a cadeira onde aquela nervosa se sentava permaneceu no lugar. Nas janelas não
havia mais espaços que encaixassem
cabeças dos frequentadores daquele boteco.
_
Saiam do poleiro, seus piolhos de toupeira! Estão pensando que vão assistir de graça ao
espetáculo que travarei com este porco metido a cozinheiro de fim de mundo?
Sumam da minha frente, seus fuinhas desenturmados, antes que eu pegue as minhas coisas e suma
deste antro de gambás.
Tudo,
menos isso, era o que aqueles espectadores desejavam para a cidade. Voltaram
cada um para as suas posições e continuaram a cuidar dos seus copos e das suas
porções. A moça gelava o seu colágeno com abruptos goles que sugava na boca da
garrafa.
De
repente, já adentrados noite afora, os “ais” começavam a ser ouvidos,
acumulando em um canto só da varanda os que rogavam consumir informações sobre
aquela que ali aparecera tão sem mais nem menos. Ela saiu em disparada quase
que voando para a casa da Gema, mas ele saiu na frente, desembestado, catando
cavaco, e a moça atrás, alçando em seus calcanhares.
O
que ele pretendia tentando chegar primeiro para alcançar o próximo “ai” da
Gema, não se sabe, porque a moça desengonçada plasmou sobre ele, derrubando-o
na poeira seca dentro da qual rolaram. Ele ficou ali, gemendo “ais”, enquanto
ela, escondendo um instrumento, aos
tropeços, atingiu a casa da Gema.
A
população toda correu para o mesmo destino. Encontraram-no caído, gemendo “ais”!
_
Garnisé Galo, cadê o seu bibelô, homem?
_
Aquela dona fugiu com ele, Garnisé?
_
Oh! Nossa! E agora, o que será de você, Garnisé? Que crueldade!
_
É, nós desconfiávamos que você não deveria tê-la deixado ciscar no seu terreiro. Sabíamos que coisa
boa não poderia vir daquilo. Agora, olhe
só para você! Coitado do Garnisé, perdeu o que ele tinha de melhor.
_
Chore não, Garnisé!
A
plateia queria, mais e mais, fitar Garnisé e com tantos “Oh!”, “Oh!” não
se ouvia mais os “ais” com timbre feminino.
Correram,
levando nos braços o exemplo de um suplício. Garnisé perdera o seu porte.
Acharam a porta da casa da Gema arrombada. Pela primeira vez, em anos, a
população conseguiu adentrar aquele ambiente escuro, quente e fétido de onde
ecoavam os gemidos que atordoavam a cidade. E os “Oh!”, “Oh!” repentinos e repetidos, repercutiam dando
novo selo a Zoovolândia.
Era
o momento de Gema aquecer o seu frio. Viram-na coberta. Conseguiram, a tempo, assistir
a uma fusão. As duas coisas tornaram-se, pois,
uma só célula. Aquela visão era clara. Não resistindo à repulsa, chocados, os olhares
fritaram aquela composição, que trazia,
destoando da realidade, um pinto vivo,
que ofegava, no meio da fecundação.
Garnisé
Galo, quietinho no meio do povo, registrava tudo na microcâmera que pegara da
mala. Hoje, de posse dos seus materiais, Garnisé Galo, apostando caro, desafia quem lhe dê a resposta exata sobre
aquela pergunta do ovo e da galinha.
Diante
da certeza de alguns ele mostra um
material. Na dúvida, mostra o outro. Não perdendo, com isso, nenhuma aposta.
Rita
Lavoyer – Membro da Cia dos Blogueiros e UBE.